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A evolução política de Casal Ribeiro tornara-o não só um orador temido na Câmara dos Deputados, mas também um dos nomes Regeneradores mais influentes, sendo, segundo um deputado da época, “(...) indisputavelmente o homem mais importante do partido regenerador (...)”336. No mesmo sentido afirmava Lélio Lenoir, na sua crónica do ano de 1863, que Casal Ribeiro “(…) é inegavelmente o primeiro da camara (…)”337. Foi, por isso, escolhido para encerrar a discussão sobre a resposta ao discurso da Coroa, em Fevereiro de 1863. O principal assunto debatido foi a revolta da «Maria Bernarda», que ocorrera em Abril de 1862 no Norte do país, e que fora de imediato comparada com a Maria da Fonte. Na altura o governo decidira enviar os indivíduos que haviam estado envolvidos na revolta para África, contrariando a vontade do Rei e sem que tenha havido sentença dos tribunais338. Casal Ribeiro considerava ilegal a resolução do ministério, e defendia-se das insinuações de que tinham sido os Regeneradores os responsáveis pelo início dos tumultos. Utilizando um tom por vezes irónico, insurgia-se contra as afirmações feitas pelos membros do governo e pelos deputados governamentais339.

Casal Ribeiro aproveitava para recordar o início da Regeneração, falando da sua participação política nesses anos: “Ao periodo revolucionario da regeneração não pertenço eu. Vá a quem cabe a gloria ou a responsabilidade d’elle. Não estou inocente

333 Idem, ibidem, p.15. 334 Idem, ibidem, p.22

335RIBEIRO, José Maria do Casal, “Solemnia verba – Carta ao Sr. A. L. Magessi, pelo Sr. A. Herculano”, O Atheneu, 3-11-1850, p.347. A mesma opinião foi reforçada em RIBEIRO, José Maria do Casal, Discurso sobre a questão das Irmãs da Caridade, p.35.

336 GUIMARÃES, Ricardo, Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar, p.51. 337 LENOIR, Lélio, Portugal em 1863, Lisboa, Imprensa de J. G. de Sousa Neves, 1864, p.8. 338 RIBEIRO, José Maria do Casal, Discurso proferido em 3 de Fevereiro de 1863, p.36. 339 Idem, ibidem, p.15.

em todas as revoltas que se tenham feito n’este paiz; mas andei antigamente n’ellas com o partido progressista, e nunca com o partido regenerador. Não tive parte na revolução de 1851; mas adheri mais tarde ao governo que d’ella nasceu quando o vi entrar em um caminho francamente liberal e conciliador”340. Esta distinção entre progressistas e regeneradores pode ser entendida como uma forma de Casal Ribeiro preservar a sua posição mais radical da juventude, e salientar o afastamento que escolhera face ao grupo mais moderado que viera a ser o motor da revolução de 1851. Encerrava o seu discurso com uma previsão pouco positiva para o executivo: “Inclino-me a crer que o governo cáe.”341.

Ao contrário do que Casal Ribeiro previa, a administração manteve-se em funções durante algum tempo, organizando em Setembro de 1864 eleições, que os Históricos venceram. Casal Ribeiro foi escolhido como candidato pelos círculos de Vila Flor, em Bragança, e de Idanha-a-Nova, em Castelo Branco, afirmando o próprio que teriam existido “(…) contrarios esforços da auctoridade”342. Apesar da derrota eleitoral, Fontes Pereira de Melo organizou uma viagem ao Norte com o objectivo de congregar apoios, na qual foi acompanhado por Casal Ribeiro, e que se revelou um sucesso343.

Durante esse ano Casal Ribeiro havia integrado uma comissão de estudo sobre o comércio dos cereais no país, a qual propunha ao ministro das Obras Públicas, através de um projecto de lei, a liberalização da exportação de cereais344, assunto este que vinha motivando debate desde a crise das subsistências de 1856.

A conjuntura internacional mereceu também de Casal Ribeiro algumas reflexões, especialmente relacionadas com a questão das nacionalidades e da soberania italiana. No fim de 1864 deu à estampa Rome et l’Europe345, um texto onde se debruçava sobre a chamada Convenção de Setembro, assinada entre o governo italiano e Napoleão III. Segundo Casal Ribeiro, existiam vários conceitos da política internacional que não eram completamente entendidos, gerando por isso confusões. Entre esses casos encontravam-se as noções de revolução e liberdade, e também o caso do espírito de

340 Idem, ibidem, p.41. 341 Idem, ibidem, p.66.

342 A Revolução de Setembro, 18-5-1865, p.1. Casal Ribeiro foi eleito pelo círculo nº49 de Vila Flor com 971 votos, contra os 735 de José Mario Moraes Menezes; DCD, 9-1-1865, p.76.

343 GOMES, Marques, Historia de Portugal, vol.XII, p.229 e A Revolução de Setembro, 10-12- 1864, p.2.

344 RIBEIRO, José Maria do Casal & CORVO, João de Andrade, Relatório e projecto de lei sobre

o commercio dos cereais, Lisboa, Imprensa Nacional, 1864, pp.122-123.

345 RIBEIRO, José Maria do Casal, Rome et l'Europe: qu'est-ce que la convention du 15

nacionalidade, erradamente compreendido como “(…) un tendance supposée aux grandes agglomérations nationales (…)”346.

Casal Ribeiro afirmava que o tratado só continha um artigo verdadeiramente significativo, aquele segundo o qual a capital do reino de Itália era transferida de Turim para Florença347. A Itália tivera um desenvolvimento significativo nos últimos anos, mas o seu governo estava demasiado preso à questão da luta sobre Roma enquanto capital, da qual, nas palavras de Casal Ribeiro, não dependia a unidade italiana348. Ia mais longe ainda: não havia motivos para um combate tão intenso entre o poder temporal e os governos, uma vez que “(...) l’Eglise et la liberté ne se haissent pas!”349. Principalmente, os italianos deveriam compreender que o cristianismo precisava de Roma como seu núcleo, e que esta era a “(…) métropole de la civilisation universelle (…)”350.

O próprio Napoleão III recebeu um exemplar deste texto, fazendo questão de mostrar por carta a Casal Ribeiro a consideração que lhe tinha: “Monsieur, le duc de Massano m’a remis de votre part un exemplaire de la brochure que vous avez publié sur les affaires de Rome. Je la lirai avec un vif intérêt, assuré d’y retrouver les qualités d’esprit qui vous distingue (…)”351. Casal Ribeiro revelava-se assim não apenas um nome cada vez mais importante na política portuguesa, mas também uma figura reconhecida nos círculos políticos europeus.