O Bumba-meu-boi da tradição maranhense se liga a São João pela crença popular de que esse santo tinha um boizinho de estimação, manso e brincante. Foi emprestado a pedido de São Pedro e São Marçal para animar os festejos do 29 e 30 de junho, respectivamente datas destes santos, e acabou sendo sacrificado por pessoas que passavam fome, sem saber de sua natureza especial. Fazer um boizinho novo todo ano, de pano bordado, e movimentá-lo com toada cantada, percussão e dança foi a maneira de dar vida novamente ao novilho de São João. Foi
assim que os maranhenses firmaram uma manifestação que conta no presente, na capital São Luís, com mais de 250 grupos, em estilos variados139.
Conforme a procedência muda o estilo ou “sotaque” de Boi, em continuidade aos jeitos musicais de brincar pelo interior do Maranhão. Há o “sotaque” da Baixada, o de Guimarães, o de Cururupu, o da Ilha e o de Orquestra, como mais conhecidos. Em torno desses grupos, setores da população de cada bairro, que se envolvem articulando o bumba-meu-boi local pela promessa de uma família e pela força de coesão cultural da “brincadeira”.
Os velhos conhecedores de música e verso se encontram todo ano na Páscoa para iniciar as atividades do novo ciclo Joanino. Para cumprir a devoção a São João é preciso re-articular todos os componentes materiais e humanos da brincadeira de maneira nova. Criar toadas novas para se cantar, nas funções tradicionais de Guarnecer, Lá Vai, Chegada, Dona da Casa, Rola Boi, Comédia, Matança e Despedida. Preparar todos os instrumentos: pandeiros, zabumbas, tambores-onça, maracás, matracas, banjos, conforme o “sotaque”. Dar um nome novo para o novo Boi em acordo com os padrinhos festeiros do ano, e um couro novo bordado com novos desenhos, em miçangas finas e vidrilhos brilhantes sobre veludo negro.
Tudo isso demanda colaborações de gente do bairro que conhece cada prática, cada arte e ofício envolvido, do verso ao bordado, da percussão à cestaria, da costura à dança, da ladainha religiosa à toada apaixonada, do encouramento de pandeiros à receita de cozinha, da reciclagem de madeira à piada política, do transporte coletivo à sonorização.
São habilidades diferenciadas que se tocam e se organizam para fazer surgir o Boi do ano, para que pelo 13 de junho do Santo Antonio aconteça o Ensaio Redondo e, na noite do 23, o Batizado do Boi, virando para a madrugada do 24 de junho de São João. A partir desse batizado o Boi sai brincando em comunidades vizinhas, arraiais de turismo, casas de família que têm promessa.
“O Boi é o único sacrifício que São João entende e aceita”, como disse Sylvie Fougeray pesquisando Viana-MA140.
139 Golder, C. 1991.
Pagar uma promessa feita para São João, assim, é receber um Bumba-boi em visita e oferecer alimento e bebida, para que aconteça a “brincadeira” diante da casa que alcançou uma graça de São João. A movimentação nessas noites é contínua até o 29 e 30 de junho, do São Pedro e São Marçal e cada pessoa pode assumir um papel e atuar diretamente na preparação e realização das festas, aprendendo lado a lado com quem sabe. Há muito trabalho para ser feito e quanto mais gente se antecipar para ajudar, mais bonita fica a “brincadeira”. A festa acontecendo em seu dia expressa, em cada detalhe, o que foi possível naquele ano, se foi mais rico ou período de concentração e juízos simplificados, para voltar a firmar o grupo de pessoas. É como um mostrador prolongado, no correr das partes do festejo, da comunidade para si mesma e para visitantes e novos participantes. Evento de sociabilidades mais intenso do que as atividades pagas que toda semana acontecem nas cidades.
É assim que se pode entender que esses grandes festejos tradicionais não competem diretamente com a cultura de massas e nem podem ser por ela substituídos. Porque oferecem prazeres e exigem trabalhos voluntários que vão muito além. E a participação de cada brincante envolvido, como exercício de pertencimento e identidade junto a um grupo, com a disposição generalizada de cantar as novas toadas e dançar, pode ser associada às formas de participação encontradas nos terreiros maranhenses de religião de matriz africana 141. É característica nos Tambores de Mina a manifestação da chegada de um encantado sobre seu devoto a partir de seu próprio canto: o encantado canta, seja ele entendido como de ancestralidade ameríndia ou africana. Diz-se no contexto que o encantado está “doutrinando”, ou seja, cantando a sua doutrina e se identificando em meio à dança e ao rito. Assim também nos Bumba-bois maranhenses certos personagens cantam suas próprias toadas. Já no modelo dos Candomblés baianos,
141 É bom lembrar que no Maranhão o termo mais corrente e generalizado para designar religião de fonte
africana é Tambor de Mina. Diferente dos modelos de origem do Candomblé baiano e do Xangô do Recife, entendidos respectivamente como Keto e Nagô de língua iorubá, aqui o modelo de origem se liga ao Benin, antigo Daomé, de língua Jeje Fon, mas também ao Nagô. Esse modelo afro-maranhense foi transportado para o Pará e Amazonas sucessivamente por devotos iniciados em São Luís e Codó, por todo o século XX. Foi semelhante o que se deu com o Bumba-meu-boi, que no norte seguiu o modelo dos filhos de maranhenses no calendário, nos santos de referência, na musicalidade das toadas e personagens. E em relação às toadas do Boi maranhense, Sotigui Kouyaté, músico griot e ator africano, reconheceu ao ouvi-las pessoalmente, em 2002 e 2003, uma musicalidade aparentada com a do Benin.
tão difundido pelo país, o canto é entoado por músicos acompanhadores especializados, os ogãs, e dentre eles o alabê.