Como alternativas à urbanização e escolarização excludentes, as brincadeiras populares fornecem ainda ambientes de inclusão e aprendizagem independente. Sua transmissão é pessoal, bem na escala qualitativa do ser humano, e não na escala quantitativa da indústria cultural.
Sabe-se que o papel da musicalidade é fundamental para a transmissão oral. Tanto quanto as ciências e artes da escrita, aquilo que se conta, canta e dança é retomado, passa por fixação e revisão de modelos, com produção de novas versões. Todo um humanismo popular e afro-descendente repassou, no histórico do negro brasileiro, músicas, narrativas e ritos. E continua fluindo, através não da escrita, mas da oralidade acompanhada dos sons e movimentos. Exercitados nas danças e cantos, mas também nos gestuais de trabalho, muitos personagens e histórias foram transmitidos e reciclados, dando origem a inúmeros aproveitamentos pelas obras da literatura brasileira, teatro e gêneros musicais.
Nas Folias de Reis, independentes da narrativa cantada do nascimento do "Messias verdadeiro", novas narrativas vão sendo desenvolvidas, especialmente por Bastião, entre outros personagens. Aquilo que Bastião fala e o que é preciso dizer a ele, para pedir a sua dança, são conhecimentos que se escondem, por assim dizer, das escolas e centros de comunicação, cultura e lazer. Abrigada sob o véu da religiosidade, a Folia ficou um pouco oculta, um pouco ao deus-dará, para quem tivesse a devoção e o conhecimento de fazê-la. Ficou nas mãos dos trabalhadores rurais que, ao se mudarem para a periferia de pequenas e grandes cidades, interromperam a aprendizagem com os velhos Mestres. E ficou longe do contato dos professores de educação artística, teatro e música, só lembrada como folclore ou devoção. A escola, sem perceber, vai contra a presença das Folias e outros cortejos e “brincadeiras”, pelo simples fato de não conhecê-los. São deixados de lado, como se fossem totalmente voltados ao rito religioso.
143 Norma McLeod; “Ethnomusicological research and anthropology” (1974) in Ethnomusicology, history, definitions and scope, ed. Kay K. Shelemay, Garland, N.Y. 1992., p. 161
Como outras artes tradicionais populares, tantas vezes desenvolvidas sob o manto da religiosidade, com características expressivas que o catolicismo oficial tolerou sem valorizar, a Folia-de-Reis veio caminhando passo a passo através dos séculos de Colônia e Império no Brasil. Na modernidade aprende a enfrentar outras dificuldades, com uma competição desigual das novas práticas de devoção, lazer e cultura urbana, que chamam a atenção dos jovens.
Na tradição geral da Folia-de-Reis o Mestre sabe e ensina sobre música e verso, iniciando o canto de passagens narrativas que conduzem à Natividade. Os Mascarados, Palhaços ou Marungos, liderados pelo preto Bastião, sabem e ensinam sobre versos cantados e declamados, adivinhas, provérbios, danças, chulas e jogos de pau. E o Patrão - dono da casa visitada - conhece essa cultura, sabe participar e exercitar também um papel narrativo. Trata-se assim de uma coordenação coletivizada de conhecimentos e saberes que os mais novos vão presenciando e aprendendo a seu tempo. E há muitos grupos que surgem com dois trios de palhaços, um trio adulto e um infantil, semente da renovação.
As cantorias da Folia-de-Reis, em perguntas e respostas do Mestre e de seus acompanhantes ao som das violas e outros instrumentos harmônicos, chegam a totalizar sete vozes. O estilo mineiro de cantar Folias-de-Reis é o mais diversificado em vozes. Apenas duas ou três músicas são cantadas em visitas e passagens breves, e a bandeira é levada ao interior da casa, para abençoá-la.
Além do canto, a voz é utilizada nos diálogos entre os personagens mascarados e o dono ou dona da casa visitada, com seu presépio, após a cantoria mais religiosa. O líder dos três mascarados é o Bastião, personagem preto que deve executar, com seus companheiros, danças e versos, se isso for vontade do dono da casa. Forma-se entre os mascarados, conhecidos como palhaços, e o "patrão" da casa, como o chama o Bastião, um jogo lúdico com conteúdo social: os palhaços devem mostrar seu bom "trabalho" em forma de dança, verso e adivinhações, e o "patrão" deve então pagar, com donativo e o alimento possível.
Mas a dança é um diferencial no "jogo" da Folia: ela só começa a partir do pedido lúdico dos anfitriões, em casas que já conhecem e sabem jogar o jogo ou "brincar". E que sabem a maneira de convocar o Bastião à cena, pois ele é o virtuoso, cheio de manhas e habilidades. Quanto mais a visita se prolongar, com o oferecimento sucessivo pelos "patrões" de donativo, alimento ou bebida, mais
surgirão entre os mascarados variações de danças e de enigmas verbais dirigidos ao "patrão".
O reforço de identidade nessas danças é marcante, em especial entre grupos de Folia organizados por famílias de afro-descendentes. Há então seqüências ritmadas de sapateio, jogo de bate-pau, saltos e habilidades de corpo. Tudo em nome da devoção aos Santos Reis, representados no presépio pelos três Reis Magos, com o rei negro entre eles. O rei negro foi o que primeiro chegou a ver a natividade do menino Deus, segundo as narrativas orais desses grupos mineiros.
Se as referências à Folia de Reis são comuns em composições populares de Milton Nascimento, Tim Maia e Ivan Lins, entre outros, as formas musicais da Folia têm sido pouco aproveitadas em âmbito brasileiro, desde as toadas mais lentas até as chulas de palhaços mais movidas. Em cada visita a turma guiada pelo Mestre canta ao menos três toadas arranjadas entre as vozes, organizando o momento em que cada cantante entra e a altura em que canta. O processo se dá como num coral a quatro vozes, com o acréscimo aqui de caixa de percussão e as violas tradicionais, cavaquinhos e rabecas. No estado de Minas Gerais há um grande número de variações locais da cantoria, e os Mestres vão recriando sobre os temas da jornada dos Reis Magos e da Natividade, num entendimento de narrativas orais bem antigas do cristianismo popular.
As comunidades que pesquisei, de Justinópolis e de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, têm muito em comum. Ambas mantém além das Folias de Reis as Congadas e Moçambiques, danças próprias das irmandades de Nossa Senhora do Rosário, transmitidas há gerações pelos afro-descendentes mineiros.
Os Arturos de Contagem são uma família ampliada que se mantém na propriedade adquirida por Artur Camilo Silvério, sucedido no correr do século XX por filhos e netos, nas atividades de trabalho e subsistência e nas práticas de devoção artístico-religiosa. Além da Folia de Reis, ensaiam e dançam as Congadas, com seus Moçambiques e Candombes, e ainda os Batuques de casamento e o João do Mato de acabamento de capina. Cada festejo tem sua época do ano. O mestre da Folia é Sr. Antonio Maria da Silva, o contra-mestre é Sr. Mário Brás da Luz, e o caixeiro de guia é Dunga, que também ensina as brincadeiras do Bastião.
Justinópolis, bairro de Ribeirão das Neves, formou seu Reinado há décadas com apoio dos Arturos de Contagem, e desde então as comunidades se visitam ano a ano nas festas do Rosário, como irmandades aparentadas. A Folia-de-Reis está presente em dezembro, janeiro e fevereiro, com Dirceu como Mestre e Adelmo como caixeiro de guia. Entre os jovens que já exercitam os papéis dos mascarados dançantes, Alemão vem sendo a grande revelação no papel do Bastião, como ficou registrado neste trabalho.