7. ENDRINGAR
8.4 Sterkare styring av innhald
“Abelardo, me dá pelo menos este par de castiçais?”. Ele disse: “Não! O combinado era: você fica com os imóveis e eu fico com a coleção de barroco. Da coleção não abro mão!” (diálogo entre Abelardo Santos e sua esposa no momento da separação do casal, relatado por Déa Castro, primeira diretora do Museu de Arte Sacra)
Continuando a investigação acerca dos objetos que existem nos museus, bem como a trajetória de algumas coleções que se formaram fora deles, passarei a discutir a Coleção Abelardo Santos, uma das mais expressivas que compõem os acervos dos museus do Estado do Pará. Para falar desta coleção, é importante problematizar o apego do colecionador pela mesma. A fala de Abelardo Santos, citada por Déa Castro, foi dita no momento de separação dele e da esposa, e a consequente divisão dos bens do casal. Este renomado médico paraense tinha verdadeiro apego às coisas antigas, em especial pela arte barroca, e constituiu uma belíssima coleção de peças sacras, objetos de cerimônias religiosas e demais artefatos que hoje ornam os espaços expositivos do Museu de Arte Sacra.
175 Abelardo Santos nasceu em Belém, em 3 de fevereiro de 1917 e faleceu no Rio de Janeiro, em 3 de outubro de 1988, desde cedo manifestou interesse por arte, já em 1938 é possível flagrá-lo na Revista “Novidade”, onde era o responsável pela crítica artística. Durante toda a sua vida colaborou em jornais e revistas, sempre escrevendo sobre a arte em suas mais diversas manifestações: música, pintura ou escultura; arte erudita ou popular. A partir da década de 1970, assinou uma conceituada coluna no jornal “O Liberal”. Em 1974, em sua coluna no jornal, Abelardo Santos defendeu os colecionadores que eram sempre acusados de práticas inescrupulosas na formação de suas coleções:
Colecionadores inescrupulosos sem dúvida que os há, mas isso jamais significa que a improbidade seja uma constante dessa atividade. Antes, ao contrário, sempre existiram como ainda existem, aqui como em toda parte, valiosas coleções particulares pacientemente adquiridas sem quaisquer vestígios de desonestidades. (“O Liberal” de 14/04/1974)
No mesmo artigo, Abelardo ressalta que o Pará possui colecionadores do “melhor quilate moral” e cita dentre eles Eládio Lima Filho, Frederico Barata e Dantas Lima. Critica ainda as peças expostas em uma exposição no Theatro da Paz pelo lastimável estado de preservação. O lugar de fala de Abelardo era de alguém estabelecido socialmente tanto como colecionador, quanto como médico pediatra. Segundo Déa Castro, na década de 70 ele já era colecionador e estudioso da arte barroca.
Ele não era apenas um colecionador, mas um estudioso do assunto. Era o grande interesse dele. Ele pegava cada peça que adquiria, ele era um apaixonado, então cada peça que ele conseguia ele explicava nos mínimos detalhes, porque é que ele gostava da peça....Era muito bem informado. Era mais que um hobby. Primeiro, ele era filho único, ele não tinha primos, ele não tinha tios. Parece que os pais também haviam sido filhos únicos. Então ele depois se casou, separou-se. Mas o motivo da vida dele era a coleção de arte barroca. Aquilo não era mais um hobby, era o motivo de sua vida. Ele deixava de comprar, de viajar, para comprar peças barrocas. Era a paixão de sua vida. (Entrevista da Sra. Déa Castro, concedida para realizar o inventário e tombamento da coleção do Museu de Arte Sacra)
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Figura 47: Acervo do Museu de Arte formado pela Coleção Abelardo Santos. Na imagem se vê as esculturas de São José de Botas, São Joaquim, Santana e Nossa Senhora do Rosário no último plano (Foto: Arquivo Institucional SIM/SECULT)
Durante anos, conforme os relatos de Déa Castro, Abelardo Santos não mediu esforços para compor sua coleção com peças barrocas. Ele adquiriu o seu acervo tanto aqui no Estado do Pará, quanto comprava de pessoas de outros estados. Havia pessoas, espécie de informantes, que lhe traziam informações sobre as peças apara aquisição. Quando Abelardo não podia ir pessoalmente fazer a aquisição de uma obra de arte, tinha pessoas que viajavam para ele com esta finalidade.
Ele comprava quase tudo que batia no seu Elias. Seu Elias era o antiquário mais antigo daqui, chamava e ele ia lá para comprar e, às vezes, ele viajava, comprava especificamente de um amigo médico. Não era intensão do médico doar sua coleção para o Estado, pois achava que no Estado tudo ia sumir e a coleção se desfazer. Ele marcava um horário para receber pessoas, para mostrar sua coleção, sempre tinha relação com quem tinha interesse pelas coleções sacras. Acabava influenciando pessoas a colecionar, depois que ele morreu começou a venda. (Entrevista da Sra. Déa Castro, concedida para realizar o inventário e tombamento da coleção do Museu de Arte Sacra)
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Figura 48: Coleção Abelardo Santos na exposição de longa duração do Museu de Arte Sacra. (Arquivo Institucional SIM/SECULT).
A coleção foi adquirida pelo Governo do Estado após a morte do colecionador, mas só foi adquirida sessenta por cento do total do que ele colecionara. Como não tinha herdeiros deixou a coleção para seus empregados que se desfizeram dela, vendendo-a. A parte que foi adquirida pelo Governo do Estado e que está salvaguardada no Museu de Arte Sacra, foi comprada das mãos de José Tupinambá, um dos funcionários do médico. O restante da coleção foi dizimado pelos “herdeiros”. Em 2001, José Tupinambá foi assassinado dentro de sua casa, após ter sido obrigado a abrir o cofre de onde seus assassinos roubaram dinheiro e as joias antigas. Foram acusados como mandantes quatro pessoas das relações da vítima, mas absolvidas em 2009. A coleção é composta por duzentas e vinte e quatro peças dentre imaginárias sacras, acessórios de interiores e objetos cerimoniais e de culto.
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Figura 49: Detalhe da vitrine na qual mostra parte de peças da Coleção Abelardo Santos. (Foto: Arquivo Institucional SIM/SECULT)
3.6. A Coleção Lise Lobato do Museu do Forte do Presépio
A terceira coleção abordada neste trabalho é a Coleção Lise Lobato do Museu do Forte do Presépio. As peças ainda não fazem parte da exposição de longa duração no Museu do Forte, mas pertencem ao museu pela tipologia do acervo que é arqueológico. O contato que tive com a coleção de Lise Lobato, e com a própria artista se deu quando da intenção da mesma em doar obras suas de arte contemporânea para a Casa das Onze Janelas. As obras a serem doadas são feitas em cerâmica, com uma clara influência da cerâmica arqueológica marajoara. Juntamente com as obras de arte contemporânea, a artista manifestou a intenção de doar, sem ônus nenhum, a coleção de artefatos arqueológicos encontrados de maneira fortuita em sua fazenda no Marajó.
Figura 50: Detalhe da área onde foram encontrados os artefatos arqueológicos que fazem parte da Coleção Lise Lobato (Foto: Material da Exposição Meu Quintal é do Mundo)