Um simples sobrevoo sobre a enorme produção ensaística desse período (especialmente de 1965, ano de publicação de Le cosmicomiche) revela que não só na ficção as mudanças foram drásticas, mas também (talvez principalmente) nos ensaios, como bem salienta Adriana Iozzi Klein em sua tese de doutorado188. A parte mais consistente desses ensaios foi reunida por Calvino no já citado Una pietra
sopra - discorsi di letteratura e società. É patente, com o passar dos anos, uma
tendência do intelectual Calvino de separar o homem político do escritor. Não como uma decisão pensada e tomada brusca e definitivamente; mas como uma evolução natural: aquele “personagem do autor”, que nos primeiros ensaios se travestia de um “nós” político confiante e seguro, vai aos poucos - a partir do ensaio “La belle époque inaspettata” (1961) - dividindo-se e disputando terreno com um “eu” que insiste em se diferenciar de sua geração189; nos próximos ensaios - “I beatniks e il ‘sistema’” (1962), “La sfida al labirinto” (1962), “Un’amara serenità” (1963) - percebe- se o atrito ético, ideológico-histórico, estético, com uma geração apenas poucos anos mais nova - mas que não precisou pegar em armas, e talvez por isso tenha uma visão de mundo profundamente diferente. A cisão é indiscutível: “eu” não estou com “eles”, portanto não somos “nós”. Até que em 1965 o ensaio “Non darò più fiato
187 Todas as obras citadas foram publicadas pela editora Einaudi, de Torino. 188 Cf. KLEIN, A. I. Calvino ensaísta..., op. cit.
189
Cf. BARENGHI, M. “Introduzione” a Italo Calvino: saggi, op. cit., bem como KLEIN, A. I. Calvino
alle trombe” sela a definitiva retirada do campo de batalha ideológico: a utopia de “interpretar e guiar um processo histórico”190 parece ter chegado ao fim.
São de 1965 ainda os dois ensaios em que Calvino, em forte polêmica com Pasolini191, critica o mau uso da língua italiana (a antilíngua) e pronuncia-se sobre sua concepção e seu ideal linguístico: concretude, precisão, tradutibilidade192. Paralelamente, no âmbito da ficção, após La giornata di uno scrutatore (1963), esse atenuar-se desiludido da utopia é igualmente sensível, verificável no abandono progressivo das conotações políticas e no deslocamento consciente em direção à auto-referencialidade, à meta-literatura; de certo modo, é uma rendição da utopia ao mito193 (visto sempre com ironia, tendente mais à paródia do que ao modelo), como já levemente indiciado em Marcovaldo. Mas a primeira obra a manifestar claramente esse novo espírito é Le cosmicomiche.
Aos poucos, o “intelectual engajado” admite o “dissolver-se da pretensão de interpretar e guiar um processo histórico”194. Ocupa o espaço dessa utópica e falida pretensão “o senso do complicado e do multíplice e do relativo e do multifacetado que determina uma atitude de perplexidade sistemática”195, em que a política perde progressivamente espaço (“fui aos poucos encolhendo o lugar da política em meu espaço interior”196). E assim a fenda entre as posições do intelectual de esquerda e o escritor das fábulas continua a aumentar até virar abismo, ponto em que cada um decide divorciar-se do outro por incompatibilidade de consciência. O “eu que escreve” toma distância do “eu que vive”, ao construir-se uma sua subjetividade literária, na qual a força da experiência de guerra partigiana e a necessidade de escrever sobre tal experiência como projeto social cujo objetivo seria o de “levar ao centro da ação” o proletariado, já se haviam atenuado, dando lugar a uma dimensão cada vez mais ampla, mais universal, em que o valor da escrita se sobrepõe ao do
190
CALVINO, I. “Presentazione” à Una pietra sopra, op. cit., p. VIII. Trad. bras., p. 8.
191
Sobre a “questão da língua” entre Calvino e Pasolini, cf. BENEDETTI, C. Pasolini contro Calvino. Per una letteratura impura. Torino: Bollati Boringhieri, 1998.
192
Cf. CALVINO, I. “L’italiano, una lingua tra le altre” e “L’antilingua”, ambos in Una pietra sopra, op. cit., p. 116 e 123, respectivamente. Trad. bras., p. 140 e 148.
193 Guido Bonsaver, em seu excelente estudo, sugere que o mito na obra calviniana segue em termos
gerais justamente a concepção de Lévi-Strauss, enquanto serve para “pôr em cena” o dualismo de uma contradição insolúvel, e o faz através da composição de uma “narrativa” de tal contradição, sem efetivamente resolvê-la. Diz Bonsaver: “Calvino, rejeitando todo pedagogismo, evita ditar respostas ou soluções e se limita a representar o núcleo do problema em vestes literárias”. In BONSAVER, G. Il
mondo scritto, op. cit., p. 175.
194
CALVINO, I. “Presentazione” à Una pietra sopra, op. cit., p. VIII. Trad. bras., p. 8.
195 Idem, ib.
engajamento. A visada crítica de Calvino se manifesta nas obras narrativas principalmente mascarada sob o símbolo ou, preferivelmente, a alegoria; mas torna- se progressivamente uma crítica tendencialmente apolítica e a-ideológica, centrada na reflexão sobre o comportamento do indivíduo na sociedade, em caráter quase abstrato, ligado à terra apenas por um fio, como as pipas da cidade de Anastácia197. O crítico Alfonso Berardinelli, que percebe esse desencantamento político-histórico como fuga198 dos aspectos mais complexos da realidade italiana, afirma:
“Calvino, por volta da metade dos anos 60, deixa a Itália e se transfere a Paris (...). Aos olhos de Calvino, a atmosfera cultural e política italiana devia parecer, na época, sempre mais trabalhosa, confusa e sobretudo literariamente pouco atraente. O idílio tinha acabado: Calvino narrador fantástico e militante, fábula iluminista e curiosidade pela vida social italiana eram polaridades que não se encontravam mais em feliz equilíbrio.”199
Em outro ensaio, Berardinelli afirma: “Calvino, burguês iluminista e cosmopolita, escreveu em uma belíssima prosa italiana média, que parece normal mas talvez seja somente uma utopia racional”200. Mais uma vez Berardinelli salienta a distância da prosa calviniana da realidade italiana em ebulição nos anos sessenta e setenta. Uma prosa que, para grande parte dos críticos, adquire mais valor quanto maior a inserção e a compenetração com as questões sociais e políticas. O grande silêncio de Calvino sobre os fatos de “crônica”, sobre a atualidade italiana, que sentia cada vez mais caótica, incompreensível e portanto inenarrável, é comprovado também pela sua ausência dos jornais: desde sua despedida do Partido Comunista e do jornal L’Unità (1956), Calvino não publica regularmente em quotidianos até
1974201. Mas mesmo quando torna a escrever sobre questões de atualidade italiana nos jornais, Calvino faz questão de “manter um tom pacato e de não cair no narcisismo”202. Marco Belpoliti, referindo-se aos artigos daqueles anos, afirma: “A
197 Cf. CALVINO, I. Le città invisibili, op. cit.
198 “Fuga: acredito que seja esta uma das palavras-chave para interpretar a evolução ou a involução
experimental da narrativa de Calvino. Calvino é sobretudo um menino que foge de um perigo rindo de medo, porque confessar o medo seria impossível para seu estilo.” In BERARDINELLI, A. “Calvino moralista. Ou, como permanecer sãos depois do fim do mundo”, in Novos Estudos Cebrap, nº 54, jul 1999, p. 100, tradução de Maria Betânia Amoroso. Originalmente publicado na revista Diario. Piacenza, ano VII, nº 9, fev 1991, p. 37-58.
199 Idem, p. 98. 200 BERARDINELLI, A.
Nel caldo cuore del mondo. Lettere sull’Italia. Roma: Liberal Libri, 1999, p. 77-
78.
201 Em 1974 Calvino voltará a publicar regularmente no jornal Corriere della Sera, onde virão à luz as
primeiras aventuras do Senhor Palomar. A colaboração de Calvino com o Corriere dura de abril de 1974 a novembro de 1979.
moral do dever-ser e a ética do ‘engajamento’ impedem Calvino de mostrar sua face mais irônica, e induzem-no a procurar sempre uma solução para os problemas”203. Calvino praticamente não comenta questões de política, nem mesmo o terrorismo das Brigadas Vermelhas204, mas critica duramente a fragilidade do senso cívico da sociedade, ataca duramente a corrupção geral, e “invoca uma ‘Itália melhor’ que não se sabe se existe ou não”205, assim como “invoca a responsabilidade individual e a consciência”206. Franco Fortini, eterno adversário crítico de Calvino, entendendo esse tom impassível como neutralidade à beira da indiferença, acusa-o de um moralismo oco, de subestimar a gravidade da situação e de ser um “otimista à sombra do poder”207. Será na esteira de Fortini que Berardinelli, seu discípulo intelectual, criticará com veemência o “moralismo” de Calvino, entendendo-o como um modo de não se expor, de não assumir riscos, de dar ao público somente mensagens, no fundo, de otimismo apaziguador208. Na verdade, essa atitude (daquele que escolheu subir às árvores não para afastar-se da sociedade à qual pertence, mas para poder olhá-la de cima) de distanciamento das vísceras da sociedade atrai também todos os furores de um dos grandes intelectuais do pós- guerra italiano, seu amigo e oposto simétrico, Pier Paolo Pasolini, que o acusa de “deserção, de silêncio doloso, de acomodação bem-pensante”209. Imune a todas as críticas a esse seu pretenso otimismo e moralismo, paralelamente à crescente
203 BELPOLITI, M. Settanta. Torino: Einaudi, 2001, p. 31. É fundamental esclarecer que
“engajamento” aqui significa, para Belpoliti, engajamento ético-social, não ideológico.
204
Exceção é o artigo “Le cose mai uscite da quella prigione”, em que comenta o sequestro e assassinato de Aldo Moro, publicado no Corriere della Sera de 18 de maio de 1978, nove dias após o encontro do cadáver de Moro. Domenico SCARPA (A lingua tagliata, op. cit., p. 19) lembra que durante os 55 dias que durou o sequestro Calvino não publicou nenhum artigo, dando novamente espaço a inúmeras críticas sobre seu silêncio.
205 SCARPA, D. A lingua tagliata, op. cit., p. 10. 206 Idem, p. 11.
207 FORTINI, F. “Breve secondo Novecento”. In LENZINI, L. (Org.). Saggi ed epigrammi. Milano:
Mondadori, 2003, p. 1138.
208 Cf. BERARDINELLI, A. Calvino moralista, op. cit. A essa interpretação da atitude de Calvino por
parte de Berardinelli opõe-se Mario Barenghi, que procura contrastá-la em uma sua comunicação no Colóquio Internacional sobre a obra de Calvino, realizado em Nova York em 1999: cf. “La forma dei desideri – l’idea di letteratura di Calvino”, in BOTTA, A. e SCARPA, D. (Orgs.). Calvino newyorkese, op. cit., p. 27-40. O texto de Barenghi já havia sido publicado como “Posfácio” a CALVINO, I. Mondo
scritto e mondo non scritto. Milano: Mondadori, 2002.
209 Cf. SCARPA, D. A lingua tagliata, op. cit., p. 13. Na verdade, desde os anos sessenta (mas até os
dias atuais), as figuras de Calvino e Pasolini têm se prestado a comparações inúmeras, como modelos opostos, no que diz respeito à atitude de escritores e intelectuais. Scarpa assim coloca a questão: “O de Pasolini é um mundo de contrastes violentos, traduzidos em um aceso cromatismo verbal, um florescer de oxímoros convertidos em uma escrita que procede por acúmulo; enquanto a realidade desenhada por Calvino é evanescente, translúcida, urdida, complexa, e desde o princípio seus livros são construídos por subtração, sobre um oculto equilíbrio de cheios e de vazios”. Op. cit., p. 13.
descrença na política (na política como resultado) Calvino expande o espaço crítico da literatura como consciência existencial e social - em uma progressão realista- pessimista, praticamente sem interrupções de ânimo, que culminará na declaração de 1980:
“Certamente o mundo que tenho hoje sob os olhos não poderia ser mais oposto à imagem que aquelas boas intenções construtivas projetavam para o futuro. A sociedade se manifesta como colapso, como ruína, como gangrena (ou, nas suas aparências menos catastróficas, como vida dia-a-dia); e a literatura sobrevive dispersa nas fendas e desconjunturas, como consciência de que nenhuma queda será tão definitiva a ponto de excluir outras quedas.”210