• No results found

FUNKSJONELLE  OG  FUNKSJONELL-­‐ORGANISKE  STEMMEVANSKER  HOS

Na Itália do final dos anos 50 e começo dos anos 60, uma vez exaurido o filão neorrealista, o panorama da narrativa é bastante eclético: de um lado mantém-se firme um filão mais convencional (Alberto Moravia, Carlo Cassola, Giorgio Bassani, Vasco Pratolini, Elsa Morante, Primo Levi, entre outros), inclusive com uma forte ressurreição do “romance histórico”, representado pelo grande sucesso de Il

Gattopardo211, de Tomasi di Lampedusa. Pavese tinha morrido em 1950, Elio

Vittorini, embora só venha a morrer em 1966, escreveu seu último romance em 1958-59. Leonardo Sciascia abre um novo filão narrativo de forte impacto sobre o público: o realismo “policial” dos romances sobre a Máfia siciliana, primeiro dos quais Il giorno della civetta212, de 1961. Um certo surrealismo também encontra espaço, e tem em Tommaso Landolfi e Dino Buzzati seus melhores representantes. Brilham as estrelas solitárias de Gadda e Pasolini, amados e odiados quase sem meios-termos, o primeiro pela unicidade de sua obra, o segundo também pela originalidade da obra, mas talvez principalmente pela atividade militante, incômoda e “escandalosa” prática de denúncia das chagas sociais e dessacralização das instituições.

Num primeiro momento dessa complexa realidade (anos 50), vai se deslocando o centro de equilíbrio das polêmicas ideológicas antes centradas no engajamento político obrigatório de todo intelectual e toda forma de arte; a presença da guerra pouco a pouco torna-se um fantasma, e a sua força de tema artístico

210

CALVINO, I. “Presentazione” à Una pietra sopra, op. cit., p. VII. Trad. bras., p. 7-8.

211 TOMASI DI LAMPEDUSA, G. Il Gattopardo. Milano: Feltrinelli, 1958. 212 SCIASCIA, L. Il giorno della civetta. Torino: Einaudi, 1961.

começa a tornar-se “memória difícil”. A polêmica sobre a “arte engajada”, porém, ainda está aberta e dela participa Calvino, consciente de que a arte não pode e não deve alimentar-se somente de memória, de política ou de sociedade (como, de resto, nunca o fez). Nesse momento, na Itália, a predominante política cultural do Partido Comunista é fortemente influenciada pelas teorias estéticas de Andrei Zdanov, que basicamente propõe como novo cânone artístico o “realismo socialista”213, ou seja, a adoção de temas simples da vida quotidiana, representados através de uma linguagem clara e comum, com o objetivo de fundo de evidenciar uma possível superação da sociedade capitalista elitista, em favor de uma nova coletividade igualitária. Naturalmente, nesse momento a grande guerra e a guerra civil não têm mais a força para constituir-se em tema de arte, em tema da narrativa, e o partigiano não constitui mais o modelo ótimo do protagonista; o “novo herói” desse contexto é o trabalhador, o operário, o subproletariado apresentado com seus valores positivos, muitas vezes retratados com pesadas tintas ideológicas e simplificações preconceituosas, principalmente por conta de uma certa pressão ou tentativa de cerceamento de temas e formas de expressão, exercida por parte da intelectualidade de extrema esquerda, da crítica fundamentalista e mesmo de inúmeros autores fortemente engajados. Mas, como afirma Nicoletta Misler214, mesmo internamente à inteligência militante, há outro polo que busca um caminho possível para tentar traduzir, ou ao menos adaptar autonomamente as diretivas sobre arte, provenientes das altas esferas soviéticas, a uma feição própria do realismo marxista italiano: um caminho que passa pelo pensamento heterodoxo de Gyorgy Lukàcs215 e pelas reflexões de Antonio Gramsci216. Nesse contexto matura a autonomia estético-política de Calvino, comunista militante mas não dogmático, influenciado principalmente pelas opiniões de Elio Vittorini, ferrenho defensor da

213 As teorias estéticas de Andrei Zdanov são o principal ponto de referência para os artistas

soviéticos, pelo menos até a morte de Stalin (1953). Zdanov morre em 1948, mas sua obra começa a ser divulgada na Itália somente em 1949 (ZDANOV, A. Politica e ideologia. Roma: Edizioni Rinascita). Sobre o “zdanovismo” ou “realismo socialista” na Itália, cf. GUIDUCCI, A. Dallo zdanovismo allo

strutturalismo. Milano: Feltrinelli, 1967. Cf. Também AJELLO, N. Intellettuali e PCI. 1944-1958. Roma-

Bari: Laterza, 1979.

214 MISLER, N. La via italiana al realismo. La politica culturale e artistica del PCI dal 1944 al 1956.

Milano: Mazzotta, 1973.

215 As primeiras obras de Lukàcs são publicadas na Itália logo após a Segunda Guerra Mundial:

Goethe e il suo tempo (Milano: Mondadori, 1949) é a primeira, seguida de Prolegomeni a una estetica marxista (Roma: Editori Riuniti, 1951); seguem, entre outras, as mais conhecidas Il marxismo e la critica letteraria (Torino: Einaudi, 1953), Teoria del romanzo (Roma: Newton Compton Italiana, 1962), Il romanzo storico (Torino: Einaudi em 1963).

216 As primeiras publicações da obra de Gramsci também aconteceram logo após o final da Segunda

liberdade estética. Também em nome da liberdade estética, no começo dos anos 60 manifesta-se a chamada “neoavanguardia”, que depois confluirá no “Gruppo 63”, assim chamado porque surgiu “oficialmente” em uma reunião de cerca de 30 escritores, poetas e críticos, ocorrida em outubro de 1963 em Palermo217. O “Gruppo 63” nunca redigiu um manifesto nem determinou objetivos, linhas de pesquisa ou regras específicas para adesão; essencialmente eram intelectuais extremamente insatisfeitos e críticos em relação à produção literária demasiado convencional dos anos cinquenta, e em comum defendiam principalmente a renovação estética, o direito ao experimentalismo, a ruptura dos esquemas tradicionais do romance e da poesia, mas sem exclusão de participantes por questões de orientações estéticas ou ideológicas218. Alguns de seus principais articuladores foram os escritores Luciano Anceschi, Alberto Arbasino, Nanni Balestrini, Angelo Guglielmi, Renato Barilli, Giorgio Manganelli, Edoardo Sanguinetti, Umberto Eco.

Ainda no começo dos anos sessenta, além das correntes neovanguardistas, há uma crescente valorização da chamada paraliteratura: o romance popular, a fotonovela, as histórias em quadrinhos e formas similares são discutidas e apreciadas por grandes nomes da crítica cultural. Em 1965 é publicado o primeiro número da revista Linus219, que trata os comics como “coisa séria”; a atestar a importância que se começa a atribuir aos quadrinhos, basta citar alguns nomes desse número inaugural: abre a revista um breve editorial de Giovanni Gandini, seguido por uma longa entrevista de Umberto Eco, com Elio Vittorini e Oreste Del Buono, sobre a literariedade e a importância dos comics.