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G.4.2.3 @kologiske £orhold,

6.4.4 STELLARO -OXYRION

atividade tatuando-a no corpo.

Fonte: foto esquerda pertencente à Cláudio dos Santos, foto direita pertencente Douglas Prado.

Se a transformação apresentadas até o momento envolvem mudanças nas formas de pescar e também dos equipamentos utilizados, ela ainda é parcial se não mencionarmos a maior mudança ocorrida nesta atividade, que é a liberação dos peixes após a captura dos mesmos. Esta prática de liberar os peixes capturados, segundo Ceccarelli (2006, p. 09) tornou-se popular no país, mas esbarrou “na pouca disponibilidade de informações técnicas sobre os procedimentos adequados à captura e soltura dos peixes”, e desta forma, fez surgir, conforme aponta o autor:

A necessidade de desenvolvimento de técnicas adequadas relativas ao manuseio dos peixes capturados, levou o centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros Continentais – CEPTA, Centro Especializado do IBAMA, com apoio do PNDPA, a realizar um rol de pesquisas sobre a pesca amadora, abordando inclusive a modalidade pesque-e-solte, considerando os efeitos desta prática sobre a integridade física dos peixes e suas funções vitais. Dessas pesquisas resultaram trabalhos sobre a sobrevivência dos peixes capturados na modalidade pesque-e-solte, e o desenvolvimento de técnicas e procedimentos adequados que vêm minimizar os efeitos nocivos da captura/soltura dos peixes (CECCARELLI, at all. 2006, p. 09).

Os resultados destas pesquisas são amplamente conhecidos entre os pescadores esportivos de diversas regiões do Brasil, pois estiveram disponível

no site do IBAMA por um longo período, possibilitando que um grande número de pessoas tivessem acesso as informações que resultaram na publicação do livro intitulado “Pesque-e-Solte: informações gerais e procedimentos práticos”. Desta forma, resumiremos as principais informações contidas no livro citado e que são parcialmente incorporadas às condutas dos pescadores.

Esta obra revela que quando um peixe é capturado, os equipamentos utilizados para libertá-lo, tais como alicates utilizados para retirar o peixe da água e para liberar o anzol do mesmo, devem estar sempre próximos ao pescador, pois quanto mais rápida for ação em desvencilhar o peixe do anzol e devolve-lo ao ambiente, maior será a sua probabilidade de recuperação e sobrevivência.

A escolha dos equipamentos também deve levar em consideração as espécies e tamanhos desejados, pois segundo informa a obra, a escolha de equipamentos frágeis pode provocar um tempo maior na “briga” entre pescador e peixe, estressando o animal de tal forma que, mesmo sendo solto após a captura, este não sobreviverá. Utilizar equipamentos muito resistentes, desproporcional ao tamanho dos peixes capturados, pode acarretar lesões físicas no momento da fisgada.

A linha também deve ser adequada ao tamanho do peixe, pois caso a utilizada seja frágil, corre o risco de se romper, deixando preso, ao animal, o anzol utilizado. A obra ressalta também que o pescador ao manusear os peixes capturados, evite que as mãos entrem em contato com as guelras (brânquias) dos peixes, pois este é o órgão responsável pela respiração do animal. O contato com a pele do peixe deve ser evitado também, pois o muco que reveste a pele do animal o protege de fungos e bactérias existentes.

Para evitar o contado do peixe com o pescador é recomendada a utilização de alicate com extremidades arredondadas, utilizado para segurar o peixe pela boca. O tempo do animal fora da água deve ser o mínimo necessário, e se possível, aconselha-se a não retirar o peixe totalmente para fora da água. No ato da soltura do peixe, o pescador deve segurá-lo suavemente pelo ventre (barriga) e liberá-lo quando o peixe estiver recuperado.

Estes procedimentos são de conhecimento de muitos pescadores que praticam a pesca esportiva na bacia do rio Araguari, os quais por vezes colocam em prática parte desses procedimentos no ato de soltura das espécies capturadas.

Embora o sofrimento e ferimento dos peixes sejam inevitáveis, a soltura dos peixes é a principal característica, ou de forma mais precisa, é a essência da pesca esportiva. Devolver um peixe capturado é a garantia de sucesso nas pescarias futuras, e para uma grande parcela de pescadores, soltar os peixes capturados é mais que uma garantia de pescarias futuras, é uma obrigação que envolve valores pessoais e morais em relação à vida e preservação das espécies de peixe.

Conforme revela o depoimento abaixo, a opção em pescar com iscas artificiais ocorreu, entre outros motivos, pelo fato de evitar o sacrifício de pequenas espécies de peixes como atrativo na pesca. Assim relata o entrevistado:

Como pescador eu passei por diversos tipo de pesca, com pesca com isca viva, até que eu cheguei na pesca esportiva, optei pela pesca esportiva, porque nela você já não sacrifica um peixe pra fazer de isca né, usa isca artificial... Com o tempo, eu vi que meu objetivo na pesca, era mais o lazer com o peixe ali, do que o comer ele, consumir ele, então eu passei a não matar, a não depredá o que me leva a pescá, ai optei pelo pesque e solte que é conhecido ai popularmente80.

A opção em soltar o peixe se justifica pela preservação do lazer, mas também envolve valores pessoais e morais em relação à vida animal. Nos trabalhos de campo, percebemos que há pessoas que mesmo soltando peixes, ainda o veem como fonte de lazer e alimento, enquanto outros são radicais, e não concebem e não permitem o sacrifico dos peixes em hipótese alguma, assim relata um entrevistado:

Na pesca esportiva, que agente amadureceu a ideia fazer o pesque e solte, sem mediocridade, que também eu gosto de peixe, como peixe, meu filho e minha família gosta de peixe, então agente mata peixe

80 Entrevista realizada com pescador esportivo no lago da UHE de Nova Ponte, no município de Pedrinópolis-MG.

também, mas a minha entrada na pesca esportiva ta com cerca de 15 anos81.

Já outro entrevistado relata o oposto:

Nós temos pescador tão radical que nem tucunaré, se ele for num... vamos supor que ele vai num restaurante e oferecer tucunaré pra ele, o cara não come, de tão apaixonado pelo peixe. Igual a turma do sashimi, vai lá pega 50 peixe, solta 49 e um eles matam pra faze um sashimizinho, pra comê, pra tomar uma cervejinha. Já tem outros que não, já são muito radical, embarcar cota zero, não aceita nenhum peixe no barco deles, eu sou dessa turma, peixe nenhum eu mato. Eu solto todos, nenhum entra no meu barco, e quem tá comigo também não embarca nenhum, porque geralmente eu pergunto ‘não quer trazer peixe não né?’, porque no meu barco não embarca82.

Ainda sobre a nova relação que se estabelece entre homem e animal mediado pelo lúdico, apresentamos outro depoimento que evidencia uma completa transformação dos valores existentes em relação aos peixes e o direito a vida. Assim, relata o entrevistado:

Os outros seres também tem direito a vida. Nós enquanto seres humanos não temos o direito de cerceia, e na verdade, dar uma direção na vida de qualquer espécie, eu acho que eles tem que ser autossuficientes, e eles só conseguem fazer isso tendo um ambiente preservado, intacto83.

Entendemos que os depoimentos expostos acima revelam um reordenamento do homem em relação aos animais, e que é permeado por novas condutas e valores. Valores que, de certa forma, questionam a superioridade ou antropocentrismo em relação aos animais e o direito que os humanos construíram culturalmente e legitimaram socialmente de subjugar e sacrificar outras formas de vida em benefício próprio.

Thomas (1989), em estudo realizado na Inglaterra, pesquisou a transformação das relações que o homem estabelecia com as plantas e os animais. Seu estudo revela que essa transformação foi lenta, durou aproximadamente três séculos, e contou com muitos elementos que

81 Entrevista realizada com pescador esportivo e representante comercial no município de Uberlândia-MG.

82 Entrevista realizada com pescador esportivo e empresário no município de Uberlândia-MG. 83 Entrevista realizada com pescador esportivo no município de Uberlândia-MG.

culminaram com o questionamento das condutas humanas e a descentralização do homem na relação que este estabelece com os animais, explorando-os em benefício próprio. Dentre estes elementos, os principais citados foram a afirmação da ciência, que desvendou e desmistificou diversos dogmas existentes na sociedade e no mundo natural; o questionamento dos valores religiosos, que em parte justificavam o sacrifício animal, e principalmente o surgimento e consolidação do processo urbano-industrial na Inglaterra. Para Thomas (1989) foi só a partir do século XVIII, na Inglaterra, que efetivamente surgiram novas sensibilidades “em relação aos animais, às plantas e à paisagem. O relacionamento do homem com outras espécies foi redefinido; e o seu direito a explorar essas espécies em benefício próprio se viu fortemente contestado” (THOMAS, K. 1989. pág. 18). Para este autor:

Os processos puramente intelectuais precisaram ser estimulados pela transformação social externa. O triunfo da nova atitude esteve estreitamente vinculado ao crescimento das cidades e à emergência de uma ordem industrial em que os animais se tornaram cada vez mais marginais ao processo de produção. Tal ordem industrial emergiu pela primeira vez na Inglaterra, como resultado, nela a preocupação com os animais foi mais amplamente externada, embora o movimento não se restringisse a esse país. (THOMAS, K, pág. 217)

Percebemos que as novas sensibilidades existentes em relação à pesca e aos peixes na área de estudo, também é fruto de uma transformação sócio- espacial, e está claramente vinculado ao processo urbano-industrial e a conquista do tempo livre no cotidiano das pessoas. Destacamos que estas novas sensibilidades, de fato, não excluem os maus tratos provocados aos peixes durante as pescarias, e por vezes, nem o sacrifício dos mesmos é evitado, quando parte das espécies capturadas são consumidas pelos pescadores. De fato há uma nova sensibilidade que é acompanhada de novos valores e práticas, assim como há um sofrimento consentido nesta relação, embora a preservação da vida dos peixes seja preservada com a liberação dos peixes capturados.

FOTO 25: Pesca Esportiva. Liberação de tucunaré na represa Capim Branco II no torneio