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Propor uma conduta de abordagem52 pronta para ser seguida em todos os estudos

do processo de formação, seria tarefa árdua, para não falar impossível e desaconselhável. Não obstante, algumas diretrizes e fundamentos gerais para esse propósito possam e devam ser trazidos à luz. Com efeito, sejam quais forem as linhas a serem sugeridas, elas devem estar fundamentadas na experiência, no pensamento científico. Devem conferir à matéria, em sua fisicalidade, o estatuto de documento de processo, ou seja, memória de uma poiesis. De tal modo, que assim procedendo, restitui-se o papel heurístico do objeto.

Portanto, para uma abordagem do processo, como em qualquer construção de conhecimento científico, deve-se basear num número finito de observações, procurando descrever e relacionar os fenômenos observados, para que através da construção de leis gerais se possa prever então novos fenômenos. Em vista disso, admite-se o fenômeno como base à construção do conhecimento científico. Portanto, é razoável não deixar esquecer as

faculdades necessárias ao pesquisador para o estudo dos fenômenos53. São elas54:

50. Não se trata portanto, nas pesquisas de CP, simplesmente de descrever os procedimentos de formação da obra ou quão o autor foi criativo em determinado momento. Não seria esse o propósito da CP.

51. O corpus desta pesquisa por se tratar de um conjunto de casas vernaculares, de um mesmo tipo, fica mais próximo deste último caso.

52. Por não ter sido encontrado uma metodologia única adotada entre os críticos, assim como se admitindo também a impossibilidade de tal proposição, isento-me dessa pretensão. Mas impossível não estabelecer um paralelo entre algumas abordagens encontradas em autores da CG e da crítica de arte que de alguma forma trazem sistematizadas as etapas do trabalho do crítico. Com a intenção de explicitar as etapas tal como apresentadas por Louis Hay e Giulio C. Argan as denominações para as quatro etapas foram mantidas. Para Hay as etapas são: definição, decifração, datação e interpretação como designadas no texto "Criação em Processo". Para Argan há de certo forma etapas correspondentes, porém com uma diferença na última etapa, sendo ela denominada como atribuição de autenticidade. Cf. ARGAN; FAGIOLO, 1994.

53. Segundo Charles S. Peirce o estudo do fenômeno ou como ele a designou Phaneroscopy é a descrição do phaneron; e por phaneron [ou fenômeno] se entende o coletivo total de tudo que de alguma forma ou sentido está presente à mente, não considerando se corresponde a qualquer coisa real ou não (Collected Papers 1.284).

A primeira e mais importante é a rara faculdade de ver o que está em frente, simplesmente como se apresenta em si, não substituída por qual- quer interpretação, despida de qualquer comparação com esta ou aquela suposta modificação de circunstância. Essa é a faculdade do artista que vê, por exemplo, aparência das cores na natureza como elas se mostram; A segunda faculdade que temos de nos armar, é a resoluta discriminação de uma característica particular encontrada [...]. Procurando por onde quer que ela possa esconder-se e detectando-a sob todos seus disfarces; A terceira faculdade que deveremos precisar é o poder de generaliza- ção do matemático que produz a fórmula abstrata que compreende cada essência da característica em exame, purificada de todos os acessórios estranhos e irrelevantes ao acompanhamento.

Mas como uma pré-ciência – a fenomenologia – pode da realidade afirmar algo? Seguindo em coerência com a arquitetura da ciência proposta por Peirce, é no domínio da Semiótica, parte terceira da Ciência Normativa, que se encontrará a correta conduta para construção do signo que representará adequadamente o objeto em estudo.

Para uma sucinta, rigorosa e esclarecedora abordagem da Semiótica, propõe-se

seguir a explicação apresentada por Lauro da Silveira55, em que inicia seu curso com o

conceito para ciência dos signos retirado dos escritos de Peirce56.

Em seu sentido geral, a lógica é, como acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica, a quasi-necessária, ou formal, doutrina dos signos. Descrevendo a doutrina como quasi-necessária ou formal, quero dizer que observamos os caracteres de tais signos e, a partir dessa obser- vação, por um processo que não objetarei denominar Abstração, somos levados a afirmações, eminentemente falíveis e por isso, num certo senti- do, de modo algum necessárias, a respeito do que devem ser os caracteres de todos os signos utilizados por uma inteligência “científica”, isto é, por uma inteligência capaz de aprender através da experiência.

O primeiro ponto a ser observado é a relação de identidade estabelecida pelo autor da citação entre lógica e Semiótica. A lógica, em sentido geral, insere-se à arte de racioci- nar, como um operador para assegurar a posse completa e o poder de realizar inferência. Ressalta-se, também na definição apresentada, a característica de ser "quasi-necessária, ou

55. Dos textos para o Curso de Introdução de Semiótica Geral para a Pós-graduação da UNESP de Marília. Segundo o autor, estes textos propositadamente não assumem a forma de um livro ou mesmo de um artigo. Têm por finalidade pre- cípua facilitar aos alunos o acesso à teoria semiótica proposta por Charles Sanders Peirce (1839-1914).

formal" a doutrina peirceana dos signos. A lógica, no sistema de classificação para ciên- cia, elaborado por Peirce, encontra-se ora como uma parte da Matemática, ora identificada como Semiótica. A Matemática é caracterizada como a prática do pensamento necessário

e a lógica como o estudo e a análise do pensamento necessário57. Desse modo, através da

lógica, Peirce estabelece a coerência entre os vários níveis de sua arquitetura científica58.

Importante ressaltar que para o autor da ciência dos signos, todo pensamento está atrelado ao uso da observação e por isso de um modo geral, ligado a percepção. Assim, todo processo reflexivo inicia-se e tem continuidade através da experiência com objetos de natureza diversa. Na Matemática, trata-se da "observação de objetos artificiais [...] como

Gauss tem afirmado, a álgebra é a ciência do olho"59. No entanto, já na Filosofia, trata-se de

objetos constituídos principalmente da experiência com o real.

O objeto matemático proporciona um exercício intelectual que se justifica por si, puramente formal, não constituindo assim envolvimento necessário com a experiência. No domínio da Matemática, a lógica – nominada lógica dedutiva ou álgebra lógica – opera na construção de formas puras, enquanto que identificada como a Semiótica operará de forma falível, assim de modo algum necessária.

Dessa maneira, clara fica, a condição de ser "quasi-necessária"60 da doutrina dos

signos, pois a natureza da necessidade estrita é do domínio da matemática, como esclarece Lauro da Silveira. Devendo operar a Lógica – suis generis – ou Semiótica ao modo da necessidade, à maneira de qualquer procedimento formal, ou seja "quasi-necessária". O autor das idéias para uma Filosofia Científica, em um outro momento, por rigor ou hábito na construção do pensamento científico, afirma que "qualquer teoria do conhecimento que

não se ajusta a esse fato deve ser abandonada"61 .

Entretanto, há ainda outros pontos que devem ser enfatizados na citação, tais como

o caráter abstrato da semiose62 – base para o entendimento de um pensamento diagramático

57. Cf. ROBERTS, 1973, p.16. 58. Cf. CARDOSO, 2003. p.27.

59. PEIRCE apud ROBERTS, 1973, p.16-17. 60. Sufixo modelizante quasi-, do latim ao modo de. 61. Cf. PEIRCE, Collected Papers 3.92.

62. Semiose é um termo originalmente usado por Peirce para designar qualquer ação do signo ou processo sígnico; em ge- ral a atividade do signo. [...] Para Peirce, semiose é irredutivelmente um processo triádico no qual um objeto gera um sig- no e que por sua vez gera um interpretante, que gera futuros interpretantes, ad infinitum. COLAPIETRO, 1993, p.178.

– e um outro o de "uma inteligência capaz de aprender com a experiência"63. "Aprender

com a experiência", trata-se de uma conduta aberta a todos os homens, seja no dia-a-dia ou num rigoroso processo de pesquisa científica. Nessa perspectiva do conhecimento formado a partir da relação com o real, Peirce restabelece o vínculo perdido, ao longo da formação do pensamento ocidental, entre filosofia e experiência. Restituída à filosofia de seu caráter científico, Peirce a constitui com a Semiótica. A ela cabe, ora nas palavras de Lauro da

Silveira64

observar o fenômeno que se deseja estudar, propor sob a forma de uma figura imaginária, denominada Diagrama, um conjunto de relações que espera melhor representar aquele fenômeno e desse modo antecipar como deverá proceder, [alcançando] efetivamente em seus exemplares concretos, a interação pretendida com o fenômeno. [Assim para Peirce,] representar o real e atuar sobre ele no futuro, quando a ocasião permitir, são dois aspectos inseparáveis do conhecimento e do pensamento. Por isso mesmo, o proceder intelectual encontra seu sentido na medida em que cria um hábito de conduta que facilita a interação com o objeto que se quer conhecer.

Mostra-se em parte, a forma como o sistema filosófico organizado por Peirce co- aduna percepção, pensamento e ação, reunindo na filosofia por ele elaborada conceitos inerentes, entre outras áreas, à fenomenologia, à ciência dos signos e ao pragmatismo numa relação quase necessária.

Deve-se, portanto, encontrar a Semiótica no cerne daquelas pesquisas que têm como objeto a poiesis – como a que ora se desenvolve. Há, no entanto, outros domínios que, em coerência com o pensamento peirceano, contribuem para a abordagem dos proces- sos de formação. São espaços tais como organizados por Jorge Vieira a partir de conceitos e teorias da atual TGS de autores como Mario Bunge, Avenir Uyemov e Kenneth Denbigh.

Ademais, traz-se algumas abordagens sobre os estudos sobre diversos tipos de gramática65,

ou seja, estudos de regras que governam a formação a partir da combinação de unidades bá- sicas. Nessa área, apresentam-se as contribuições aos estudos da linguagem de Chomsky. Idéias como a análise da estrutura sintática, assim como aquelas da gramática gerativa e

63. SILVEIRA, 2005a, p.7. 64. Ibid., 2004, p.9.

a classificação hoje conhecida nos estudos das linguagens formais como Hierarquia de

Chomsky66. Ademais, sobre essa classificação, apresenta-se o sistema formal proposto por

Aristid Lindenmayer67 bem como alguns de seus desdobramentos68.