Efetivamente, a Crítica de Processo41 surge como uma vertente quase necessária à
CG. Verte limites teóricos42 estabelecidos pelas críticas de arte, tecendo, tramando para si
uma metodologia que se adeqüe não só aos novos modos da produção cultural contemporâ- nea, como também aos interesses próprios à linha de pesquisa. O movimento de alargamen- to que se impõe à CG tem origem aqui no Brasil, ganha lugar, funda-se no Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CECG PUC-SP) e se
constitui com as dissertações e teses desenvolvidas43 e em desenvolvimento pelos pesquisa-
dores ligados ao grupo.
39. Cf. HAY, 2002, p.37. 40. Ibid., p.34.
41. Crítica Genética como linha proposta pelo Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, atualmente denominado Grupo de Pesquisa em Processo de Criação.
42. O movimento de expansão da CG ganha amplitude teórica com abordagem semiótica proposta por Cecilia Salles em sua tese de doutoramento Uma criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e não verás país nenhum, defen- dida em 1990.
43. Vários são os autores estudados a partir da viés genético. Autores como Lina Bo Barde, Daniel Senise, Hans Koell- reuter, Carlos Fadon, Lucas Bambozzi, Peter Eisenman, entre outros. Para maiores referências conferir < http://dgp.cnpq. br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo=0071609JCEA4T9>.
O movimento no rumo de uma ampliação de horizonte da CG se estabelece em dois momentos. O primeiro aponta para o alargamento do domínio dos objetos estudados pela CG, este se apresenta não mais restritos à literatura e aos autores reconhecidos. Nesse momento se põe à prova as teorias e metodologias adotadas pela critique génétique. Um segundo passo é dado quando, através de comparações, percebem-se recorrências de proce-
dimentos criativos, levando à hipótese da existência de princípios gerais da criação44.
No primeiro momento do movimento expansivo são feitos vários ajustes. São
adequações que vão desde termos próprios e caros à CG como manuscritos45, sendo subs-
tituídos por documentos de processo46, ao questionamento do uso da palavra 'genética' –
como há pouco trazido. Propõe-se desse modo que se adote 'processo' para a designação das pesquisas que abordam o processo de criação. Postura admitida em coerência com a tendência expansiva e de generalização de tal área de estudo.
Apesar da palavra processo, no senso comum, remeter às diversas áreas como direito, engenharia, física etc. Optou-se por adotá-la por estar em acordo com questões do movimento de formação e significação, pontos de interesse das pesquisa desenvolvidas pelo CECG e do Núcleo de Estudos de Semiótica e Complexidade (NESC PUC-SP), am- bos ligados à Pós-graduação de Comunicação e Semiótica da PUC-SP.
Torna-se condição básica, fulcral, enfatizar a definição do termo 'processo'. Buscou-se o conceito como colimado pela atual Teoria Geral dos Sistemas, onde 'processo' ganha sentido de uma série de eventos no tempo, estes legalmente conectados. Evento é, por sua vez, definido como uma mudança de estado de um sistema. Fenômeno que é então comunicado ao ambiente e assim percebido e interpretado por algum outro sistema, seja ele de qualquer natureza. Noutras palavras, o fenômeno chega até uma mente que o percebe, o interpreta e o faz agir diante da mudança. Destaca-se com isso o caráter sígnico-comunica- cional-pragmático do termo designador da pesquisa.
44. Cf. SALLES, 2007. O segundo passo no sentido da expansão dos horizontes da CG só é possível quando, após vários anos, consolidam-se os estudos de caso em várias áreas da produção artística, o que possibilita a verificação de recorrên- cias de procedimentos ligados aos processos de criação.
45. Várias são as denominações dos materiais de interesse da CG. São termos como rascunhos, manuscritos, croquis, marginálias, esboços etc. etc. que falam do processo de criação. Porém todos estão carregados de significados próprios à cada área.
A partir disso, portanto, ajustam-se as pesquisas que têm interesse no processo de formação e aquelas que tratam de questões do signo e da significação.
Por certo, ainda é oportuno enfatizar o caráter temporal e legaliforme que subjaz ao processo, tornando assim a abordagem processual adequada a qualquer sistema, seja ele
conceitual, substancial ou híbrido47. A natureza temporal do processo aponta para a carac-
terística transitória do corpus em estudo, mas no entanto é na sua condição legal, na lei de formação que se deve objetivar as pesquisas da CP. Posto de outro modo, é na inferência sobre a história, reconstituída através da série dos estados assumidos pelo sistema, que se busca, através de recorrências, conhecer os hábitos e as leis de formação. Ainda com outras
palavras, a CP busca mostrar a partir da comparação das formas assumidas pelo sistema48,
a gramática de formação.
Trata-se assim de conhecer o sistema através de sua memória, ou melhor através do processo de formação da memória, ou seja através dos índices, das marcas das relações internalizadas pelo sistema. Mas como saber quais relações da rede de formação foram efetivas na constituição do sistema? Como então valorá-las? Parece razoável a estratégia adotada pela CP de alinhar-se às críticas, pois como crítica é na relação de uma obra de arte com ela mesma ao longo de seus vários estados na criação, ou ainda em compará-la com a produção de outros autores, que se atribui autenticidade. Demonstra-se, portanto, a inserção da CP no rol das críticas.
Ademais, recorrer à TGS para ajustar o significado de 'processo', é não só restituir ao termo o seu sentido ontológico, estabelecer um campo comum, um domínio geral que perpassa todas as áreas do conhecimento. Em assim sendo, deve este se constituir como um espaço para comunicação, um campo próprio ao compartilhamento de metodologias. Dessa forma, pretende-se justificar a adoção da Ontologia Geral como domínio próprio para ajustes de conceitos e teorias necessários a uma abordagem processual. Atualiza-se, com a inserção da TGS como pedra basilar à CP, a transdiciplinaridade preconizada por
Daniel Ferrer49, dita como oportuna à CG, para não falar necessária.
47. Cf. BUNGE, 2004 p. 57.
48. Percebida como um índice das relações estabelecidas com o ambiente e internalizadas pelo sistema. 49.Cf. FERRER, 2002, p. 203-218.
Percebe-se que, no âmbito das pesquisas que se desenvolvem sobre o processo
de criação na PUC-SP, aquelas mais avançadas buscam o projeto poético50. Buscam por
princípios gerais de criação. Procuram por princípios operativos que se estabeleceram no
processo para a formação de uma obra ou uma série51. Mas, como representar adequada-
mente uma poiesis... Este é o ponto de interesse da pesquisa.