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Trabalho paradoxal é trabalho sob contradições – mas, também, trabalho pleno de possibilidades. Os dois diálogos e o mito de Midas constituem uma proposta de convivência e de caminhos para sua transformação. A base de tal proposta está no exercício da reflexividade essencial complexa que coloque em movimento (em abertura) as possibilidades desse trabalho. Entendemos que o exercício coletivo e dialógico dessa reflexividade tende a ampliar a compreensão do trabalho paradoxal e de seu contexto. Conseqüentemente, pode facilitar um processo de aprendizagem e de construção coletivas focado nos desafios atuais. Processo fundamentado em princípios consensuais, como os da ética pós-moralista dos direitos humanos, capazes de gerar formas de convivência com as contradições existenciais e de resolução das contradições históricas do mundo do trabalho. Nossa proposta, portanto, não é um receituário prescritivo, tampouco um conjunto de exortações morais. É uma demonstração de como o exercício de habilidades humanas básicas – reflexão e diálogo – pode ampliar a capacidade de lidar com questões complexas. Entender e utilizar essas habilidades de maneira ampla significa ultrapassar as limitações do pensamento técnico-calculante. Significa, igualmente, evitar as concepções fechadas (em fechamento) a respeito do que é o trabalho e do que é o indivíduo trabalhador. Diferentemente do mito, acreditamos ser possível ao trabalhador-midas manter sua capacidade de produzir riquezas e de usufruí-las sem perder sua essência humana. Tal conciliação não é de fácil equacionamento – mas será sempre uma possibilidade disponível às escolhas individuais e coletivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As últimas considerações desse estudo não mais se referem ao seu conteúdo. Visam fornecer informações adicionais sobre o processo de investigação que possam subsidiar pesquisas semelhantes e derivadas. Iniciamos com um relato das principais dificuldades experimentadas nesse processo, seguido por algumas sugestões de pesquisas posteriores.

Dificuldades encontradas

Uma dificuldade inerente a esse tipo de investigação é sua imprevisibilidade. Enquanto pesquisas verificadoras partem de uma hipótese e têm como destino apenas duas possibilidades (refutar ou não a hipótese), a pesquisa qualitativa multipolar não garante que um resultado satisfatório possa ser encontrado. No caso desse estudo, durante um longo período da pesquisa empírica e da revisão bibliográfica, não havia uma ‘estrutura’ para organizar os dados empíricos e os conteúdos teóricos; uma idéia central em torno da qual se pudesse articular a narrativa. O modelo conceitual-proposicional emergiu, gradativamente, da análise do material coletado e sua forma definitiva só foi alcançada após meses de esboços e modelos preliminares. Como previsto no projeto de tese, somente com a definição do modelo conceitual-proposicional foi possível dar início à construção discursiva.

Outra dificuldade encontrada não é exclusiva desse método, mas foi provavelmente agravada por sua multipolaridade: a determinação de um limite para a revisão bibliográfica e para a inclusão de novos conteúdos. A ‘sensação’ de que ainda se poderia dizer mais sobre o fenômeno é uma constante, tornando a busca de equilíbrio entre abrangência e foco um desafio permanente.

Entretanto, a maior dificuldade dessa investigação foi, sem dúvida, estabelecer conexões inteligíveis entre a ontologia heideggeriana e o mundo do trabalho corporativo. Primeiro, porque as obras de Heidegger são estritamente filosóficas, sem qualquer intenção de utilidade prática. E, segundo, porque o hermetismo não-intencional de suas obras as tornam quase incompreensíveis para os não-filósofos. O capítulo 6 foi o ápice desse desafio; o momento em que apresentamos os fundamentos heideggerianos mais relevantes para o estudo. Não estamos seguros de ter alcançado plena inteligibilidade nesse capítulo, mas um princípio norteador foi observado: simplificar sem desfigurar o pensamento

original do autor. Consideramos, ainda, que a possível dificuldade de leitura desse capítulo não impede o entendimento de sua utilização nos capítulos propositivos. E a análise filosófica, aplicada a situações do cotidiano organizacional, provavelmente reforça a compreensão dos citados fundamentos.

Como o pólo filosófico é essencial a essa metodologia, o desafio da inteligibilidade vai se apresentar independentemente do autor escolhido. Utilizar, por exemplo, o pensamento de Habermas ou de Foucault implicaria dificuldade semelhante.

Por fim, diríamos que as dificuldades apresentadas não foram vivenciadas como obstáculos; pelo contrário, atuaram como estímulos adicionais para a concretização desse estudo.

Novas possibilidades de pesquisa

O trabalho corporativo é um tema que, por sua abrangência, comporta infinitas abordagens de pesquisa. Restringindo esse universo de possibilidades ao enfoque adotado nesse estudo (descrição de sentidos do trabalho), propomos duas vertentes de pesquisa que poderiam ampliá-lo:

1. Investigações qualitativas adicionais em busca de outros sentidos do trabalho corporativo.

2. Pesquisas quantitativas para verificar freqüências e correlações decorrentes das proposições desse estudo.

Na primeira vertente, entendemos que o caráter dinâmico e complexo do trabalho corporativo permite múltiplas apreensões de sentido. A utilização da mesma metodologia, eventualmente com outros referenciais filosóficos e científicos, poderia ampliar a compreensão e a descrição desse fenômeno. Da mesma forma, a utilização de uma metodologia semelhante, mas de raiz estruturalista (em vez de fenomenológica), seria uma alternativa recomendável.

Quanto à segunda vertente, há uma série de proposições ao longo do estudo que se prestam a pesquisas verificadoras. Um exemplo seria checar como se manifesta, no Brasil, o ‘efeito loteria’: as decisões de carreira tomadas por profissionais corporativos que tivessem seu sustento assegurado. Em pesquisa realizada com profissionais de 8 países,

observa-se uma variação importante nas decisões: enquanto que 66 % dos japoneses continuariam no mesmo emprego, apenas 16 % dos britânicos nele permaneceriam (NOON, 2002: 55). Nessa pesquisa, não há qualquer país latino – seja europeu, seja latino- americano. Sua reprodução no Brasil quantificaria nossa descrição do propósito do trabalho corporativo e, adicionalmente, possibilitaria uma comparação transcultural dessa relação com o trabalho. Essa é apenas uma das várias possibilidades de pesquisa verificadora que poderiam resultar das proposições desse estudo.

Para finalizar, apresentamos uma síntese dos resultados que ora se abrem a posteriores contribuições:

Síntese final

Essa investigação qualitativa multipolar resultou na descrição da reflexividade, da impermanência e do enredamento como sentidos do trabalho corporativo que culminam no trabalho paradoxal. Essa essência paradoxal foi descrita nos seguintes âmbitos: sua reflexividade não impede que sua racionalidade seja débil; seu dinamismo coexiste com a dificuldade de realizar mudanças organizacionais substantivas; seu enredamento compromete as possibilidades de um bem-estar aparentemente alcançável; seu foco no presente termina por se mostrar esvaziado; e seu propósito de sustento individual se torna insustentável pelo hiperconsumo. Mas as conclusões do estudo não descreveram um fenômeno definitivo. Ao seu término, foram apontadas possibilidades de convivência com o trabalho paradoxal, assim como possibilidades de sua transformação.

BIBLIOGRAFIA

Observação:

Essa bibliografia é composta por obras utilizadas de duas maneiras bastante diversas: § Base conceitual – São as obras que fornecem os referenciais teóricos, filosóficos e

metodológicos para a fundamentação da tese. Algumas estão referenciadas ao longo do texto, enquanto outras foram consultadas e analisadas, mas não diretamente utilizadas na construção da narrativa.

§ Material para análise crítica – São as obras utilizadas como discursos a analisar, recebendo tratamento semelhante ao das entrevistas. Em sua maioria, são publicações não-científicas, de caráter prescritivo e de uso corrente pelos estudantes ou pelos profissionais do campo da gestão empresarial. Nem todas estão referenciadas no texto, mas foram úteis, em algum momento, para a formulação das proposições apresentadas na tese.

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