3.2 Simulations in (1+1) dimensions
3.2.3 Steady growth bulk properties
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cimento Humano” e o “Três Diálogos entre Hilas e Philonous”, não por acaso as mais traduzidas e publicadas. A primeira, inacabada, é mais sistemá- tica e caracterizada por uma cerrada disputa acadêmica. A segunda, na tradição dos diálogos, que atravessa toda a história da filosofia desde Pla- tão, é um livro de divulgação, destinado a um público amplo.
Já o “Ensaio para uma Nova Teoria da Visão” é eminentemente crítico e propedêutico. Apesar da grande aceitação que obteve na época de sua publicação, com o tempo foi sendo obscurecido pela grande repercus- são provocada pela tese defendida no Princípios: a substâncis espiritual e a substância infinita de Descartes podem ser unificadas na substância espiritual. Tomando esta obra como referência, a história da filosofia até muito recentemente apresentou Berkeley como um idealista excêntrico que nega a existência da matéria fora do espírito.
Porém o Ensaio revela uma outra face de Berkeley. Ali a palavra
“substância” sequer é mencionada. O que salta aos olhos, por outro lado, é o quanto Berkeley prenuncia uma estratégia que se tornará central à fi- losofia do século XX: a busca de causas ocultas dos problemas filosóficos aparentemente insolúveis. É este aspecto de seu pensamento que privile- giamos na escolha dos excertos traduzidos para esta antologia.
Na época do assim chamado grande racionalismo (século XVII) ocorre uma proliferação de filosofias que pode ser vista como sintoma de um descompasso entre o evidente aumento do poder explicativo da ciência moderna e o anseio da filosofia em desvendar os fundamentos últimos dos processos que tornam possível o conhecimento e por conse- guinte este progresso. É exemplar, neste sentido, a grande quantidade de sofisticadas respostas à questão tida por todos como fundamental neste momento: como se dá a relação entre matéria e espírito? Apesar de pos- suírem naturezas evidentemente distintas estas duas realidades devem poder se comunicar, caso contrário não haveria passagem possível da percepção das coisas materiais para a enunciação de discursos científicos sobre a realidade e nem desta para a produção das tecnologias que a transforma e domina. No entanto, esta rica multiplicidade dos sistemas pode também ser visto como um sintoma de fraqueza. Na introdução ao
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103Princípios, Berkeley lamenta: como garantir a credibilidade da filosofia se, ao invés de responder a esta demanda por fundamentos e satisfazer nossos anseios de paz de espírito, ela nos inunda com uma multiplici- dade teorias que geram disputas e dúvidas e sem fim? Depois de fazer levantar uma espessa poeira de palavras, a própria filosofia reclama por não conseguir mais ver com clareza aquilo que aparece como claro e sem problemas ao homem comum ...
Nunca é demais enfatizar a importância do tema da ambivalência do discurso verbal na filosofia de Berkeley. Sem palavras não é possível a teoria mas elas se constituem, por outro lado, numa espécie de véu que recobre as aparências imediatas das coisas, evidentes antes de serem fei- tas objeto de ciência e de filosofia. A estratégia de Berkeley na Nova Teoria da Visão consiste, pois, em colocar em questão o próprio sentido da per- gunta que gera tantas respostas inconciliáveis entre si. Se compararmos esta análise com uma investigação de tipo terapêutica, onde a cura de- pende de uma busca prévia das causas de um distúrbio, as múltiplas te- orias que tentam resolver a questão aparecem como remédios paliativos que oferecem alívio apenas momentâneo. O diagnóstico mais profundo procurado por Berkeley visa a identificação das causas primeiras de cer- tas ilusões que geram na filosofia a aparente necessidade de se procurar por um fundamento metafísico da realidade percebida. Em outras pala- vras, trata-se de esclarecer como e por que certas condições inerentes à condição humana em seus diversos aspectos – percepção, ação, comuni- cação – não só determinam a visão comum de mundo mais apropriada a sobrevivência como também podem gerar questões metafísicas carentes de sentido e portanto sem solução possível.
Em Descartes o mundo material é regido por uma regularidade causal inexorável. A relação entre os objetos materiais e sua representa- ção espiritual se funda nesta relação causal e também num mecanismo de correspondência entre ideias e coisas que se funda, se não numa se- melhança pura e simples, pelo menos numa correspondência estrutural e constante. As coisas materiais são desta forma representadas no espírito.
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tenta resolver a aparente contradição entre a infinita variabilidade das sensações e a estabilidade sem a qual a realidade material não poderia ser objeto de conhecimento.A cor ou o som, infinitamente variáveis, aci- dentais, são exemplos de qualidades segundas. A extensão e o número,
expressões da própria essência da substância material, necessários, são exemplos de qualidades primeiras.
Berkeley transfere o foco de supostas relações entre ideias-repre- sentações e coisas-originais para as relações que as ideias mantêm entre si. Os vários sentidos (visão, audição, tato etc.) passam a ser considerados como as classes mais fundamentais nas quais as ideias estão organizadas. A relação entre ideias pertencentes a duas classes distintas será caracte- rizada como sendo de significação1 e não de representação. Ao contrário da relação representativa, a significação não precisa ser fundada em causali- dade ou semelhança. É uma relação convencional, contingente e portanto não requer justificação em termos de relação necessária.
O problema que resta é o da justificação da regularidade destas re- lações contingentes, pois obviamente não seria possível a ciência e nem a ação humana mais simples sem um mínimo de estabilidade na relação entre ideias. Em Descartes Deus (substância infinita) garante a necessária correspondência entre as representações e as coisas (substância espiritual e substância material). Para Berkeley as aparências sensíveis constituem uma linguagem divina. Por ser uma linguagem, torna-se obsoleto o problema da justificação de uma relação necessária entre as ideias e as coisas. Por ser divina fica garantida a regularidade das relações significante, sem a qual a realidade seria tanto inabitável quanto ininteligível. O mundo material con- tinua sendo tão real quanto em Descartes mas desaparece a necessidade de se supor algo para além de sua aparência sensível. Trata-se evidentemente de uma ontologia mais econômica: a quantidade de substâncias é reduzida ao mínimo, a realidade é simplificada, o problema da correspondência en- tre substâncias é dissolvido e mesmo problemas ópticos resistentes à expli- cação pela óptica geomética recebem soluções satisfatórias.
1 Significação entendida como “substituição”, “estar no lugar de”. Associada ao hábito e
à memória, pode também pode ser entendida como “antecipação”: se percebo regular- mente ideias de um sentido associadas à ideias de outro sentido, a cada vez que percebo as primeira antecipo a percepção das segundas.
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105Mas por que o modelo cartesiano parece mais “natural”? Esta é a questão fundamental que Berkeley quer esclarecer nos fragmentos da
Nova Teoria da Visão que aqui apresentamos. A eficácia da ação neces- sária à sobrevivência (obtenção de alimentos, fuga, acasalamento etc.) depende de um poder de previsão cuja diferença em relação ao poder de antecipação da razão é apenas de grau. O espaço visual é constituído por um conjunto de índices que evocam o tempo necessário para que o corpo entre em contato direto (tátil) com as coisas. As coisas percebidas ganham unidade e individualidade por serem objetos da ação humana, antes de serem objeto do pensamento ou da linguagem. Apesar de pare- cer evidente que as ideias dos diversos sentidos são diversos aspectos de uma mesma coisa, uma análise crítica mostra que isto; mais uma crença do que uma necessidade lógica. Ideias auditivas, visuais e táteis são to- das signos enquanto cumprem esta função antecipadora, mas heterogê- neas entre si se consideradas nelas mesmas.
Mas por que, então, a concepção comum de mundo transmuta-se no problema metafísico da justificação de uma realidade transcendente à percepção? Porque a esta imagem “natural” do mundo – que em cada espécie animal varia de acordo com o aparato biológico que possui2 – vem se sobrepor, no caso humano, a linguagem das palavras, sobretudo em sua função básica de nomeação. Aristóteles já afirmava que as coisas são infinitas, enquanto que as palavras são em número limitado3. A lin- guagem só pode funcionar, pois, se uma palavra puder significar várias coisas ao mesmo tempo. O problema é que ela pode nomear coisas per- tencentes a gêneros distintos. Com isso o que era uma relação puramente analógica passa a ser considerada, como resultado do uso reiterado da linguagem, uma relação natural e necessária. Dito de outra maneira, o que era metáfora passa a receber um sentido literal que vai sendo cris- talizado com uso. No próprio processo de significação, entre ideias de diversos sentidos ou entre palavras e ideias, o significante e o significado recebem um mesmo nome. Daí nossa tendência natural, diz Berkeley,
2 UEXKÜLL, J. Von. Mondes Animaux et Monde Humain, Tradução do original alemão de
Georges Kriszat. Paris: Danöel, 1965.
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em considerar como sendo de mesma natureza ideias tão heterogênas quanto as da visão e as do tato. A palavra “mesa”, enquanto significante, é uma marca sensível, possui uma realidade própria, revelada por qua- lidades particulares (determinada cor, tamanho etc.) e portanto poderia receber um nome próprio. Mas não damos a ela um nome específico por- que o que nos interessa é sobretudo o que é significado (a mesa “real” com a qual interagimos). Do mesmo modo, uma ideia visual tampouco recebe um nome distinto da ideia tátil que ela substitui e antecipa. Desde que começamos a exercer a faculdade perceptiva na primeira infância, a conexão entre imagem visual e imagem tátil é tão constante e regu- lar que sua identidade, de tão óbvia, jamais é questionada. E porque os mesmos signos visuais representam as mesmas ideias táteis para todos os homens e em todos os lugares, seu caráter convencional deixa de ser reconhecido como tal. Desde que começamos a dominar a linguagem, a palavra “mesa” significa tanto a mesa visual quanto a mesa tátil. Mui- to dificilmente podemos deixar de assim considerá-la, da mesma forma como é praticamente impossível ver ou ouvir o nome de uma pessoa sem que sua fisionomia nos venha imediatamente à memória. Esta relação analógica entre ideias de diversos sentidos, reforçada pelas palavras que as nomeiam, adquire uma aparência de literalidade que, útil e necessária na vida prática, é geradora de falsos problemas quando se torna objeto de uma filosofia obcecada por fundamentos metafísicos.
“Se um cego de nascença passasse a ver e a ele fosse apresentado um cubo e uma esfera que ele anteriormente conhecera apenas com o tato, seria ele capaz de dizer qual é o cubo e qual é a esfera utilizando-se apenas da visão?” Esta é a formulação clássica do famoso “problema de Molyneux”, que instigou não só Berkeley como vários pensadores de sua época. Esta questão fas- cinava tanto porque acreditava-se que sua solução resolveria questões filosóficas importantes, como o problema da existência das ideias inatas. Berkeley a retoma porque acredita ver ali a possibilidade de uma prova empírica adicional da tese da heterogeneidade essencial entre as ideias de diferentes sentidos. A resposta que ele sugere é decididamente nega- tiva: o cego que recobrasse a visão não poderia perceber imediatamente o mundo visual tal como nós estamos acostumados a fazê-lo. Seria neces- sário um tempo de aprendizado para que pudesse “ler” as informações
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107trazidas pela luz e pelas cores aos seus olhos, ou seja, para que pudesse relacionar ideias visuais com sensações táteis, tivesse uma noção exata dos objetos como coisas separadas do todo, concebesse as ideia de figura e fundo, distância, tamanho, posição etc.
O fato é que esta experiência de pensamento acabou se tornando uma experiência real com a realização da primeira operação de cataratas
pelo cirurgião inglês William Cheselden em 1728. Apesar de Berkeley apresentar o resultado da operação do cego como favorável a si, o desdo- bramento futuro da questão4 mostra que todos foram vítimas da ilusão de que uma questão metafísica pudesse ser resolvida por experimentos empíricos: jamais se chegou a uma conclusão definitiva porque, ironica- mente, nunca se alcançou consenso sobre a interpretação a ser dada ao relato que o cego operado faz de sua experiência subjetiva!
Sugestões de Leitura:
PrinciPais obrasde berkeley traduzidasParao Português
BERKELEY, G. Tratado sobre os princípios do conhecimento humano e Três diálo- gos entre Hilas e Filonous. Tradução de Antonio Sergio. São Paulo: Abril Cultu- ra,1980. (Coleção Os Pensadores).
BERKELEY, G. Um Ensaio para uma Nova Teoria da Visão e A Teoria da Visão Con- firmada e Explicada, in Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Campinas: C.L.E. Unicamp, Série 3, v. 18, nº 2, págs. 447-584, julho-dezembro/2008. Trad. de José Oscar de Almeida Marques.
obrassobre berkeley
BERMAN, D.Filosofia experimental de Berkeley. São Paulo: Unesp, 2000. STRATHERN, P. Berkeley em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
audiovisuais
À PRIMEIRA vista. Direção de Irwin Winkler. Estados Unidos: Fox/Videolar, 1998. 1 DVD, (126 min.): son., col., NTSC.
JANELA da Alma. Direção de Walter Carvalho e João Jardim. Brasil: Europa Filmes, 2002. 1 DVD, (73 min.): son., col., NTSC.
4 PROUST, J. (Org.). Perception et Intermodalité: Approches actuelles de la question de
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