4.3 Modeling approaches and basic concepts from Polymer Physics
4.3.3 Critical behavior of polymers near attractive surfaces
No Colóquio “Morte da Arte, hoje”, realizado na Universidade Federal de Minas Gerais, de 15 a 18 de abril de 1993, o Prof. Gerd Bor- nheim proferiu a conferência “Gênese e Metamorfose da Crítica”, cujo texto foi incluído na coletânea Páginas de filosofia da arte, de 19982.
Filósofo, esteta e crítico, munido de consistente aparato teórico, Bornheim tinha todos os requisitos para discorrer sobre o tema esco- lhido.
O ponto de partida é a distinção entre crítica em sentido amplo, que “acompanha a própria condição humana”, e crítica em sentido res- trito, como “comentário a propósito das letras e das artes”3. No que diz respeito ao Ocidente, as origens da crítica remontam a Platão e Aristó- teles. Aliás, Platão, “o primeiro grande esteta do Ocidente” é a figura dominante da palestra. A metamorfose do título é anunciada por meio de algumas perguntas. Por exemplo: “a partir de que lugar passou a cons- tituir-se essa nova Crítica?” Note-se que nova crítica não tem nada a ver com o movimento americano de crítica literária, das décadas de 1930, 40 e 50, conhecido como New Criticism. Pois a nova crítica sucedeu à antiga, chamada às vezes de crítica aristotélico-horaciana, devido à relevância histórica da Poética, de Aristóteles, e da Arte Poética, de Horácio. O fulcro da argumentação é o conceito de imitação.
Após ter comentado o passo célebre do Livro X, de A República (a produção da cama), Bornheim estabelece um paralelo entre o conceito de imitação e o de verdade. Embora Martin Heidegger (1889-1976) não te- nha sido citado, sua presença se faz sentir, pois se deve a ele a descober- ta da noção original de verdade: “o que para a fenomenologia dos atos conscientes se realiza como o automostrar-se dos fenômenos é pensado mais originariamente por Aristóteles e por todo o pensamento e existên- cia dos gregos como Alétheia, como o desvelamento do que se pre-senta,
2 BORNHEIM, G. Gênese e Metamorfose da Crítica. In:_____. Páginas de filosofia da arte.
Rio de Janeiro: UAPÊ, 1998. p. 117-130.
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seu desocultamento e seu mostrar-se”.4 A verdade, como adequação, de- signa uma conformidade entre o intelecto e o ser (adaequatio intellectus et rei). Em suma: “a fundamentação teológica da imitação corre paralela
à transmutação da essência da verdade consumada por Platão e depois reiterada à sua maneira por Aristóteles”5. Em mais de um momento de sua conferência, Bornheim refere-se à crise da Metafísica. Poder-se-ia dizer que a crise é o pano de fundo de sua argumentação. Costuma-se falar também em fim, destruição e superação da Metafísica. Não está em jogo, aqui, a disciplina metafísica (ou ontologia) dos cursos de Filosofia. Na perspectiva da História da Filosofia, ela abrange toda a tradição filosófica do Ocidente, desde Platão até Hegel e Nietzsche. Da análise de Heideg- ger em Ser e Tempo (primeiro capítulo), elejo o tão comentado esquecimen- to do ser. Ora, para isso se faz mister ter em mente a diferença ontológica,
vale dizer, a distinção entre ser e ente. Trata-se, portanto, do pensamento que se ocupa com o ente e esquece a questão do ser.
Para expressar o impacto da Revolução Francesa, Bornheim re- corre à arquitetura e lança a metáfora: “o edifício da imitação põe-se a desabar”6. Um dos pontos fortes de Gerd Bornheim, como professor e conferencista, era sua capacidade de ilustrar a argumentação com exem- plos que pareciam brotar espontaneamente de sua rica cultura artística. No caso em foco, após a metáfora do edifício e a referência “à derrocada do esplendor do barroco”, ele surpreendeu a plateia com a música de Beethoven: “Realmente, abandonada a imitação, Beethoven compõe as bases artísticas de duas estéticas: uma, dominada pela categoria do obje- to, e a outra, pela do sujeito”7. Sentença esta, de tal relevância, que encon- tra sua complementação um pouco mais adiante: “Pois é neste entrevero de configurações, neste cruzamento de diretivas que vai aparecer, pela primeira vez, não apenas a figura intermetida do crítico, como também a
4 HEIDEGGER, M. Meu caminho para a fenomenologia. In:_____. Conferências e escritos
filosóficos. Tradução e notas de E. Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 300.
5 BORNHEIM, Gênese..., p. 121.
6 Ibidem, p. 123.
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127própria necessidade de seu olhar”8.
Na linha da periodização estilística da História da Arte, foi no Romantismo que o conceito de imitação se exauriu numa crise fatal. Se conferirmos a cronologia dos séculos XVIII e XIX, veremos que nas três últimas décadas do Setecentos coexistem Neoclassicismo e (Pré-)Roman- tismo. Coexistência, nem sempre pacífica, que avançará pelo Oitocentos. Em vista disso, sou de parecer que é preferível remontar a 1770, como faz o historiador e crítico italiano Giulio Carlo Argan, para assinalar o início da Arte Moderna. Pois foi durante a revolução da arte moderna que ocorreu a derrocada da imitação. Na conferência de Belo Horizonte, a tese foi enunciada nos seguintes termos: “Com o colapso da imitação é o velho conceito de cópia, tomado exatamente na acepção platônica, que, de negativo que era, consegue sobreerguer-se e ocupar os primeiros planos”9. Tese polêmica e, como tal, sujeita a discussões.
Causou surpresa, entre os participantes do Colóquio, o fato de o Prof. Gerd não ter incluído em sua conferência uma abordagem do tema da morte da arte. Restringiu-se à seguinte alusão no início de palestra: “A partir de então desenvolve-se um novo tipo de Crítica, arvorada agora até mesmo em ciência. Em verdade, esta suposta maioridade talvez não passe de ser expressão de uma crise maior, talvez se limite às andanças dessa mesma crise, e talvez componha apenas o epitáfio daquilo que He- gel chamou de ‘morte da arte’”10.
A bem da verdade, seja dito que as expressões “morte da arte” e “fim da arte” não são da autoria de G.W.F. Hegel (1770-1831). Mas, ao ouvi-las, logo nos vem à mente a célebre página da “Introdução” das
Lições sobre a Estética, que corresponde ao curso, ministrado por ele, no semestre de inverno de 1828-29, em Berlim: “Os belos dias da arte grega assim como a época de ouro da Idade Média tardia passaram”. E, um pouco mais adiante: “Em todas estas relações a arte é e permanecerá para
8 Ibidem, p. 125.
9 Ibidem, p. 123.
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nós, do ponto de vista de sua destinação suprema, algo do passado”.11 É evidente que as duas asserções não podem ser desvinculadas do contex- to, ou seja, da orientação que rege a estética hegeliana.
Hegel está na origem de um dos mais fecundos debates que tem atraído a atenção de filósofos, estetas, críticos e artistas de diversas partes do mundo. No Brasil, ao lado de Benedito Nunes, Gerd Bornheim deu importante contribuição, como se infere do texto “Uma Temática Hege- liana: a Morte da Arte”, de l994, incluído na coletânea Páginas de filosofia da arte12.Para ele, a tese se situa na linha do pensamento hegeliano. Além do mais, “a tese da morte da arte é totalmente verdadeira, desde que se acrescente que a sua verdade se restringe à arte do passado - de todo o passado, de modo radical. O que Hegel afirma atinge em cheio os pressu- postos de sua própria Estética, a começar pelo mais importante deles to- dos, que é o conceito de imitação e os seus vínculos com a determinação metafísico-teológica dos universais concretos, ou seja, com o que Hegel chama de Ideia, objeto exclusivo, segundo ele, da arte”13.
Muito se tem falado de falência da crítica, de outono (ou inverno?) da crítica, de morte da crítica. Apesar de tantos prognósticos sombrios, estará a crítica fadada a desaparecer?
Na coletânea Páginas de filosofia da arte, além da conferência de 1993, foi incluído um breve texto sem data, intitulado Da Crítica14. Com base na leitura de ambos, vê-se que Gerd Bornheim estava convencido da necessidade da crítica: “a questão que deve ser pensada é que a crítica se tornou necessária por uma imposição interior à própria natureza da arte contemporânea – é a arte que exige a crítica, que requer a hermenêutica”15. Reconhecida a necessidade, talvez seja oportuno perguntar: qual é a fun-
11 HEGEL, G. W. F. Lições sobre a Estética. Tradução de M. A. Werle. São Paulo: EDUSP,
1997. p. 24-25.
12 BORNHEIM, G. Uma Temática Hegeliana: a Morte da Arte. In:_____. Páginas de filoso-
fia da arte. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1998. p. 13-24.
13 Ibidem, p. 26.
14 BORNHEIM, G. Da Crítica. In:_____. Páginas de filosofia da arte. Rio de Janeiro: UAPÊ,
1998. p. 131-139.
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129ção da crítica? “A necessidade da crítica nasce do fato de que a mediação entre arte e público já não se dá mais de modo espontâneo e ‘natural’. Impõe-se, por isso, a função mediadora da crítica”16.
Sugestões de Leitura:
obrasde bornheim
BORNHEIM, G. Filosofia do Romantismo In: GUINSBURG, J. (Org.) O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 75-111.
BORNHEIM, G. O Sentido e a máscara. São Paulo: Perspectiva, 1969.
BORNHEIM, G. Sartre: Metafísica e existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 1971.
BORNHEIM, G. Metafísica e finitude. Porto Alegre: Movimento, 1972.
BORNHEIM, G. Introdução ao Filosofar: O pensamento filosófico em bases exis- tenciais. Porto Alegre: Globo, 1973.
BORNHEIM, G. Dialética: teoria, práxis. Ensaio para uma crítica da fundamenta- ção ontológica da Dialética. Porto Alegre: Globo, 1977.
BORNHEIM, G. Ontológica da dialética. Porto Alegre: Globo, 1977. BORNHEIM, G. O Idiota e o espírito objetivo. Porto Alegre: Globo, 1980. BORNHEIM, G. Teatro: a Cena dividida. Porto Alegre: L&PM, 1983. BORNHEIM, G. Brecht: A Estética do teatro. Rio de Janeiro: Graal, 1992. BORNHEIM, G. O Conceito do descobrimento. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. BORNHEIM, G. Páginas de filosofia da arte. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1998.
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