4. Econometric Analysis
4.5 Model Specification
4.9.1 Stavanger Region
Os atendentes de lan houses são personagens-chave nos ambientes públicos de acesso à Internet, intermediando o contato com o universo digital para os que não se sentem à vontade ou não sabem como circular por esse mundo. Têm um papel importante oferecendo serviços para os que não sabem lidar com computador, como nos assuntos proissionais, elaborando currículos, além do auxílio nos casos de serviços voltados para a vida pública e cidadania (como a “declaração de isento” ou a “declaração anual de CPF”). Nestes casos, a cena padrão é a de alguém que entra na lan necessitando de ajuda, aparentando não ter intimidade com computadores. O atendente media o contato com a tecnologia, fazendo da pessoa uma “usuária” da Internet, sem que ela tenha sequer tocado em uma máquina. A navegação virtual mediada pelo atendente revela-se uma experiência igualitária que se contrapõe à vivência cotidiana das classes populares em organizações públicas. Na internet, existe uma “igualdade de condições” que é bastante distinta das situações do dia-a-dia em que o cidadão, em especial o das camadas mais populares, tem que “se submeter” à lei e às regras passando por uma “via crucis” e enfrentando a precariedade dos serviços públicos imposta ao “cidadão comum” (DAMATTA, 1981).
O atendente, via de regra, dá o “tom” da lan, especialmente quando o público dominante é o infanto-juvenil, estando sempre atento ao comportamento dos fre- quentadores e procurando manter o clima do ambiente dentro de uma certa ordem. Atuam como uma espécie de “educadores” informais, podendo até mesmo ter a responsabilidade de “tomar conta” das crianças e jovens que circulam pelo local, como ocorre na lan Conecta, em Vila Canoas. Os atendentes gozam de prestígio no local e colocam sua autoridade quando necessário, para “colocar ordem” nos momentos de maior animação dos usuários, fazendo o papel de um professor que procura manter a disciplina da classe, mas que também se diverte com todos.
Os donos e, ao mesmo tempo, atendentes, Francisco e Léo têm grande as- cendência sobre as crianças e jovens que frequentam o espaço. Foi Francisco quem decidiu que a lan não teria jogos “violentos” e polêmicos como o Counter-Strike, proibidos para menores de 18 anos; por isso, a Conecta se caracteriza por ter
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formado uma legião de adeptos do WoW, o jogo preferido dos donos-atendentes e por eles disseminado.
Nos ins de semana, a área que inclui a lan Planeta Naboo e o bar ao lado, torna-se um espaço de lazer familiar, como uma espécie de clube local aberto, conforme relata Francisco: “Nos fins de semana, os pais vêm pro bar aqui do lado,
enquanto os filhos ficam aqui dentro. Aí eu fico de baby sitter, né? De vez em quando eles vêm e perguntam:‘como é que tá aí?’ Eles empurra a criança pr´aqui, né? É positivo pra eles”.
Vale ressaltar a existência de uma certa ambiguidade na relação das mães com as lan houses. Enquanto algumas coniam nos atendentes e icam tranquilas por saber “onde estão os ilhos” – para elas, melhor que estes permaneçam horas na lan do que expostos aos “perigos” da rua – outras airmam terem comprado computadores para “tirar os ilhos das lans” e poder exercer maior controle sobre o que estejam fazendo.
Mesmo assim, chama atenção a atitude dos pais ao deixarem os ilhos sob a “supervisão” dos atendentes, o que pode incluir o “monitoramento” do desempenho escolar – quem não vai bem na escola tem seu tempo na lan reduzido, e os pais contam com a ajuda dos atendentes para realizar esse controle:
Então, quando uma mãe chega aqui e fala: ‘Olha, Francisco, ele tá ruim na escola, não deixa vir, só final de semana´. Aí eu digo: ‘ tá, não deixo’. É melhor eu perder aqueles dois reais momentâneos e ganhar a confiança dos pais. E tem outro lado: assim eu vou estar ajudando na educação deles. Eles vão crescer com uma educação legal, que vai proporcionar a eles um bom trabalho. Eu penso nisso, eu não penso só no dia-a-dia. (Francisco, 27 anos)
Este dono-atendente, como visto, mostra uma especial preocupação com a formação dos jovens que frequentam a lan, seja na escolha de um “game não violento”, seja na parceria com os pais no que se refere ao monitoramento do desempenho escolar.
Além disso, Francisco tem a intenção de “motivar” os jovens frequentadores da lan – pensa em oferecer horas de navegação para os que tiverem melhor desem- penho escolar – mostrando assim suas preocupações com a formação educacional da juventude presente no espaço.
Como experts do WoW, Francisco e Léo são acionados a todo o momento para fornecer “dicas” do jogo aos frequentadores. Ambos também têm um determinado conhecimento da língua inglesa, o que faz com que ajudem os outros a entender o jogo, que está conigurado neste idioma. Muitas expressões em inglês são usadas
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Relexões sobre entretenimento, educação e distinção em contextos de “inclusão digital”
nas conversas dentro da lan, como “quanto você tem de life?”v. ou “estou com 471 de gold, dá pra comprar uma adaga boazona”, relacionadas a momentos do jogo WoW.
Algumas palavras surgidas nos games passam a incorporar o vocabulário corrente, como “nubbie” (“iniciante” ) ou “quitar” (abandonar, desistir do jogo). No jogo
online, os mais experientes fogem dos “nubbies e dos “quiters” nas salas destinadas
ao WoW; na palavra de um deles: “aqui só tem ‘pró’ (proissional), sem quiter nem
nubie”. Léo é o principal “consultor” para dúvidas em inglês no espaço. Durante
o WoW, em vários momentos os jogadores recorrem a ele para saber o signiicado das palavras: “Léo, traduz ‘Where do you come from?” ou ‘O que’ é só botar ‘what’,
não é isso, Léo?”
Este aspecto de cuidado e acompanhamento do rendimento escolar no espaço da lan se contrapõe a outras situações em que o sentimento “anti-escola” é mais evidenciado, como no estudo de Pereira (2010), resultante de uma etnograia em lan house popular na cidade de Porto Alegre. Neste estudo, a autora contrasta o intenso envolvimento dos jovens com os jogos à grande desmotivação em relação aos estudos, o que leva a uma alta evasão escolar. Existiria uma desconiança da capacidade da escola em “garantir um futuro” proissional, optando-se em muitos casos pelo abandono da mesma e ingresso no universo do trabalho, conigurando um cenário de forte dissociação entre o espaço da lan house e o da escola. No contexto de pesquisa na comunidade de Vila Canoas, esta oposição chega a se apresentar, em certo nível. Alguns jovens entrevistados declararam que melhoram seus desempenhos nas aulas de inglês, por causa do WoW, mas dizem não contar aos professores de onde vem o interesse, já que “na escola não gostam de jogo”, segundo um dos estudantes. De fato, encontra-se amplamente disseminado na sociedade, e em grande parte das práticas educacionais, um discurso anti-games devido a seus possíveis efeitos “maléicos” no rendimento escolar dos alunos. No entanto, conforme destacado, existem situações em que a preocupação com a educação formal escolar está presente dentro do próprio espaço da lan, como na “parceria” aqui comentada entre mães e atendentes.
Na comunidade Santa Marta, o atendente da lan Fun Games também acompanha e monitora as crianças presentes no espaço. Vale lembrar que crianças bem pequenas, que ainda não completaram o processo de alfabetização, costumam frequentar estes locais. Em uma das cenas observadas na referida lan, duas crianças de 6 e 7 anos entram sozinhas e começam a usar seu tempo no computador. O atendente acompanha tudo que fazem, interagindo o tempo todo: brinca com elas (“Quem conhece a noiva do Chucky?”), orienta o jogo (“Dá play, aperta! Aqui
ó, o play é aqui. Pula prá frente, cara, se não vai se arrebentar...”), toma conta do
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deixa”). Neste momento, o dono do bar em frente entra e comenta: “Ainda tem essa creche aí”? Ao que o atendente replica, se dirigindo às crianças: “Fala pra tua mãe me dar R$ 380,00 pra tomar conta de criança”.
Em um outro dia de observação, duas crianças, meninos de 7 anos, circulam pela lan. O atendente fala para que iquem em computadores próximos: “Não, aqui,
aqui [aponta para uma máquina perto da sua bancada], quero ver o que vocês vão fazer”. Um dos meninos se dirige a ele, dizendo: “Tio, vem ver, tio”. O atendente,
por sua vez, se aproxima dos meninos tomando o mouse para si: ”Deixa eu ver um
joguinho pra vocês. Vai pra escola hoje? [Pergunta para uma das crianças, que responde
balançando a cabeça negativamente] Não, por quê?! [Em tom de reprovação]”. Assim, um aspecto que chama atenção nos espaços das lans pesquisadas é seu caráter, até certo ponto inesperado, de “escola/creche” informal. Os donos-aten- dentes, particularmente, incorporam com mais disposição o papel de “educadores informais”. Nas lans podem-se encontrar vivências de aprendizagem coletiva – de games, de aulas de inglês e da própria “alfabetização digital” geralmente iniciada pela adesão ao Orkut – além de uma “parceria” com as mães, que inclui acom- panhamento de desempenho escolar, com “programa” de “premiações” (horas disponíveis na lan) e “punições” (“suspensão” da presença na lan).