4. Econometric Analysis
4.4 Graphical Illustration
O presente artigo82 pretende discutir a relação entre entretenimento e edu-
cação a partir da análise de determinadas apropriações de tecnologias digitais em processos de vivências de sociabilidade junto a grupos pertencentes às camadas populares da cidade do Rio de Janeiro. O estudo se detém, em especial, na pro- blematização da representação do espaço da lan house como um ambiente de “não-aprendizagem”. Além deste primeiro contexto de análise, o artigo se propõe, em um plano mais amplo, a debater a convivência da alteridade na rede, quando determinados grupos sociais criam estratégias de distinção e de segregação frente a outros. A análise dos dois contextos leva à relexão sobre a importância de se realizarem estudos empíricos acerca do universo digital que se contraponham ao viés utópico e tecnicista de certa literatura sobre a Internet (WINKIN, 1998).
A opção aqui é pelo entendimento de processos comunicacionais que ocor- rem em ambientes de tecnologias digitais tendo como pano de fundo os aspectos culturais relacionados aos temas estudados. Além de Winkin (1998), autores como Miller e Slater (2004), Maigret (2010) e Wolton (2003) vêm criticando o “determi- nismo tecnológico” que ronda muitos estudos sobre as “novas mídias”, ao mesmo tempo em que propõem como alternativa uma abordagem que tenha como foco as
81 Profª da ESPM-RJ (Escola Superior em Propaganda e Marketing), onde também atua como
pesquisadora do CAEPM (Centro de Altos Estudos em Propaganda e Marketing da ESPM) e do GEC IACS (Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF).
82 O artigo apresenta resultados de uma pesquisa apoiada pelo CAEPM (Centro de Altos Estudos
em Propaganda e Marketing da ESPM), a quem agradeço o apoio recebido. Uma primeira versão do texto foi apresentada na Mesa-Redonda “Lan houses para quê e para quem? Um espaço e seus múltiplos usos nas periferias das cidades contemporâneas”, integrante do VII ENECULT realizado na UFBA, em agosto/2011.
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práticas culturais que, no uso dessas tecnologias as precedem, criando conigurações particulares. Para Miller e Slater (2004), a perspectiva determinista tecnológica que trata a Internet como um meio que por si só provocaria determinados comporta- mentos em quaisquer contextos deve ser confrontada com estudos empíricos que enfoquem suas diferentes apropriações em situações bem delimitadas:
Isso signiica desagregar “a Internet” na profusão de processos, usos e “tecno- logias” sociais que ela pode compor em diferentes relações sociais ao invés de considerá-la como um “objeto” único com propriedades inerentes que podem, no máximo, ser expressos de formas variadas em diferentes contextos. [...] Há uma enorme diferença entre começar uma etnograia on-line a partir da pressupo- sição de que a Internet forma inerentemente relacionamentos “virtuais” e pode, portanto, ser estudada como um cenário auto-contido (ignorando os “contextos”
off-line), em oposição a descobrir – no meio de uma etnograia – que algumas
pessoas estão tratando essas mídias como se fossem virtuais e fazendo tudo ao seu alcance para separar seus relacionamentos on-line daqueles off-line (como foi, por vezes, o caso na pesquisa anterior de Slater, mas não foi absolutamente o caso no estudo de Trinidad). Diferentes circunscrições do objeto e do contexto surgem através dos seus inter-relacionamentos observados.
(Miller e Slater, 2004, p.45)
O método de pesquisa adotado no trabalho foi a etnograia, característica da antropologia – mais que uma técnica, esta metodologia representa a marca da dis- ciplina, por permitir, através do deslocamento e imersão profunda do pesquisador no universo do grupo estudado, uma análise dos padrões culturais que fornecem sentido aos comportamentos sociais (MALINOWSKI, 1978).
O trabalho de campo transcorreu durante o ano de 2009 e 2010 nas favelas83
de Santa Marta e Vila Canoas, localizadas na cidade do Rio de Janeiro. A pesqui- sa se realizou através de observação participante, entrevistas em profundidade e
83 A denominação “favela” não foi empregada pelos moradores de Vila Canoas nos primeiros
contatos com o grupo; eles se referiam ao local como uma “comunidade”. Vale lembrar que o termo “favela” costuma ter uma conotação bastante negativa, quando associada às ideias de “caos”, “sujeira”, “desordem”, “pobreza” e “violência”. Para uma discussão mais ampla sobre as representações sociais relacionadas a “favela” e “comunidade”, ver VALLADARES, Lícia. “A invenção da favela: do mito de origem a favela.com”. Rio de Janeiro: FGV, 2005 e BIRMAN, Patrícia. “Favela é Comunidade? “ In: SILVA, Luiz Antônio M. (Org) “Vida sob cerco: Violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
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Relexões sobre entretenimento, educação e distinção em contextos de “inclusão digital”
conversas informais, típicas da investigação etnográica. A pesquisadora chegava às lan houses e navegava na Internet, observando a interação dos freqüentadores com os computadores e entre si. Em alguns momentos, apenas observava, em outros, interagia com os presentes através de conversas informais ou entrevistas. Além das lan houses, o trabalho de campo se estendeu para espaços públicos em que o acesso gratuito à Internet é oferecido por ONGs ou por iniciativas do Estado – nesse último caso, os chamados “telecentros”.
A comunidade Santa Marta, localizada no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio, passou a ganhar grande destaque na mídia por ter se torna- do a “primeira favela wi-fi da América Latina”, pois desde março de 2009 recebeu o serviço, por meio do projeto “Santa Marta Digital”. O Gover- no do Estado, através da Secretaria de Ciência e Tecnologia, já havia im- plantado o mesmo sistema em toda a extensão da praia de Copacabana. A comunidade de Vila Canoas, por sua vez, encontra-se instalada no bairro de São Conrado, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Vila Canoas é uma pequena favela com cerca de 4.000 moradores, cuja povoação formou-se ao longo dos últi- mos setenta anos, a partir de pequenas casas para empregados do Gávea Golf Club, clube de elite vizinho à área. Existe na comunidade um luxo de turistas estrangeiros motivado por fatores como: a proximidade com a Pedra Bonita, principal ponto da cidade para a prática de asa delta e o trabalho da agência Favela Tour, que promove passeios turísticos à comunidade, para conhecê-la “por dentro”, o que inclui uma visita a projetos sociais de inclusão digital e um tour pelo interior da favela.