dos os nossos deveres como mandamentos divinos58 . Aquela em
58 Por meio desta definição estorvam-se algumas interpretações viciosas do
conceito de uma religião em geral. Primeiro: nela, no tocante ao conhecimento e à confissão teoréticos, não se exige saber assertórico algum (nem sequer o da existência de Deus), porque, na deficiência do nosso discernimento de objec- tos supra-sensíveis, esta confissão poderia já ser fingida; unicamente se pres- supõe uma suposição (hipótese), problemática segundo a especulação, acerca da causa suprema das coisas. Mas em atenção ao objecto em vista do qual a nossa razão, que ordena moralmente, nos ensina a agir, pressupõe-se uma fé prática que promete um efeito para o propósito final desta razão, por conseguinte, uma fé assertóricalivre – suposição que apenas necessita da ideia de Deus, na qual deve inevitavelmente desembocar todo o trabalho moral sério (e, portanto, crente) em prol do bem, sem poder garantir a tal ideia, graças ao conhecimento teorético, a realidade objectiva. Para o que se pode estabelecer como dever a todo o homem, o minimum do conhecimento (é possível que exista um Deus) deve ser já subjec- tivamente suficiente. Em segundo lugar, pela definição de uma religião em geral atalha-se a representação errónea de que a religião é um conjunto de deveres particulares, imediatamente referidos a Deus, e evita-se assim que aceitemos (como, aliás, os homens estão muito inclinados a fazer), além dos deveres hu- manos ético-civis (de homem para homem), serviços de corte e, em relação a tal, pretendamos reparar, graças a esses últimos, a deficiência dos primeiros. Não há numa religião universal nenhum dever particular para com Deus; pois Deus nada de nós pode receber; não podemos agir nem sobre Ele nem para Ele. Se da reverência que lhe é devida se pretender fazer semelhante dever, não se tem conta que esta reverência não é uma acção particular da religião, mas a disposição de ânimo religiosa em todas as nossas acções conformes ao dever em geral. Se se disser: "Importa obedecer mais a Deus do que aos homens", isto significa apenas que: se mandamentos estatutários, a cujo respeito os homens podem ser legisladores e juízes, entram em conflito com deveres que a razão incondicional-
que eu devo previamente saber que algo é um mandamento divino para o reconhecer como dever meu é a religião revelada (ou neces- sitada de uma revelação); pelo contrário, aquela em que de antemão devo saber que algo é dever, antes de o poder conhecer como man- damento divino, é a religião natural. – Quem declara como moral- mente neces-sária, i.e., como dever, somente a religião natural pode também chamar-se racionalista (em matérias de fé). Se nega a realidade efectiva de toda a revelação divina sobrenatural, diz-se naturalista; se admite tal revelação, mas afirma que conhecê-la e aceitá-la como efectivamente real não se requer com necessidade para a religião, pode então chamar-se racionalista puro; mas se considera necessária para a religião universal a fé em tal revelação, poderia chamar-se sobrenaturalista em matérias de fé.
O racionalista, em virtude deste seu título, deve já por si mesmo manter-se dentro dos limites do discernimento humano. Por isso, como naturalista, nunca negará nem discutirá a possibilidade in- terna de uma revelação em geral, nem a necessidade de uma reve- lação como meio divino para a introdução da religião verdadeira; pois a tal respeito nenhum homem pode decidir algo mediante a razão. Por conseguinte, a questão só pode concernir às pretensões recíprocas do racionalista puro e do sobrenaturalista em matérias de fé, ou àquilo que um ou outro aceita como necessário e sufi- ciente para a única religião verdadeira, ou só como nela contin- gente.
mente prescreve e sobre cujo seguimento ou transgressão somente Deus pode ser juiz, a autoridade daqueles deve ceder perante a destes. Mas se por aquilo em que se deve obedecer mais a Deus do que ao homem se pretendesse entender os mandamentos estatutários de Deus feitos passar por tais por uma Igreja, então, tal princípio facilmente se poderia transformar no grito de guerra, muito ouvido, de clérigos hipócritas e ávidos de poder à insurreição contra a autoridade civil. Com efeito, o lícito que esta última ordena é decerto dever: que, porém, algo em si lícito, mas a nós cognoscível só por revelação divina, seja de facto ordenado por Deus é (pelo menos. na maior parte dos casos) sumamente incerto.
Se a religião se dividir, não segundo a sua primeira origem e a sua possibilidade interna (já que se divide em natural e reve- lada), mas somente segundo a qualidade que a torna susceptível de comunicação externa, então ela pode ser de dois tipos: ou a religião natural, de que (por já existir) cada qual se pode con- vencer pela sua razão, ou uma religião erudita, de que só a outros se pode convencer por meio da erudição (na qual e pela qual de- vem ser guiados). – Esta distinção é muito importante, pois a partir apenas da origem de uma religião nada se pode inferir acerca da sua adequação ou inadequação para ser uma religião universal dos homens, mas sim a partir da sua qualidade de ser ou não univer- salmente comunicável; a primeira propriedade, porém, é que con- stitui o carácter essencial daquela religião que deve obrigar todo o homem.
Por conseguinte, uma religião pode ser a natural e, todavia, ser igualmente a revelada, se estivesse constituída de tal modo que os homens, graças ao simples uso da sua razão, teriam podido e de- vido chegara ela por si mesmos, embora não chegassem tão cedo ou em tão vasta extensão, como se exige; portanto, pôde ser sábia e muito proveitosa para o género humano uma revelação de tal re- ligião numa certa época e num certo lugar, mas de maneira que do- ravante, em virtude de aí já estar e se ter tornado publicamente con- hecida a religião assim introduzida, cada qual consiga convencer-se da verdade dela por si mesmo e pela sua própria razão. Neste caso, a religião é objectivamente natural, ainda que subjectivamente rev- elada; por isso, também em rigor se lhe ajusta o primeiro nome. Com efeito, poderia logo chegar-se ao esquecimento total de al- guma vez ter ocorrido semelhante revelação sobrenatural sem que, todavia, tal religião perdesse o mínimo quer na sua compreensi- bilidade, quer em certeza ou ainda na sua força sobre os ânimos. Mas com a religião que, por causa da sua qualidade interna, só pode olhar-se como revelada, as coisas passam-se de um modo diferente. Se não fosse conservada numa tradição inteiramente
segura ou em livros sagrados como documentos, desvanecer-se- ia do mundo, e uma revelação sobrenatural teria de ocorrer ou em repetição pública de tempos a tempos, ou no íntimo de cada homem onde de modo incessante persistisse; sem esta revelação, a exten- são e a propagação de semelhante fé não seria possível.
Mas pelo menos segundo uma parte, toda a religião, inclusive a revelada, deve conter certos princípios da natural. Efectivamente, a revelação só por meio da razão se pode acrescentar no pensa- mento ao conceito de uma religião, porque este próprio conceito, enquanto derivado de uma obrigação sob a vontade de um legis- lador moral, é um conceito racional puro. Portanto, poderemos considerar uma religião revelada, por um lado, como natural e, por outro, como erudita, examinar e distinguir o que, ou quanto, lhe pertence a partir de uma ou de outra fonte.
Mas se temos o propósito de falar de uma religião revelada (pelo menos, de uma acolhida como tal), isto não se deixa fazer bem sem ir buscar à história algum exemplo, pois, para nos faz- ermos entender, teríamos de inventar casos como exemplos cuja possibilidade, aliás, nos poderia ser contestada. Nada de melhor podemos fazer do que pegar num livro que contenha coisas assim, em especial num que esteja intimamente entretecido de doutrinas morais, logo, afins à razão, como recurso intermediário das elu- cidações da nossa ideia de uma religião revelada em geral, livro que pomos diante de nós como um dos muitos livros que tratam de religião e de virtude sob o crédito de uma revelação, para ex- emplo do procedimento, útil em si, de seleccionar o que nele pode para nós ser a religião racional pura, portanto, universal, sem nos imiscuirmos no afazer daqueles a quem está confiada a interpre- tação desse livro como conjunto de doutrinas reveladas positivas, ou pretendermos impugnar assim a sua interpre-tação, fundada na erudição. Pelo contrário, é vantajoso para a última, já que com os filósofos desemboca num só e mesmo fim, a saber, o bem moral,
levar estes, mediante os seus próprios fundamentos racionais, jus- tamente aonde ela mesma pensa chegar por outra via.
Este livro pode ser aqui o Novo Testamento, como fonte da doutrina de fé cristã. De harmonia com o nosso propósito, vamos apresentar em duas secções, primeiro, a religião cristã como natu- ral e, depois, em segundo lugar, como religião erudita, de acordo com o seu conteúdo e os princípios que nela se encontram
6.1.1 ...