O melhor de um diagnóstico é poder utilizar seus dados para avançar. Confira algumas recomendações da pesquisa:
• Sociedade x Universidade. A estruturação de grupos, órgãos, disciplinas e cursos de EA a partir dos anos 1990 já teriam sido respostas à demanda cada vez mais intensa por um fortalecimento do vínculo entre universidades e a sociedade. Um novo passo na mesma direção seria estabelecer políticas públicas de EA no meio universitário.
• Caminho da diversidade. Ante a diversidade das iniciativas existentes, o bom começo seria reconhecê-las e fortalecê-las, usando-as como inspiração nas instituições universitárias ainda sem EA em sua estrutura. Priorizar a não-padronização nessa área teria a vantagem de respeitar a autonomia das instituições do ensino superior, seus cursos, bem como do planejamento curricular e pedagógico.
• Mexer nas estruturas. Sistematizar e incorporar um saber ambiental às práticas acadêmicas requer a reformulação dos conhecimentos dos docentes. E isso exige a coragem de enfrentar uma estrutura institucional tradicionalmente compartimentada pela hiper-especialização e a falta de articulação intra e interinstitucional, desenvolvendo novos espaços acadêmicos favoráveis às relações interdisciplinares.
• Investir na EA. Investimentos seriam importantes tanto na formação ambiental de pessoal, como em infra-estrutura, instrumentos e procedimentos institucionais de apoio, para transformar a EA em uma
123 “A produção do conhecimento e a temática ambiental na universidade: análise preliminar das contribuições da pesquisa acadêmica para a educação ambiental”, apresentado na Conferência Nacional de Educação Ambiental em 1997, em Brasília (publicado nos Anais do Congresso, publicados pelo MEC e MMA no mesmo ano).
Contestado (UnC-Caçador), partiram de outra base de dados para avaliar o estado da arte da pesquisa em EA, chegando a um número ainda maior de 736 dissertações e 74 teses voltados à EA, produzidas em programas de pós-graduação no país, entre 1981 e 2003125.
No V Congresso Ibero-Americano de EA, eles contaram que decidiram avaliar, inicialmente, sete estudos sobre a produção acadêmica em campos como biologia, física, educação e matemática126. Só depois
escolheram os diretórios para buscar trabalhos sobre EA desenvolvidos em programas de pós-graduação reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação (Capes/MEC): o banco de teses da própria Capes, catálogos de Centros de Documentação da Unicamp e estudos do Grupo de Trabalho em EA da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped).
Revelou-se a evolução numérica ascendente. Apenas 1,2% dos trabalhos eram dos anos 1980. Na década seguinte, produziu-se um terço (33,2%). E, no curto período 2000 a 2003, nasceu o resto, ou seja, 65,6%, além de mais 24 trabalhos feitos em programas de mestrado profissionalizante. Para justificar essa ascensão, os autores citam alguns marcos. Em 1992, a Rio-92 teria contribuído para que a EA se instituísse “como área de pesquisa em consonância com os movimentos O número de trabalhos acadêmicos com
ênfase no tema Sociedade e Meio Ambiente, desenvolvidos de 1970 a 2004, saltou para 521.
Ainda mais poderiam ter sido encontrados, avaliam os especialistas, houvesse naquele momento buscadores mais ágeis, para identificar todos os estudos abordando a EA em todas universidades brasileiras. Mesmo assim, deu para identificar dois “pontos altos” no horizonte de tempo: 1997 e 2003-04. E, dessa vez, duas foram as regiões campeãs em número de trabalhos: Sudeste (66%) e Sul (21%). Entre as instituições, o destaque ficou para as universidades de São Paulo (USP), com 139 trabalhos; de Campinas (Unicamp), com 45, e Fundação Universidade do Rio Grande do Sul (Furg), com 92.
Quanto ao conteúdo, o aprofundamento permitiu concluir que quase metade (253) tratava de educação e meio ambiente. Majoritariamente decorriam de cursos de mestrado (71%) ou especialização (15%). Doutorado ganhou terceira colocação, com 10%. O resto ficou nos extremos: graduação (3%) e livre-docência (1%). Seguindo a lógica, a maior parte (127) foi produto de cursos cuja área de concentração era EA. Em seguida, vieram: Educação (91), Ecologia (7), Saúde Pública (6) e outros124.
Também em 2006, Leonir Lorenzetti e Demétrio Delizoicov, respectivamente das universidades Federal de Santa Catarina e do
124 “Banco de Dados sobre Temática Ambiental: Produção e Análise de Teses em Educação Ambiental”, trabalho de iniciação cientí- fica em Ciências Biológicas, realizado no Centro Universitário Fundação Santo André. (2005)
125 “O Estado da Arte da Pesquisa em Educação Ambiental: Leituras Iniciais”, apresentado em 2006 pelos autores no V Congresso Ibero-americano de EA e, em 2007, publicado em Bruxelas, Bélgica. Disponível em: http://www.reseau-amerique-latine.fr/ceisal- bruxelles/CyT-MA/CyT-MA-2-Lorenzetti.pdf
126 Os trabalhos dos seguintes autores foram consultados nesse levantamento: Gamboa (produção em programas de educação do es-tado de São Paulo, 1987); Megid (sobre a pesquisa em ensino de Física no 2º Grau no país, em 1990, e tendências da pes- quisa acadêmica sobre o ensino de ciências no nível fundamental, 1999); Fiorentini (rumos da pesquisa brasileira em Educação Matemática – 1994); Pierson (cotidiano e busca de sentido para o ensino de Física, 1997); Lemgruber (a educação em ciências físicas e biológicas entre 1981 a 1995, analisada em 1999); Da Ros (produção em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz e Faculdade de Saúde Pública da USP, 2000) e Slongo (sobre a produção em ensino de Biologia, 2004).
138
EA da Furg), viu-se um equilíbrio entre o foco na EA formal (45,4%) e EA não formal (46,2%) e que discute ambas (7,6%).
São resultados que, segundo os autores, confirmam o crescimento vigoroso da área de pesquisa em EA, com uma “significativa dispersão de temas e problemas investigados”. Resultado colateral da pesquisa foi perceber um esforço de divulgação, seja pela presença de pesquisadores em eventos, ou pela publicação de resultados nas principais revistas relacionadas ao ensino de Ciências e de Educação. Uma tendência que facilita a realização de novos estudos nessa área.
ENQUANTO ISSO, NO ENSINO