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Statlig erstatningsansvar

In document EU/EØS-rett i norske domstoler (sider 73-77)

10. EØS-rettens gjennomslag i norsk rett – direkte virkning, forrang,

10.4. Statlig erstatningsansvar

Completando a trilogia da família Burnell, Mansfield finaliza “A Casa de Bonecas”48em 1921, conto publicado somente em 1923 na coletânea The Dove’s Nest (O ninho da pomba, em tradução livre). Sabe-se que o conto teve origem em um ensaio intitulado “A Happy Christmas Eve” (“Uma Feliz Véspera de Natal”), publicado por ela quando tinha

apenas onze anos de idade. Diferente dos dois anteriores, o conto é curto, sem divisões e narra o encantamento das três filhas dos Burnell com uma casa de bonecas recebida como presente de uma amiga da família.

A história concentra-se na descrição dos ambientes, particularmente da casa de bonecas, da fisionomia e da personalidade das meninas, personagens centrais do enredo. A narração em terceira pessoa centrada no comportamento das crianças transmite a sensação de que estamos assistindo a um filme infantil, com crianças zombando uma das outras enquanto brincam despreocupadamente na escola e nos quintais das casas.

O conto tem início com a minuciosa descrição do presente recebido, uma perfeita réplica de uma casa normal, e da euforia que toma conta de Lottie, Kezia e Isabel com o novo brinquedo.

No dia seguinte à chegada da casa, elas partem para a escola, ansiosas para contar a novidade às colegas, exceto para as pequenas Lil e Else Kelvey, as pobres filhas de uma lavadeira e de um pai que se encontrava ninguém sabia onde, supostamente na prisão.

O momento de ruptura acontece quando, após todas as crianças da escola terem visto a casinha, as meninas Kelvey aparecem na rua da casa dos Burnell. A pequena Kezia, sensibilizada, convida Lil e Else para verem o brinquedo. Após relutarem, as meninas entram no quintal onde estava a casa de bonecas quando, de repente, são surpreendidas pela tia Beryl que as expulsa da casa e repreende severamente a sobrinha que havia permitido a entradas das crianças. O que se segue é a descrição do encantamento que a casa de bonecas havia provocado nas meninas Kelvey. O desfecho acontece com a curiosa observação da pequena Else que afirmava alegremente ter visto o lampiãozinho, um objeto aparentemente insignificante diante dos vários móveis e artefatos de decoração que a casa possuía.

Em “A Casa de Bonecas” os personagens adultos afastam-se para darem lugar às crianças. Isabel, a mais velha das filhas e que pouco aparece nos contos anteriores, surge como a responsável por exibir a casinha a todas as espectadoras. Em contrapartida, a aparição das meninas Kelvey sugere uma nova perspectiva de análise dos padrões até então expostos. Retratadas pela condição social e pela rejeição que sofrem da sociedade, elas parecem pequenos animais assustados, conscientes de uma suposta inferioridade pela classe a qual pertencem e sem forças para olhar nos olhos dos outros, agarradas uma à outra como se não tivessem ninguém mais no mundo. O comportamento inesperado de Kezia ao convidá-las para conhecer a casa de bonecas é a primeira tentativa de ultrapassar uma das barreiras de uma sociedade que se dividia entre os nativos pobres e os ricos, os colonizadores e seus descendentes.

Mansfield utiliza a ironia para expor a segregação social que isolava as meninas Kelvey do convívio com as outras crianças, especialmente na escola: “Elas eram filhas de uma lavadeira muito enérgica e trabalhadora, que durante o dia ia de casa em casa. Só isso já era terrível. [...] Assim, elas eram filhas de uma lavadeira e de um presidiário. Que bela companhia para as outras meninas!”. (MANSFIELD, 2005, p. 194). Fica claro que não era suficiente o fato de a mãe das crianças ser trabalhadora, dentro e fora de casa, se não se compartilhava do mesmo status social, nada adiantava. Ao longo de todo o texto, veremos as Kelvey serem excluídas e humilhadas pelas outras crianças e repelidas até mesmo pela professora.

A única personagem que se comove com as garotas Kelvey é Kezia, a mesma que se encanta com o lampiãozinho sobre a mesa, insignificante objeto para as outras crianças. Tal fato não é isolado. A sensibilidade de Kezia para enxergar o minúsculo artefato é a mesma capaz de enxergar a injustiça contra as Kelvey. A simbologia do objeto, causa do encantamento de Kezia, é a que permite iluminar a hostilidade criada pela separação de classes, que se torna mais cruel quando envolve crianças, incapazes de compreender a raiz e a causa de tal divisão. Vale lembrar que o lampião também apareceu em “Prelúdio”, quando Kezia recebeu da avó a tarefa de cuidar do objeto: “A velha senhora abaixou-se e entregou aquela coisa que respirava e brilhava nas mãos dela” (2005, p. 103, destaques nossos).

Além da temática social, outro aspecto que se destaca no conto é a questão étnica, se considerarmos as meninas Kelvey como a personificação dos aborígenes da Nova Zelândia, os nativos Maori. No fim do século XIX, a população neozelandesa constituía-se pela mistura dos nativos com os colonizadores britânicos, além dos vizinhos australianos e de outras pequenas ilhas. Como acontece em todo processo de colonização, há os que permanecem à margem da sociedade e, no caso em questão, a pobre trabalhadora é o retrato da população aborígene, que foi colonizada e se tornou mão de obra barata da classe dominante.

Foi somente pela atitude corajosa de Kezia que Lil e Else puderam se encantar com a casa. O oposto se deu pela reação de Beryl ao espantar as meninas de seu quintal. Tendo recebido uma carta ameaçadora de um suposto amante, ela alivia a pressão e a raiva por meio da atitude austera e ríspida com as Kelvey e a sobrinha. “Fria e orgulhosa”, com a mesma reação intransigente com que tratava a criada Alice, ela abranda toda sua frustração nas pobres crianças: “Mas agora que ela assustara as miseráveis das Kelveys e depois de passar um bom pito em Kezia, seu coração estava mais leve. Aquela desagradável pressão desaparecera. Ela voltou para casa cantarolando” (2005, p. 199). aplaca

silenciosa Else que sorri “seu raro sorriso”. Já indiferentes à expulsão da casa, elas ficam em silêncio, admirando sonhadoramente a paisagem. A fascinação de Else pelo lampiãozinho, assim como aconteceu com Kezia, recupera a simbologia da claridade, do “trazer algo à luz”, no único momento em que ela se expressa verbalmente: “‘Eu vi a lampadinha’, ela disse, suavemente.” (2005, p. 199). Ao terminar de narrar a história da família Burnell, Mansfield terminou de reinventar, pela memória, a história de sua família.

A presença maciça das mulheres em “A Casa de Bonecas” é, talvez, seu aspecto mais preponderante. Sem qualquer menção aos homens, exceto o suposto amante de Beryl, autor da carta, o texto apresenta o universo feminino na infância e na vida adulta, seja no mundo das mulheres Burnell, seja no das mulheres Kelvey. Ao final da trilogia, Mansfield liberta essas mulheres da necessidade e da presença masculina, como se elas mesmas se bastassem. Pouco tempo depois da publicação de “The Doll’s House”, ela morre na região da capital francesa e leva consigo a continuação da vida de Beryl, Linda, Sra. Fairfield, das crianças e a dela própria.

Sem assistir às mudanças que o século XX atravessaria, os seus textos foram deixados como material para reflexão sobre as transformações na vida de homens e mulheres e, principalmente, a busca feminina por espaço e por liberdade. No capítulo seguinte, veremos de que forma questões de gênero se construíam diante de Mansfield e como ela transpôs algumas questões que a incomodavam para dentro de seus textos.

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