O semiárido brasileiro é o contexto que tomamos como referência nesta discussão uma vez que a pesquisa se deu sobre uma experiência de educação escolar, situada neste contexto.
A extensão territorial do semiárido brasileiro (SAB) é de aproximadamente 900.000 km², com uma população em torno de 26.423.362 habitantes, um pouco menos do que a população de alguns países da Europa e mais do que as populações do Paraguai e Uruguai juntas. Comumente o semiárido é confundido com o Nordeste. Contudo, o Nordeste não é sinônimo do semiárido, apesar do território do semiárido ocupar 70% do território nordestino. No total, o semiárido concentra 1.400 municípios brasileiros.
Atualmente a região semiárida brasileira é composta por parte dos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Minas Gerais.
Ao contrário do que é divulgado na mídia e ensinado na imensa maioria dos livros didáticos, o SAB é um dos biomas mais úmidos do mundo; com uma precipitação pluviométrica anual de 750 milímetros, em média. A maior característica do semiárido não é a ausência de chuva, mas sua irregularidade no tempo e no espaço. Isto implica em dizer que não há certeza quanto ao tempo que vai passar entre uma chuva e outra e em relação aos lugares onde a mesma ocorrerá. Poderá chover muito numa área e não chover nada noutra dentro do mesmo município e na mesma época. Porém, mesmo esta peculiaridade que pode ser analisada somente como adversidade, traz alguns benefícios. Na região semiárida, um conjunto de municípios pode ter um período chuvoso de outubro a janeiro, outro conjunto de municípios tende a ter este período de janeiro a abril e outro conjunto no período de abril a junho. Ou seja, pode haver seis meses anuais de boa chuva nesta região. Isto deixa claro que é a ausência de políticas públicas integradas e articuladas para a região que maximiza os impactos e prejuízos das estiagens, identificadas como seca. Pesquisas realizadas pelo UNICEF apontam que, de cada 5 pessoas que vivem nesta região, 4 pertencem a famílias cuja renda per capita é menos do que 0,5 salário mínimo (FILHO, 2003 apud SOUZA, 2006, p. 38).
Esta condição imprime grande concentração de parte da população de baixa renda e os mais baixos indicadores sociais do Brasil.
Contudo, é também notório e comprovadamente experimentado que esta é uma região de múltiplas e variadas potencialidades tanto no aspecto turístico como no campo da produção. O que nos permite compreender que seus problemas não são decorrentes diretos das condições climáticas e ambientais, mas da estrutura política, econômica e social que foi implantada mediante uma política de colonização econômica e cultural.
A natureza mostra que o SAB possui muitas vantagens e belezas. As plantas e animais aproveitam os tempos de mais chuva para se reproduzir e para armazenar água. Quem já não viu como o mandacaru muda, em poucas horas, de uma cor mais amarelada para um verde-escuro, depois de uma chuva? Logo o tronco incha com a água, absorvida com rapidez pelas raízes (SHISTEK; MARTINS, 2001, p. 16).
A biodiversidade da caatinga é um importante potencial do semiárido brasileiro. A educação na perspectiva da convivência com o semiárido assume como premissa do seu trabalho pedagógico investigar essas potencialidades e evidenciar as possibilidades e viabilidade da região. Segundo Suassuna, pesquisador e engenheiro da Fundação Joaquim Nabuco, existe
uma riqueza enorme de plantas adaptadas ao meio ambiente seco que poderiam ser exploradas economicamente. São plantas produtoras de óleo, de látex, de cera, de fibras; plantas medicinais e frutíferas entre outras. Percebemos que essa e outras riquezas (animal e vegetal) de nosso semiárido ainda estão por ser conhecidas e valorizadas (SUASSUNA, 2002, p.,6 apud BRAGA, 2004, p. 28).
Queremos aqui tomar o ambiente semiárido como contexto da práxis educativa e quando assim o fazemos este ambiente torna-se um ecossistema socioeducativo11. Isto implica reconhecê-lo não somente como lugar de aprendizagem, mas eleger suas características geofísicas, as relações e experiências de convivência com este ecossistema, como conteúdo a ser ensinado e aprendido numa perspectiva metodológica coerente com a perspectiva da contextualização.
Falar no semiárido como contexto a partir do qual se pode pensar a educação implica em olhar para esta região como um campo de estudo. Todas essas possibilidades, potencialidades, diversidade e até adversidades deste lugar podem e devem ser estudadas pela
11 Conceito trabalhado por Álamo Pimentel em seu artigo Processos educativos e sua gênese na convivência
história, geografia, matemática, língua portuguesa, artes e todas as demais áreas do conhecimento, numa outra lógica: a da convivência.
A convivência tem sido um paradigma construído no semiárido pelas organizações e
movimentos sociais populares como uma “proposta política de mobilização para a
implementação de políticas públicas apropriadas ao desenvolvimento sustentável na região” (SILVA, 2010, p. 76).
Portanto, quando propomos o semiárido como campo de estudo, estamos dizendo que a escola deve estudar a convivência com o meio ambiente, com a economia, cultura, política. Enfim, com todas as dimensões da vida, proporcionando aos povos que habitam esta região apropriarem-se, por meio da escola e do currículo, de conhecimentos que possibilitam melhor qualidade de vida e garantia da dignidade da população sertaneja. Concordamos com Silva (2010, p.77) quando diz que isto
requer a conquista de políticas públicas permanentes e apropriadas a partir da superação das estruturas geradoras da desigualdade, como a concentração da terra, do poder e do acesso aos serviços sociais básicos. Esse processo é fruto de mobilização...
É neste sentido de mobilização e luta por um semiárido que seja efetivamente um lugar de vida que se insere a proposta de educação para a convivência com o semiárido ou, como aqui nomeamos, de educação contextualizada na perspectiva da convivência com o semiárido.