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Study III............................................................................................................................ 42

5.1.5 Statistical methods

Tudo é arranjado pela natureza para ficar exatamente no estado em que vemos. A natureza não concedeu às suas criaturas nem força, nem beleza, nem graça semelhantes. Como ela quer nuances nas construções, exige o mesmo nas sortes e nas fortunas. Logo, os infelizes que o azar oferece às paixões dos libertinos estão em seus planos. Atrapalhar essa sábia economia seria como perturbar o curso do sol, se o homem tivesse esse poder. Juliette interrompe perguntando o que professora faria se fosse infortunada. A prioresa responde que sofreria sem reclamar nem pedir ajuda. Afinal, elucida, há vários males imprevistos no mundo aos quais os seres estão sujeitos, como miséria, febre, peste, guerra, fome, revoluções e por isso é preciso saber recebê-los com coragem. Se ela é indiferente ao sofrimento alheio é porque ela mesma aprendeu a sê-lo em relação às próprias desventuras. A natureza não inspira

243 H.J., p. 266. 244 H.J., p. 268.

o homem à ajuda mútua, mas lhe concede a força necessária para suportar o mal que a ele reserva. Ou seja, o efeito da natureza no homem é o egoísmo, a preocupação única consigo mesmo. A compaixão, longe de elevar a alma humana, enfraquece-a, tirando-lhe a coragem necessária para suportar as próprias dores. Dessa forma, quem sabe se endurecer frente ao mal de outrem, torna-se impassível ao próprio mal. E quanto menos sensíveis, menos somos afetados e mais nos aproximamos da verdadeira independência. Somos, pois, vítimas apenas de duas coisas: das desgraças dos outros ou das nossas próprias. Fortalecendo-nos em relação às primeiras, as segundas não nos atingirão e nada perturbará nossa tranquilidade.

Juliette conclui que a apatia admoestada por sua instrutora conduzirá necessariamente ao crime246. Delbène salienta que não é nem à virtude nem ao crime que devemos nos

associar, mas àquilo que nos torna feliz. Se um suposto indivíduo tem o excesso mais abominável como seu objeto de felicidade, ele deve se dirigir a ele sem pestanejar, visto que a primeira lei da natureza é deleitar-se não importa às custas de quem. Se a natureza deu uma constituição tal aos órgãos desse indivíduo que é apenas na desgraça do próximo que sua volúpia se atiça, foi simplesmente para alcançar seu intento de destruição, tão necessário como qualquer outro. Para a natureza, portanto, é fundamental constituir seres que a sirvam em seus projetos de destruição247. A chefe da abadia acrescenta que despreza a sorte alheia

assim como recusa o vínculo de fraternidade248. Juliette mostra-se surpresa por sua tutora

duvidar desta primeira lei da natureza. A abadessa, por sua vez, fica indignada com a reação da aluna e observa que a adolescente ainda precisa de muita instrução249.

Essa perspectiva de que o outro existe somente como instrumento de prazer é chamada por Deprun de isolismo250. O conceito deve ser entendido, de forma mais geral, como “toda a

gama de sentimentos que vão do egocentrismo espontâneo ao egoísmo refletido, culminando na atitude predatória da fera humana”251. Perspectiva absolutamente contrária à ética das

Luzes, como já vimos anteriormente. O especialista não deixa de frisar que, embora os teóricos iluministas partam do egoísmo para chegar no altruísmo, essa passagem nem sempre

246 H.J., p. 269.

247 A ideia de uma natureza cujas inspirações objetivam a destruição levam Jean Deprun a formular o terceiro aspecto (os dois primeiros são o isolismo, que abordaremos a seguir, e o intensivismo, já por nós referido) pelo qual “a ética sadiana contradiz de forma evidente o espírito da Luzes”: o antifisismo (antiphysisme). Ver Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 81. Aprofundaremos esse conceito no início do próximo capítulo.

248 H.J., p. 270.

249 “Il est inouï le besoin que tu as d'être formée [...]” (H.J., p. 270).

250 Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 83. O termo “isolisme” é utilizado por Sade em Aline et

Valcour.

251 “[...] toute la gamme des sentiments allant de l'égocentrisme spontané à l'égoïsme réfléchi et culminant sur l'attitude prédatrice du fauve humain” (Deprun, “Sade philosophe”, op. cit., p. LXIV).

parece “solidamente motivada”252. Na moral da Ilustração, a “harmonia dos interesses” entre

os homens “é mais postulada do que demonstrada”, o que dá a impressão de que eles “ignoram ou querem ignorar que os interesses e as paixões dividem os homens de forma grave e permanente”253. Daí as críticas dos teóricos cristãos já suscitadas neste capítulo. O

comentador lembra então que, se o otimismo das Luzes atenua ou neutraliza os antagonismos dos homens, o romance sadiano coloca-os no primeiro plano.

Ato contínuo, o diálogo entre Delbène e Juliette é subitamente interrompido. Numa ironia do destino, um criado informa os infortúnios ocorridos na casa da jovem aprendiz. Ela e sua irmã têm vinte e quatro horas para deixar o convento. A preceptora, completamente indiferente, faz jus ao seu último discurso. Ela não fornece nenhum apoio à estudante, apenas recorda o rumo de sua ex-aluna Euphrosine, que se lançou à carreira da libertinagem. Aconselha então a protagonista a imitá-la por necessidade e a jamais voltar à abadia em busca de auxílio.

A última lição da prioresa revelou-se a mais dura: “o homem sadiano é um solitário e a única forma de sociedade na qual ele pode entrar é uma cumplicidade imperfeita, superficial, passageira e rompida tão logo possível”254. A narradora aprende assim que o isolismo não

funciona apenas entre libertinos e vítimas. Mesmo entre comparsas de orgia, a cumplicidade dura somente enquanto houver interesse. Com isso em mente, nossa heroína deixa o claustro carregando somente um pouco de dinheiro, mas todos os preciosos preceitos de sua primeira orientadora libertina.

252 “[...] solidement motivé” (Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 89).

253 “Souvent [...] l'harmonie des intérêts est plutôt postulée que démontrée. Souvent on a l'impression que les théoriciens de l'éthique des lumières ignorent ou veulent ignorer que les intérêts et les passions des hommes divisent ceux-ci de façon grave et permanente [...] (id., ibid.).

254 “[...] l'homme sadien est un solitaire et la seule forme de société dans laquelle il puisse entrer n'est jamais qu'une complicité imparfaite, superficielle, passagère et rompue d'ailleurs dès que faire se peut” (id., ibid., p. 83).

CAPÍTULO 4

NOIRCEUIL

A

inda com apenas quinze anos, numa das inúmeras vezes em que vende a virgindade por meio da alcoviteira Duvergier, Juliette conhece Noirceuil: “um homem cujos detalhes no ato da sodomia são tão bizarros que merecem ser narrados”1. Rico libertino de quarenta anos,

sem moral nem religião, tinha muito espírito e grande capacidade para argumentar todas as suas torpezas. Seu nome alude provavelmente ao substantivo noirceur que significa literalmente trevas, escuridão e, no sentido figurado, a atrocidade, a perversidade de um crime2. Nada mais apropriado para denominar um terrível celerado:

“[...] se o interior da minha alma pudesse se entreabrir, eu assustaria tanto os homens que talvez não houvesse um único sobre a terra que ousasse se aproximar de mim; levei a imprudência e o crime, a libertinagem e a infâmia ao último grau; e se experimento algum remorso, declaro bem sinceramente que ele só se deve ao desespero de não ter feito o bastante”3.