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Study II............................................................................................................................. 44

5.2 General discussion of results

5.2.4 Consequences for management strategies

Incitando o libertino ao discurso, Juliette censura o comportamento cruel que presenciou, alegando que não há nada mais injusto do que a conduta de Noirceuil para com a Madame. O herói concorda com a jovem, mas precisa que a injustiça existe apenas em relação à sua consorte, pois, em relação a si próprio, a ação é justa, visto que o deleita. Ele explica que todas as paixões têm dois sentidos: um muito injusto para a vítima e outro singularmente justo para o executor. O órgão das paixões, ainda que relativamente injusto, é a voz da natureza, cuja energia nos inspira à execução de injustiças. Tais iniquidades são necessárias ao universo, pois as leis naturais, cujos motivos nos são desconhecidos, exigem uma soma de vício ao menos igual à de virtude12. Portanto, o homem que não tem inclinações à virtude,

deve curvar-se cegamente à inspiração que o tiraniza, certo de que esta vem da natureza e de que ela o escolheu para a manutenção de seu equilíbrio.

Embora a ideia de natureza na Histoire de Juliette ganhe complexos desdobramentos ao longo da narrativa, essa iniquidade natural à qual Noirceuil se refere faz parte de uma concepção específica. Para ele, o crime é fundamental porque tem uma “função sincrônica” na economia do universo, isto é, trabalha como “um agente de equilíbrio”13. Vício e virtude, bem

e mal, ordem e desordem são fenômenos opostos que se complementam. Agindo juntos e em proporções equivalentes, possibilitam um processo natural de ação e reação, de construção e destruição.

A noção de Noirceuil é provavelmente baseada no sistema de d'Holbach, no qual o vício também é um dos vários processos parciais necessários à manutenção do todo. Relativamente à natureza, como tudo é necessário, tudo está sempre em ordem. Mas para que haja tal equilíbrio, virtude e vício, bem e mal, ordem e desordem, prazer e dor são pela mão da natureza distribuídos pelo mundo. Sendo uma força sempre ativa de leis imutáveis, a natureza não pode ser culpada de maldade ou bondade: ela é imparcial nos seus procedimentos. Mas isso não quer dizer que ela seja implacável conosco. O mal físico e moral não se deve à maldade propriamente dita, mas simplesmente à necessidade das coisas: para

12 H.J., p. 302.

13 “Quel rôle le crime joue-t-il dans l'économie de l'univers ? [...] le crime est un agent d'équilibre : sa fonction est alors synchronique [...]” (Jean Deprun, “Sade et la philosophie biologique de son temps”, in De Descartes

todo mal existe um remédio, basta procurá-lo e aplicá-lo14. Assim, apesar dos focos de

perversidade no mundo, para d'Holbach, a natureza é uma “deusa benevolente”15, uma boa

mãe que aspira ao bem e à harmonia da sociedade16. É nesse ponto que surge o afastamento

entre a argumentação dos dois autores.

Apesar de Sade declarar-se discípulo17 do filósofo, seu personagem não compartilha

totalmente da noção do mestre. No desenrolar de seu raciocínio, Noirceuil prioriza uma natureza inexorável, mais madrasta do que mãe. Essa visão, aparentemente sadiana, pode ter sido o simples resultado da equação que soma a leitura do Système de la nature à refutação de Bergier. Veremos esse caso com mais detalhes na parte II deste capítulo, mas adiantamos que o abade percebeu com sagacidade que a natureza sustentada pelo materialismo de d'Holbach não poderia ser uma boa mãe. A ideia de que tudo é necessário desolaria os virtuosos e elevaria os criminosos a um patamar alto demais: “Malfeitores e celerados de toda espécie, desgraça do gênero humano, pestes da sociedade, vocês podem se tranquilizar. Vocês cumprem o papel que a Natureza lhes prescreveu; sejam Materialistas, vocês não terão nada de que se repreender. [...] Tudo está bem, porque tudo é necessário”18.

Ao analisar esse distanciamento entre a natureza sadiana e a do Système de la nature, Deprun cria o conceito antifisismo19 para denominar as diversas formas nas quais a natureza

se concretiza na obra do marquês. A palavra, na acepção do século XVIII, designa atos

14 Paul Henri Thiry Holbach, baron d', Système de la nature ou des loix du monde physique & du monde moral,

par M. Mirabaud, Londres: 1770, vol. 1: “Tout [...] est nécessaire. Tout est toujours dans l'ordre relativement

à la nature, où tous les êtres ne font que suivre les loix qui leur sont imposées. [...] les vices & les vertus, les ténebres & la lumiere, l'ignorance & la science sont également nécessaires [...]” (p. 247); “La nature distribue donc de la même main ce que nous appellons l'ordre & ce que nous appellons désordre ; ce que nous appellons plaisir & ce que nous appellons douleur ; en un mot elle répand, par la nécessité de son être, & le bien & le mal dans le monde que nous habitons. Ne la taxons point pour celà de bonté ou de malice; ne nous imaginons pas que nos cris & nos vœux puissent arrêter sa force toujours agissante d'après des loix immuables” (p. 248); “N'accusons donc point la nature d'être inexorable pour nous; il n'existe point en elle de maux dont elle ne fournisse le remede à ceux qui ont le courage de le chercher & de l'appliquer. Cette nature suit des loix générales & nécessaires dans toutes ses opérations; le mal physique & le mal moral ne sont point dûs à sa méchanceté, mais à la nécessité des choses” (p. 249).

15 “[...] déesse bienveillante [...]” (Jean Deprun, “Sade et le rationalisme des lumières”, in Victor Leduc (dir.),

Raison Présente, nº 3, Paris: Éditions Rationalistes, 1967, p. 81).

16 Id., ibid., p. 83.

17 “[...] le Système, c'est bien réellement et bien incontestablement la base de ma philosophie et j'en suis sectateur jusqu'au martyre s'il le fallait. [...] un livre que j'ai fait lire au Pape, un livre d'or, un livre qui devrait être dans toutes les bibliothèques et dans toutes les têtes” (carta de Sade à sua esposa de 1783, citado por Deprun, ibid., p. 77).

18 “Malfaiteurs & scélérats de toute espèce, fléaux du genre humain, pestes de la société, vous pouvez vous tranquilliser. Vous jouez le rôle que vous prescrit 1a Nature ; soyez Matérialistes, vous n'aurez rien à vous reprocher. [...] Tout est bien, puisque tout est nécessaire” (Nicolas Sylvester Bergier, Examen du

matérialisme : ou Réfutation du Système de la Nature, Paris: Humblot, 1771, v. 1, p. 336).

19 Antiphysisme. O conceito é abordado em vários textos de Jean Deprun: “Sade philosophe”, in Sade, Œuvres

I, Paris: Gallimard/Pléiade, 1990, pp. LXV-LLXVI; “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 81 e pp. 83-84;

“Sade et l'abbé Bergier”, in De Descartes au romantisme: études historiques et thématiques, Paris: J. Vrin, 1987, pp. 153-154.

sexuais considerados pervertidos por não favorecerem a procriação, como a sodomia. Com o estudo do especialista, o termo ganha novo significado e abarca três formas diferentes de entender as relações entre natureza, crime e libertino: a sincronia, a diacronia e a “descontinuidade”20. As duas últimas serão estudadas em detalhe no capítulo do papa Pio VI.

Antecipamos que o segundo qualifica o crime como um agente de inovação e coloca o vício acima da virtude, modificando o equilíbrio sustentado pela teoria sincrônica. O terceiro designa um embate entre o celerado e a natureza que, de majestosa, torna-se força cega e estúpida. Na verdade, o raciocínio que está por trás dessas teorias é um só e se desenvolve, como tudo em Sade, por gradação ao longo das dissertações dos personagens. Portanto, os limites entre uma forma e outra de argumentação nem sempre são muito claros. Veremos que Noirceuil começa seu discurso sustentando o equilíbrio, mas, no desenrolar, acabará por priorizar o vício sem, contudo, enunciar a teoria diacrônica, tarefa atribuída ao papa.