3.5 Data Analysis
3.5.2 Statistical Analysis
Partindo do entendimento de corpo “como um sistema vivendo em contínuos correlacionamentos com os ambientes por onde circula e, nesse correlacionamento, formula hipóteses sobre este mundo” (BANANA, 2012, p. 24), proponho pensar: o que o sujeito experimenta em seu corpo é sua experiência de e com o mundo. Nesse caso, a arte afeta o sujeito da experiência ao mesmo tempo em que sofre a interferência dessa interação. Conforme Eleonora Fabião (2009, p. 238), “o corpo é definido pelos afetos que é capaz de gerar, gerir, receber e trocar. [...] Corpo não é separado de suas relações com o mundo posto que é exatamente uma entidade relacional”. Ou seja, as informações estão, ao mesmo tempo, no corpo e no mundo como instâncias interligadas e mútuas. Nesse sentido, podemos pontuar que “a dança exprime visões do mundo e materializa formas de experiência” (FAZENDA, 2014, p. 71). Mas, afinal, o que convocamos para conhecer o mundo que nos apresenta? “Quais os valores e ideais que emergem dos padrões do movimento e da interação que na dança se estabelece entre as pessoas [?]” (FAZENDA, 2014, p. 71). A dança materializa performaticamente a experiência vivida ao mesmo tempo que atribui sentido a experiência materializada.
Conforme Suely Rolnik (2002), a experiência do sujeito com o mundo acontece por dois modos: um como desenho de uma forma, outro como campo de forças. O primeiro opera através da percepção e refere-se à qualidade de reconhecer a cartografia de códigos culturais que permite associações e experiências que se traduzem em representações concretas (auditivas, visuais etc.). Esse processo de subjetivação é uma experiência que se organiza segundo o princípio do familiar. O segundo modo atua pela sensação e refere-se aos novos afetos e à capacidade de expressão e não de representação. O processo de subjetivação, nesse caso, é uma experiência de desestabilização, da ordem do desconhecido, do estranho. Essas experiências referem-se às potências de criação e resistência convocadas para apreender o
mundo enquanto matéria intensiva. A potência criativa, relacionada ao afeto artístico, é mobilizada para “criar uma nova configuração da existência, uma nova figuração de si, do mundo e da relação entre ambos”. Já a potência de resistência “luta para que essa configuração se afirme na existência e inscreva-se no mapa em vigor” (ROLNIK, 2002, p. 02). É na associação dessas duas experiências que a subjetividade se torna “laboratório vivo onde universos se criam e outros se dissolvem”, garantindo a continuidade da vida e sua expansão (ROLNIK, 2002, p. 01). Expansão enquanto potência de diferenciação. Para isso, essa potência mobiliza a força de invenção para destruir mundos e construir outros, e a força de resistência para garantir a mudança (ROLNIK, 2002). Cabe ressaltar que são configurações efêmeras devido ao processo contínuo de subjetivação do constante devir outro125.
Nesse contexto, os processos de subjetivação seriam as variações do exercício dessa experiência de se relacionar com a alteridade do mundo. Segundo Rolnik, no que tange à lógica capitalista, o modo de subjetivação ligado ao campo de forças (sensação/afeto artístico) passa a ser desacreditado e enfraquecido. Diante da esfera de produção acelerada do mercado, as antigas formas se tornam obsoletas e perdem seu sentido e novas formas de existência são inventadas para, temporariamente, trazerem a ideia de pertencimento. É uma experiência de “vertigem permanente” que se organiza segundo o princípio de identidade. Torna-se um processo que afeta a subjetividade de tal modo que é possível compreendê-la como uma “subjetividade cega às forças da alteridade do mundo”. As formas são “fabricadas” e consumidas sem acesso ao campo das sensações. Ou seja, as potências de criação e resistência são desconectadas, impedindo que a potência de resistência situe “por quais configurações de mundo se deve lutar” (ROLNIK, 2002, p. 04). A invenção é instrumentalizada e sequestrada. Recai sobre esse processo um estado de impotência criativa e crítica que reforça uma alienação e uma subjetividade refém.
Trata-se de uma política de subjetivação do (bio)capitalismo, que convoca e mobiliza a força de invenção para produzir e reproduzir formas e comportamentos. Em uma perspectiva foucaultiana, trata-se de uma potência de invenção roubada, sequestrada, domesticada, refém, que, por sua vez, formata e disciplina as experiências de subjetivação.
Tomando como base essas considerações, podemos interpretar que as subjetividades são “capturadas” a serviço da lógica capitalista e atraídas para os “territórios fabricados”, que Rolnik (2002) denomina de territórios de existência homogeneizados. Territórios nos quais,
125 O processo contínuo de força de invenção é “carregado” pela intensidade do devir; nesse caso, sempre um devir-outro, pois não se trata de representação ou composição, mas sim de criação intensiva.
para pertencermos e permanecermos neles, é imprescindível consumirmos. Nesse contexto, situar dentro desse território-padrão-modelo significa pertencer ao território disputado da subjetividade-luxo. E o contrário, estar fora dele, no território da subjetividade-lixo, significa a condição de humilhação, exclusão, miséria.
Retomando Marcel Mauss (2003), poderíamos estabelecer a seguinte relação: o território das subjetividades-luxo, território da “fabricação-padrão”, da representação e dos comportamentos de reprodução e consumo, correspondem ao que Mauss batizou de imitação prestigiosa. Para ele, “os indivíduos imitam aquilo que obtém êxito e que é bem-sucedido em seu entorno cultural” (GOIA, 2010, p. 57). É precisamente deste prestígio, “ato ordenado, autorizado, provado, em relação ao indivíduo imitador, que se verifica todo o elemento social” (MAUSS, 2003, p. 405). Em outras palavras, é desse prestígio que se verifica um saber sujeitado. Em síntese: uma sociedade imita (reproduz) um modelo que obtém êxito e reconhecimento no entorno cultural. Esse modelo – pacotes de subjetivação – é vendido, consumido, como símbolo de reconhecimento, pertencimento e status, fortalecendo eficaz e disfarçadamente uma condição do saber sujeitado126.
“Se esse regime se alimenta da força de criação, é evidente que a arte não escapa dele e, mais do que isso, ela é certamente um de seus principais mananciais. Como fica então a arte nesse cenário?” (ROLNIK, 2002, p. 5). A partir do campo e objeto de estudo desta pesquisa, é possível se questionar também: o que seria o território das subjetividades-luxo e lixo no contexto da FCS e da CDPA? A Cia de Dança, enquanto corpo artístico-institucional, tem utilizado sua potência de criação e resistência para atender a qual território de subjetividade?
Se no começo desse subtítulo o questionamento incidia sobre o que convocamos para conhecer o mundo que nos é apresentado agora, interrogo: o que convocamos para transformar o mundo que nos apresenta? O que mudou no enunciado? Podemos dizer que é a intensidade de deslocamento e a capacidade de transgredir, para lembrar Foucault.
Como dito anteriormente, o campo de forças (sensação/afeto) promove uma experiência de subjetivação do sujeito que o impulsiona a criar e/ou estabelecer novas e outras cartografias do sentido. De acordo com Rolnik, a arte é um laboratório propício para isso. Mas o que pensar da arte na sua interface com a cultura da fetichização, que fortalece determinados padrões estéticos a serem seguidos (“imitados”) e a desconecta da potência de resistência para enfrentar a condução mercadológica do capitalismo? Isso já dissera Theodor Adorno, tantos anos atrás, no mais que debatido tema da “indústria cultural”.
126 Em alguns momentos no texto, o termo sujeitado será substituído por assujeitado por ficar mais próximo do termo em francês usado por Foucault.
Nesse sentido, a arte, em princípio, pode colaborar como um espaço possível para o exercício do sensível nas suas potências de criação e resistência e gerar deslocamentos e reconfigurações na cartografia de existência de um sujeito e/ou grupo. Mas pode também não ser e continuar sendo um laboratório-padrão do exercício do mesmo sensível. Ou seja, do reforço, da subjetivação-luxo, da percepção “fabricada”, do sensível anestesiado. Se considerarmos a arte como possibilidade de mobilizar as potências de criação e resistência que, por sua vez, tornam-se condição de possibilidade de transformar um território-padrão, tem-se um processo de emancipação da subjetivação-refém do sujeito diante à alteridade do mundo. Segundo Rolnik,
A prática artística consiste em atualizar sensações, trazê-las para o visível e o dizível, produzir cartografias de sentido, e que a sensação é a presença viva no corpo das forças da alteridade do mundo que levam ao desmoronamento as formas em vigência da realidade de si e do mundo, podemos afirmar que atualizar essas forças é “socializar sensações”, comunicando a um coletivo as novas composições de forças que o afetam e o fazem derivar para novas configurações (ROLNIK, 2002, p. 11).
Por essas palavras, ressoa a ideia de que a arte incide diretamente nas políticas de subjetivação, promovendo, silenciosamente, um efeito de “contágio”, no seu entorno, que é favorável para ativar experiências sensíveis e de fuga frente à cartografia dominante. Em suma, são práticas que podem promover e estimular uma certa potência “poético-política”, uma outra tessitura sensível da estética, necessária para estremecer a cartografia da realidade de sujeitos e coletivos.
3.3 A institucionalização das narrativas unificadas e o enquadramento da arte: o fim da