Por várias vezes os jovens entrevistados referiram-se à prática da leitura associando-a à leitura oralizada realizada em contexto escolar por solicitação do professor. Segundo Chartier (2009), há marcas históricas que evidenciam a passagem da prática oralizada para uma leitura silenciosa. Isso se deu na longa duração, quando progressivamente ocorreu um distanciamento e uma diferenciação das práticas de leitura tradicionais para práticas de leitura mais próximas das que hoje conhecemos. Chartier (2009) nos mostra que o ensino da leitura, na Europa daquele momento histórico, até por volta do século XIX, apresentava uma separação dual no processo de alfabetização. Primeiro se ensinava a ler e depois a escrever. Para as meninas em idade escolar era dado o direito a aprender a ler, diferentemente dos meninos que podiam, se as condições lhes permitissem, aprender a ler e a escrever.
A prática de leitura oralizada ainda é corriqueira no Ensino Fundamental em virtude de trabalhos didático-pedagógicos quando se pretende desenvolver certas habilidades de oralização com um texto. Entretanto, alguns jovens da Escola A evidenciaram dificuldades quanto à realização dessa prática.
ALUNO 02: Só na escola que eu leio mal. Não sei por que. Em outros lugar
que eu vou ler, leio numa boa. Em casa.
PESQUISADORA: Mas você lê o quê? ALUNO 02: Livro, jornal, tudo, revista.
ALUNO 02: Aí aqui eu vou lê eu gaguejo e quando eu não tô perto dos
outros eu não gaguejo. Não sei por que. [...]
ALUNO 02: É, quando eu leio alto.
PESQUISADORA: Mas, em casa você lê alto? ALUNO 02: Sinal negativo.
PESQUISADORA: Não, e na escola você tem que ler?
ALUNO 02: Não. Quando eu tenho que ler dentro da sala, assim... PESQUISADORA: A pedido do professor?
ALUNO 02: É.
PESQUISADORA: E aí?
ALUNO 02: Fica meio desesperado quando pede: lê Xxxxxx, lê! Ai meu
Deus!
(Entrevista, Escola A, p. 205) Outro aluno afirmou que não lia oralmente na sala, nem quando solicitado pelos professores, pois sentia-se intimidado pelos colegas ou pelo próprio texto.
“Porque na sala de aula eu vô lê, tem muitas pesoa que ri na cara da gente quando a gente gagueja e aí a gente não vai mais querê lê pro professor.”47
A realização da leitura oral em outro contexto social que não o escolar, como forma de tentar compreender o texto também foi apontada pelo Aluno 02, uma vez que, realizando a leitura oral, tinha a possibilidade de prestar mais atenção ao texto e compreendê-lo:
ALUNO 02: Tenho que lê na minha casa. PESQUISADORA: Oralmente?
ALUNO 02: É.
PESQUISADORA: Então você faz a leitura oral. Você faz para poder
treinar… você só lê por causa…
ALUNO 02: Porque se eu não lê alto eu não entendo nada. Eu tenho que
escutar o que que eu tô falando.
(Entrevista, Escola A, p. 207)
Segundo Chartier, 2009, p. 84, “A oralização é necessária a essa
leitura incapaz de dividir corretamente as frases e palavras e de reconhecer a pontuação sintática”. Essa oralização é uma estratégia para que ele possa
compreender o texto.
As situações de leitura oralizada realizadas em sala de aula a pedido de professores não foram relatadas como situações promotoras da leitura, instigantes. Ao contrário de ajudá-los a compreender o texto que estavam lendo, afirmaram se tratar de situações vexatórias, e de exposição ao ridículo frente a certos colegas, tal como no relato:
“Eu leio apenas para mim pois tenho muita vergonha de
ler para as pessoas, e as professoras pedem pra ler para meus colegas, e eles me suam.”48
O trabalho em sala com as práticas de leitura oralizadas deveria possibilitar aos alunos novas formas e possibilidades de vencerem as dificuldades que apresentavam e não aumentá-las, intensificá-las. Em outros enunciados revela-se que, pela dificuldade em relação à pratica da leitura oralizada em sala, eles se posicionam como leitores medianos, pois, segundo os jovens, “É que tem palavras dificio que eu não sei e aí eu gagejo49”; “Pois as
vezes erro a pronuncia de palavras grandes”50. Vimos claramente através do
Aluno 1, na Entrevista, que seu enunciado representava um pedido de ajuda, ajuda esta em relação à realização da prática da leitura oralizada, que, consequentemente, também pode estar atrelada à dificuldade de se realizar a
48 Questionário, Escola A, Aluno 06, p. 251. 49 Questionário, Escola B, Aluno 11, p. 266. 50 Questionário, Escola C, Aluno 19, p. 287.
leitura silenciosa por não compreensão daquilo que se lê. Essa prática pode se revelar impossível ou arriscada para alguns jovens,
quando pressupõe entrar em conflito com os modos de vida, com os valores próprios do grupo ou do lugar em que se vive. A leitura não é uma atividade isolada: ela encontra - ou deixa de encontrar - o seu lugar em um conjunto de atividades dotadas de sentido.” (PETIT, 2009, p. 104)
Ainda sobre essa dificuldade em compreender o que se lê silenciosamente e sobre a necessidade de oralização do escrito, consoante a Chartier (2007b, p.3), a causa pode estar associada ao alfabetismo funcional, ou seja, “pessoas que podem ler, mas apenas certos tipos de textos, e que para
entender o texto devem ouvi-lo, em certo sentido, pronunciando-o ao mesmo tempo.”.
Essa capacidade particular de leitura oral, na sociedade contemporânea, não tem sua realização vista com bons olhos, já que determina, diferencia e qualifica aquele que a pratica, pois, diferentemente da época moderna, compreendida entre os séculos XVI e XVIII; a prática da leitura oral não apresenta a força de um texto, não identifica o sujeito letrado, não é vista como uma forma de sociabilidade; é sim vista como “um dos critérios do
analfabetismo”, um critério de identificação daquele que não apresenta a
capacidade de decifrar as palavras e o sentido do texto somente com os olhos. A prática da leitura oral encontra-se hoje ritualizada e definida a ambientes onde é aceita e realizada com objetivos próprios e definidos institucionalmente: “lê-se em voz alta na igreja, nas aulas da universidade para
ditar conferências, no tribunal para pronunciar sentenças, na escola em situação de aprendizagem” (CHARTIER, 2007b, p.3).
Devemos, ainda, reconhecer que a escola tenta, de alguma forma, por maneiras e procedimentos diversos, desempenhar seu papel no desenvolvimento dessa competência leitora oral. Porém, nem todos os alunos gostam ou sentem-se seguros para realizá-la por inúmeros fatores. Tal fato nos
leva a refletir sobre a preferência por uma leitura silenciosa que apresenta fundamentos históricos, associados à ampliação e incentivo da prática leitora individuail e silenciosa cuja forma de ler naturalizou-se socialmente.
2.3 Representações da história de leitura na vida e na escola: a formação