Na linha 17 do exemplo (35), verificamos um outro sentido expresso pela emissão paralinguística <uhm-hum:>: uma atitude de reprovação. Parece-nos que L2 produz o elemento como um sinal de crítica ao comportamento da vizinha (pessoa de quem falam na conversa), para tanto, ela faz uso, além do elemento paralinguístico, da palavra “bonitinha”, com um sentido pejorativo, o que soou como zombaria ao fato da vizinha manter tantas dívidas sem poder quitá-las. A própria interlocutora parece ter se aproveitado do momento de risos em que se encontravam para escarnecer do acontecido. Na linha 21, aparece outra ocorrência desse elemento, desta vez isolado em uma intervenção do ouvinte (L2) na conversa. Esta segunda manifestação também parece projetar uma atitude de reprovação em relação ao que foi dito. Vejamos que neste exemplo, o elemento paralinguístico não vem acompanhado de informação linguística, todavia explicita a intenção de L2 - demonstrar sua atitude em relação ao tópico e a pessoa de quem falavam. A informação adicional que esse elemento confere ao trecho conversacional é compreendida pelos interlocutores envolvidos na enunciação, o que ratifica a idéia postulada por Fujie et al. (2004, p.387): “In an actual spoken dialogue [...] we do not express our intention and attitudes explicitly in words. Nevertheless, hearers can recognize our intention through our voice expressions [...]50”.
A diferença de sentido entre as três emissões parece ser percebida não apenas pelo contexto, mas também pelo tempo de produção concedido nas emissões. A ocorrência da linha 25 é nitidamente mais breve que as das linhas17 e 21. A primeira tem uma duração de 507 ms, enquanto as últimas têm 707 ms e 1.565 s, respectivamente. Em nosso entendimento,
50 “No discurso falado nós não expressamos nossas intenções e atitudes explicitamente com palavras. Não
obstante, os ouvintes são capazes de reconhecer nossa intenção por meio de expressões vocais”. (Fulie et al. 2004, p. 387, tradução nossa)
a duração, nesse caso, é uma das propriedades que promovem a modificação de sentido entre as emissões do elemento <uhm-hum:> no excerto de fala exemplificado.
Identificamos dois outros elementos cujo sentido de reprovação foi realçado em alguns trechos conversacionais. Vejamos o exemplo a seguir:
Exemplo 37. Os interactantes comentam sobre os estilos de vida de L1 e da sogra de L2.
Nesse exemplo, linha 09, o elemento paralinguístico recebe uma impressão ofensiva do falante ao referir-se ao modo de vida da mãe, com a qual ele demonstrou não concordar. O tom de voz51 rude, em conjunto com as variações de entoação usadas pelo falante na emissão desse elemento paralinguístico, manifestaram reprovação em relação ao ponto de vista de L1. O falante parece ter carregado o elemento com uma expressão ofensiva na tentativa de reprovar a opinião de L1 sobre seu modo de vida e mostrar-lhe que cada pessoa tem o direito
51 Conforme Silva (2000) o falante faz uso desses traços articulatórios, conhecidos pelos usuários da língua como
tom de voz, para expressar significados específicos em sua língua. Para Campbell (op. cit.), além das pistas prosódicas, o falante também faz uso do tom de voz para expressar informações paralinguísticas.
L1: /.../ ela tem qui procurá um tratamentu CER::tu negóciu dela ficá assim beben::du brincandu fuman::du (+) issu A genti num leva nada da vida assim ela tem qui procurá pu/ (+) otra vida si TRATÁ: (+) ficá na dela ela já tem u quê ela já tem idadi /.../
L2: a genti conversa cum ela genti procura (+) é:: chamá atençãu dela quantA issu mas ela nu num dá papu (+) ela pensa quela é certa
[
L1: você vê a minha a minha divé/ eu sô uma pessoa queu num tenhu assim:: (+) diversãu nenhuma minha diversãu é única é tá na minha casa /.../
L2: <AH> mãi mas aí cada pessoa tem sua iscolha de di vida né? a sinhora a sinhora preferi
[
isso (+) a sinhora preferi (+) é (+) si iscluí fica dentru di casa (+) num conversá cum ninguém só serví u papai us filhus (+) i eticetera eticetera i tal /.../
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 L2: é L1: é?
de viver como bem lhe aprouver. Observemos que a presença desse marcador discursivo serve para instaurar um momento de divergência entre as falas de L1 e L2. Para Campbell (2002b, 2003), em situações conversacionais desse tipo - mais pessoais - é comum os falantes sinalizarem variados significados por meio do tom de voz, especialmente em casos como esse em que modificam o sentido de elementos paralinguísticos por meio desse parâmetro articulatório.
Vejamos o exemplo (38):
Exemplo 38. L1 e L2 comentam sobre a briga da vizinha com um cobrador.
L1: /.../ ela falandu pra genti nu dia quela foi na delegacia disqui u delegadu ficô a favô dela mas eu num sei si issi é verdadi nãu
L2: mas quandu
L1: pois é (+) ca/ é ladrona L2: é ladra
L1: a j. num ti/tinha ti contadu nãu? L2: nãu ESSI BABADU
L1: <ah> mas porque tu foi foi essi/ pertu da eleiçãu antis daquela eleiçãu [
L1: <uhm> i a lica gritava aí na frenti in cima eu vô ti [
L1: num tava aí nãu L2: <an?>
L1: eu vô ti dá seu tivessi aqui tinha dadu só na tua cara seu mulequi safadu tu ia vê L2: <an-han>
L1: (+) i foi chama u seu belu L2: ☺ ☺
L1: ☺ nãu u qui a genti mais riu
L2: ☺ ela ia batê neli? (+) u homi ia apanhá dela? ☺
L1: nãu u pobi ficô caladu cum medu di perde u impregu né? (+) queli fossi um DOIDU? si fossi um doidu tinha mandadu (+) tinha dadu (+) era porrada (+) pois é ela
[
mesmu diz vendi quem mi qué purque pagá num sei seu pagu
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 L2: égua eu perdi (+) fez
um iscândalu aí na frenti?
L2: i u maridu dela?
Na linha 12, <uhm> foi produzido com uma curva entoacional mais ascendente, de modo que sua emissão pareceu, perceptualmente, mais enfática. O que o ouvinte pode perceber nesse caso, é que o interlocutor (L1) expressou não apenas uma reprovação, mas também procurou reforçar a notícia de que o acontecido foi realmente um escândalo na rua, ao qual L2 deveria ter presenciado. O interessante sobre esse elemento é que L1 o usou como uma resposta ao pedido de confirmação de L2, que queria saber se a discussão havia ocorrido em plena rua. Assim, como resposta, além de confirmar que o caso ocorreu publicamente, L1 parece ter aguçado a curiosidade de seu parceiro, permitindo assim que a conversa continuasse. Já na linha 35, a emissão do elemento foi menos enfatizada, todavia, ambas parecem carrear o mesmo efeito de sentido: uma reprovação.
Outro elemento sinalizando um sentido de reprovação foi identificado no corpus alvo deste trabalho:
L1: <hu>
L2: só tinha sapatu di cem reais in dianti (+) eu vô dá (+) pra mi devê (+) sabi u qui eu fiz?
[
L2: num comprei L1: pió
L2: TU TÁ DOIDA QUEU T/ eu tô maluca L1: pagá u sapatu dus otru <heim>
L2: <uhm> tá (+) sô mané mesmu /.../
27 28 29 30 31 32 33 34 35 L1: <hu>
Exemplo 39. Os interactantes comentam sobre as dívidas de L1.
Identificamos no trecho conversacional do exemplo (39) uma realização do elemento
<hum> expressando reprovação em relação ao comportamento do outro. Nessa emissão,
percebemos que a altura da voz empregada pelo falante contribui para o seu realce emotivo na cadeia da fala.