Picchi (1993) e Silva (1995) destacam quatro pontos principais na avaliação da qualidade do projeto. São eles:
► identificação das necessidades e elaboração do programa;
► qualidade técnica das soluções projetuais;
► qualidade do processo de elaboração do projeto;
► qualidade da apresentação do projeto.
É possível perceber-se quão difícil é dissociar-se o caráter de processo do projeto, quando se trata de qualidade.
Segundo Melhado (1999) para garantir o atendimento aos múltiplos aspectos componentes da qualidade do projeto, o processo deve ser criticamente analisado pelos seus participantes e validado pelos empreendedores, projetistas e construtores de forma a garantir sua coerência com as metas propostas e com o processo de execução subseqüente.
O mesmo autor afirma, ainda, que a partir de uma visão fundamentada na gestão da qualidade, o projeto de edifícios pode ser compreendido como um processo que, a partir de dados de entrada, deve apresentar soluções que respondam satisfatoriamente às necessidades dos clientes, aos quais o edifício se destina.
Para tanto tais necessidades devem ser traduzidas em parâmetros de entrada, e os dados de saída devem contemplar soluções para o produto e para sua produção.
As necessidades dos clientes podem ser traduzidas em parâmetros que integram os dados de entrada do processo de projeto.
Os dados de saída devem contemplar soluções para o produto a ser edificado
e para sua produção, “[...] alinhadas com as informações de entrada”. (Melhado e
Oliveira, 2006).
FIGURA 5 – O processo de projeto segundo a ótica da gestão da qualidade6.
Da mesma forma, Slack et al (1999) ao definirem como objetivo principal da atividade de projeto, a satisfação das necessidades dos consumidores, explicitam a importância do processo de transformação nesta atividade que começa “[...] com um
conceito e termina na tradução deste conceito em uma especificação de algo que pode ser produzido”.
Inicialmente é considerada a qualidade do programa de necessidades do empreendimento (ou briefing), que considera a qualidade dos dados de entrada, dados estes, que irão dar suporte a todo o processo projetual e servirão de base para o mesmo. O programa deve ser desenvolvido de tal forma que garanta que os requisitos de entrada, que traduzem as expectativas e necessidades dos clientes, sejam efetivamente captados e desdobrados em características técnicas e parâmetros projetuais.
O tópico “qualidade das soluções projetuais” inclui aspectos que vão desde o atendimento ao programa definido e o seu desempenho frente à segurança, à habitabilidade, à durabilidade, à sustentabilidade, à construtibilidade e aos custos relativos a tais aspectos. Tal componente torna-se bastante relevante, vez que, na medida em que se tem um produto de qualidade aliado a um processo eficiente, é atendido o quesito mais importante, qual seja, a satisfação das necessidades dos clientes quanto à qualidade e ao desempenho funcional.
O segundo componente vai de encontro aos conceitos da engenharia
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simultânea e seu papel de grande integrador entre os produtos e os processos, [...] utilizando uma metodologia para o desenvolvimento de projetos que propõe a realização de muitos processos pertencentes ao ciclo de vida de forma simultânea (paralela), usando um time de projeto multidisciplinar e dinâmico e ferramentas automatizadas para a realização dos processos componentes [num ambiente onde] engenheiros de produção são deslocados para trabalhar com os engenheiros do produto em equipes multidisciplinares, propiciando um bom desempenho tecnológico, e menores prazos na elaboração de projetos. (COSTA, 1994 e SOUZA, 1996 apud CORREA, 2006)
A qualidade da apresentação dos projetos é, também, outro fator de relevância no papel que o projeto desenvolve enquanto instrumento de trabalho.
A prática confirma estar o projeto associado à forma como é interpretado pela equipe de produção, sendo de grande importância a clareza das especificações e a qualidade da apresentação gráfica, para melhor comunicação das soluções projetadas. De nada adianta o projeto ser possuidor de boas técnicas construtivas se estas não forem comunicadas de forma inteligível ao pessoal da execução. (NASCIMENTO; FORMOSO, 1998.)
O quarto componente da qualidade do projeto diz respeito à qualidade dos serviços associados ao projeto, ou seja, à gestão dos processos de projeto. O projeto não pode ser entendido somente como uma entrega de desenhos e memoriais, mas sim como resultado de atividades coordenadas através de etapas claramente definidas. “Projetar torna-se um ato coletivo”.
Mais uma vez é salientada a dimensão de “prestação de serviço”, que integra a atividade de projeto. De acordo com Melhado et al (2004) este tipo de prestação de serviço, de natureza intelectual, deve estar orientado não apenas para o cliente- contratante, mas também para os clientes-usuários e ainda para todos os clientes internos. A qualidade do projeto depende da qualidade das etapas intermediárias de sua execução.
Para Melhado e Oliveira (2006) a qualidade no processo de projeto envolve um conjunto de ações de gestão, tais como: qualificação de projetistas, contratação de consultores, desenvolvimento de metodologia de projeto, padronização e atualização de procedimentos de execução e controle dos serviços, gerenciamento da execução e coleta, e análise de dados para a retroalimentação do projeto.
irão compor a qualidade do projeto.
QUADRO 1 – Componentes da qualidade do projeto7.
Nesse sentido, vale ressaltar a afirmação de Bertezini (2006):
Sabe-se que as empresas de arquitetura têm enfrentado diversas dificuldades em avaliar seus processos de projeto e seus produtos e serviços, resultado da ineficácia dos métodos de retroalimentação e de identificação das informações relevantes e essenciais para o
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Fonte: Baseado em ISO-DP 6241; Picchi (1993); CTE (1997); Weinstock; Weinstock (2000); Fontenelle (2002).
desenvolvimento dos projetos; falta de capacitação dos projetistas (técnica, gerencial e operacional); ineficiência dos métodos de coordenação de projetos; falta de diretrizes, normas e manuais para balizarem os trabalhos; ausência de banco de dados com informações confiáveis; falta de critérios para avaliação dos projetos; entre outros. (BERTEZINI, 2006)
Diante deste fato torna-se essencial o controle e monitoramento do processo de projeto.
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1. Gestão do processo de projeto
A gestão de um processo consiste na atividade de organizar as partes mantendo a unidade do conjunto e visando a finalidade do processo envolvido.
Do ponto de vista conceitual, segundo a ABNT (2000a), a gestão do processo pode ser definida como: “[...] atividades coordenadas para dirigir e controlar uma
organização”.
Segundo Melhado (1994) o processo de projeto se dá através da sucessão de diferentes etapas, quando a liberdade de decisões entre alternativas vai sendo substituída pelo amadurecimento e desenvolvimento das soluções adotadas.
No entender de Fabrício (2002):
[...] o processo de projeto envolve todas as decisões e formulações que visam subsidiar a criação e a produção de um empreendimento, indo da montagem da operação imobiliária, passando pela formulação do programa de necessidades e do projeto do produto até o desenvolvimento da produção, o projeto as built a avaliação da satisfação dos usuários com o produto. (FABRÍCIO, 2002)
Melhado (2004) também afirma que o processo de projeto envolve um conjunto de ações relacionadas com o planejamento, com a organização, com a direção e com o controle do processo, com a finalidade de garantir a qualidade do produto-serviço oferecido.
Melhado e Oliveira (2006) definem processo de projeto como uma atividade ou serviço integrante do processo de construção, responsável pelo desenvolvimento, organização, registro e transmissão das características físicas e tecnológicas especificadas para uma obra, a serem consideradas na fase de execução e, também, como informações necessárias para subsidiar os processos efetivamente operacionais, incluindo-se os fluxos de materiais e de informações na obra.
Trata-se de:
[...] um processo composto por um grande número de outros processos sob a responsabilidade de diversos agentes-projetistas de várias especialidades, promotores de empreendimentos, executores de obras e usuários finais dos bens a serem produzidos. (SILVA; SOUZA, 2003 apud ROMANO, 2006)
Conforme Naveiro (2001) o processo de projeto de edificações deve ser entendido como um processo coletivo de construção de um artefato, no qual o resultado final é maior que a soma ou síntese das contribuições individuais dos participantes, sendo viabilizado pela organização que o sustenta, onde os principais problemas envolvidos são: criar um ambiente para o trabalho intelectual cooperativo; gerenciar e controlar o estado da informação; compartilhar informação de conteúdo adequado e no tempo correto, etc.
Para Grary e Al-Bizri (2004), citados por Ferreira e Salgado (2006), o processo de projeto é um processo de transformação da informação em ação. Cada decisão do projeto é tomada em conseqüência de uma interação entre o conhecimento do projetista e a informação que recebeu sobre o problema específico de outros projetistas no mesmo domínio, de outros domínios envolvidos no processo do projeto, do cliente, de autoridades regulamentadoras, de grupos de usuários de edifício, etc.
Segundo Romano (2006) o conceito de processo de projeto deve permear todo o processo construtivo de uma edificação, iniciando-se no planejamento, passando pela elaboração dos projetos do produto e dos projetos para produção, pela preparação para execução, pela execução, e estendendo-se até o uso.
Oliveira (2001), utiliza o termo “projetação” para se referir ao projeto em ação ou sendo desenvolvido, considerando-se as suas interfaces e inter-relações, ou seja, o projeto dentro de um contexto dinâmico.
Romano (2006) que adota o termo “projetação” e não “projeto” em seu trabalho como forma de diferenciação entre a atividade e o produto da mesma e sugere que o processo de projeto seja dividido em três macrofases, conforme a Figura 6, a seguir apresentada.
FIGURA 6 – O processo de projeto de edificações8.
A fase de pré-projetação corresponde à fase de planejamento do empreendimento. Posteriormente, a fase de projetação envolve a elaboração dos projetos do produto - incluindo-se aí o projeto arquitetônico e os projetos complementares -, e dos projetos para produção como, por exemplo, projeto de formas, de alvenaria, de impermeabilização e de canteiro de obras.
A fase de projetação pode ser ainda decomposta em subfases, que recebem a seguinte conceituação: “projeto informacional”, “projeto conceitual”, “projeto preliminar”, “projeto legal” e “projeto detalhado e projetos para produção”.
A terceira e última macrofase é a da pós-projetação, que envolve o acompanhamento da construção da edificação e o acompanhamento do uso. Os resultados desta macrofase incluem a retroalimentação do processo a partir de avaliações realizadas durante a obra e avaliações de satisfação pós-ocupação.
Desde o início de 1997, por meio de uma ação cooperativa entre entidades do setor de projetos e entidades representativas de empresas contratantes de projeto, foi iniciado o Programa de Gestão da Qualidade no Desenvolvimento de Projeto na Construção Civil, coordenado pelo Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), que teve o intuito de desenvolver uma metodologia específica de gestão da qualidade para as empresas de projeto.
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A partir desse trabalho foi desenvolvido o fluxo de atividades de desenvolvimento técnico que, por sua vez, foi dividido em sete etapas.
A Etapa I trata do planejamento do empreendimento visando constatar, entre outras coisas, a viabilidade do produto a ser desenvolvido. Na Etapa II é realizada a concepção do produto e sua caracterização. Na Etapa III o produto é desenvolvido através de cinco subetapas: anteprojeto, projeto legal, projeto pré-executivo, projeto executivo e projeto para produção. A Etapa IV, o projeto “as built” é desenvolvido. A Etapa V envolve a avaliação da satisfação do cliente final.
Alguns aspectos desse modelo são ilustrados na Figura 7 abaixo.
FIGURA 7 – Fluxo geral de etapas do desenvolvimento de projeto (adaptado de CTE, 1998)9.
Para que o processo de projeto possa se desenvolver de forma integrada e simultânea é preciso estabelecer uma seqüência de atividades, que permita que projetos distintos relacionados a outras especialidades sejam tratados e resolvidos de forma paralela. Mais uma vez é possível perceber-se que o conceito da Engenharia Simultânea vem de encontro aos conceitos aplicados durante o processo projetual.
O processo de projeto continua sendo dividido em etapas. Entretanto, estas etapas podem ser subdivididas em atividades para cada especialidade de projeto.
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Esta subdivisão, segundo Fabrício, Melhado e Baia (1998), tem como objetivo permitir que informações determinadas por algumas atividades de uma dada especialidade estejam disponíveis para ser utilizadas e criticadas por outras especialidades de projeto, sem que toda a etapa de outra especialidade esteja definida.
Nos últimos anos, o processo de projeto vem se caracterizando pelo aumento no número de especialidades de projetos e, conseqüentemente, no número de intervenientes que participam de seu desenvolvimento.
Segundo Melhado (2004) as razões para tal fato são: introdução de inovações tecnológicas em produtos, componentes, métodos e sistemas construtivos. Esta mudança intensifica ainda mais o caráter multidisciplinar da atividade projetual.
A Figura 8, apresentada a seguir, ilustra os arranjos das equipes de projeto, segundo a forma tradicional e segundo o conceito de equipes multidisciplinares. No novo arranjo, o processo de projeto não é compreendido apenas como o desenvolvimento exclusivo e independente de suas partes.
Como afirma Melhado (2004) estas partes devem ser conduzidas de maneira profunda e interativa, buscando a reciprocidade entre as disciplinas envolvidas e a convergência dos produtos e serviços em torno dos objetivos do cliente.
O arranjo tradicional, que se baseia num desenvolvimento seqüencial das etapas do processo projetual, apresenta uma série de deficiências que repercutem de forma negativa na qualidade dos produtos gerados e na eficiência da construção.
O arquiteto trabalha só. Após o término do projeto de arquitetura, o calculista inicia o seu projeto estrutural, que será parcialmente desenvolvido concomitantemente com o projeto de instalações. O projeto de instalações sempre termina após o projeto estrutural. (ENCOL, 1990 apud CORREA, 2006)
Segundo Correa (2006):
[...] procurar ganhar tempo na fase dos projetos, prejudicando os necessários debates técnicos entre projetistas, contribui, também para a insuficiência do detalhamento necessário, [o que poderá impactar no prazo global do empreendimento, além de resultar em projetos] com muitos problemas de interação que vão refletir negativamente no custo, prazo, qualidade e imagem da empresa junto ao cliente. (CORREA, 2006)
FIGURA 8 – Os arranjos das equipes de projeto: tradicional e multidisciplinar10.
Os conceitos embutidos na Engenharia Simultânea trazem muitos benefícios ao processo de projeto, a partir do momento em que seus objetivos são:
[...] permitir a redução do tempo de desenvolvimento de novos projetos visando ao lançamento, anteriormente à concorrência, de novas tecnologias, produtos e serviços, [...] a ampliação da competitividade da empresa, pela maior agilidade na geração de projetos e uma flexibilidade produtiva que permitam o ágil atendimento a novas demandas de mercado – tempo de mercado. (FABRÍCIO, 2002)
Além disso, segundo Huovila, Koskela e Lautanala (1997), deve também satisfazer das necessidades dos clientes num processo de avaliação contínua.
Segundo Melhado (2004) a condução simultânea dos trabalhos, em substituição ao desenvolvimento seqüencial de projetos, considerando-se o conjunto das especialidades envolvidas, é uma tendência.
A integração antecipada dos membros da equipe de projeto durante o estudo preliminar e anteprojeto mostra-se potencialmente benéfica para o desenvolvimento do projeto, já que o custo e a facilidade de efetuar mudanças nos projetos decrescem à medida que as informações são detalhadas.
O Quadro 2, a seguir apresentado, mostra as etapas do processo de projeto, seus respectivos produtos e elementos.
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QUADRO 2 – Etapas do processo de projeto, seus respectivos produtos e elementos11.
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