• No results found

State of the art on the scaling of fault core thickness and displacement

1. Introduction

1.5. State of the art on the scaling of fault core thickness and displacement

Este conceito emerge da necessidade de estudar as práticas da elite que se eleva como construtora de uma história cujo enredo é linear, com início, meio e fim perfeitos, sem retrocessos, resistências ou rupturas, portanto, harmônica. Ao que parece, era importante apresentar ao povo um movimento de liderança política impecável, capaz de cuidar da sociedade sem nenhum tipo de comprometimento ético das suas ações para a consecução dos objetivos visados e, menos ainda, de desacordos entre os seus componentes. As evidências podem ser demonstradas pelo exame dos discursos que validam os expedientes empregados para atingirem seus objetivos, sempre em nome do progresso e do bem-estar da sociedade.

A tática discursiva conciliadora, proposta pelo autor desta tese no decorrer da pesquisa, é aquela que focaliza o recurso da elite política mandatária no nível dos seus discursos, para promover ajustes explicativos de suas ações, cujos lastreamentos nem sempre são perceptíveis à luz dos documentos, nem sempre se revelam, ficando fragilizados ou reduzidos, de fato, aos discursos, uma vez que utilizam o progresso como símbolo de um tempo em que os desentendimentos e as lutas de representação tanto entre os médicos quanto

de outros setores da sociedade não terão sentido, uma vez que foram, a exemplo de expedientes de conciliação contábil de contas a pagar e a receber, tudo pronto para um novo momento, o recomeço de novas movimentos no interior da sociedade, sem nenhuma pendência a ser resolvida. Noutras palavras, um pacto no nível simbólico para camuflar as lutas de interesses, portanto, as lutas de representações dentro dos grupos.

À semelhança dos processos contábeis, conhecidos como conciliação, que, “consiste na verificação das contas, se a movimentação apresentada está de acordo com atos e fatos contábeis”(Ribeiro, 1997, p.156), cria-se um mecanismo de fazer relativo acerto de contas das ações encetadas que, invariavelmente, tem suas repercussões no corpo da sociedade para que seja fechado um exercício e se inicie outro, sem nenhum resquício de pequenas ou grandes lacunas irremediáveis devido a fatores que não são percebidos ou que simplesmente são ignorados, menosprezados.

Essa tática discursiva conciliadora ajusta e acerta quaisquer dissonâncias sociais e, impondo um ponto final ao que é, por natureza ou circunstância, inconcluso, passando um traço sob as incongruências entre os grandes ideais propagados e as práticas pouco harmonizadas com tais aspirações, gerando desse movimento uma representação de harmonia e ausência de conflitos ou descompassos entre grupos sociais ou no interior deles.

A conciliação pressupõe a comparação entre lançamentos em contas debitadas e creditadas, assim como a verificação de eventuais desvios nesses procedimentos. Politicamente essa representação concilia no nível do discurso os embates entre subgrupos da sociedade, forçando a relativização dos desentendimentos e desarmonias para que o objetivo maior seja conquistado e para que o povo tenha no seu imaginário a impressão de que os líderes marcham no mesmo compasso. Assim, por este mecanismo, apresenta-se para a sociedade, por meio do discurso, um novo momento em que não há dissonâncias, todos estão absolutamente alinhados, não havendo ressalvas. Esse quadro reforça a imagem do grupo mandatário na sociedade, confirmando que este foi eficiente o bastante para não deixar nenhuma pendência para outros grupos ou períodos subsequentes.

A tática discursiva conciliadora pensada nesta pesquisa pressupõe a existência de interesses antagônicos presentes nos grupos que se aglutinam para exercer a liderança social e cria a pseudoimagem de uma coesão que transmite à sociedade uma pretensa segurança, como

se não acontecessem os jogos de poder presente no interior desses grupos que formavam a elite local. Mais do que isso, esconde eventuais comprometimentos, sobretudo, políticos e de troca de favores, a que a sociedade fica atrelada exatamente pelas decisões tomadas pelas suas lideranças. Portanto, representar que não há contas sociais a serem pagas e que tudo o que tenha sido feito pelos grupos dirigentes não onera esta sociedade é fundamental para que os que exercem o poder continuem suas atividades e preservem seu prestígio na sociedade.

Os resultados das atividades desses grupos da elite que decidem pela sociedade são apresentados somente em termos de resultados ou benefícios comunitários, como exemplo, a o oferecimento de atendimento à saúde, porém não demonstram o pesado ônus que esta mesma sociedade paga pelo comprometimento do patrimônio público tais como concessões à revelia dessa mesma coletividade. Desta forma, torna-se fundamental que se apresente apenas as sinalizações de que os benefícios serão oferecidos e que tudo foi feito por exclusiva motivação de promover o progresso, colocar a sociedade abordada em um patamar mais elevado. E quanto custa para a sociedade no longo prazo não entra na esfera das considerações explicitadas porque objetivo central é construir uma cidade à frente do seu tempo, progressista e moderna.

Absoluta e somente não há contas a pagar por parte da sociedade, somente louvar suas lideranças e usufruir dos benefícios que o progresso trouxe ou trará, é esse o papel da tática discursiva conciliadora. Está tudo, nos discursos, conciliado e na criatividade contabilística simbólica do poder absolutamente equilibrada.

“Esta teatralização da vida social”, como diria Roger Chartier (2002, p.21),“tem em vista fazer com que a identidade do ser não seja outra coisa senão a aparência da representação, isto é, que a coisa não exista a não ser no signo que a exibe. Os discursos que apresentam o projeto de criação da Escola de Medicina e Cirurgia de Uberlândia, em que a sociedade não tem dívidas e emaranhamentos políticos que possam comprometer seu futuro, suas gerações vindouras e que entre seus grupos internos reina a plena conciliação passa a ser a imagem que a coletividade introjetará e repassará aos que, por nascimento ou migração, se juntarão a ela. Simbolicamente conciliada, está pronta para marchar para o progresso e ocupar o lugar que lhe cabe em um cenário maior, obviamente, sob a regência daqueles que a conduziram, como espelha a representação, sem gerar quaisquer desordens em suas contas sociais.

Essa nova distensão do conceito de representação coletiva nasce do estranhamento que os discursos da elite uberlandense em relação aos seus esforços em fundar uma escola de medicina na cidade geraram durante esta pesquisa. A inequívoca troca de favores entre grupos e os endividamentos gerados por esses acertos situacionais não seriam bem recebidos pela sociedade, portanto, criar uma imagem que desviasse qualquer olhar curioso da possibilidade de identificar esses ônus foi um recurso. Assim, concilia-se tudo sob o signo e o denominador comum de que o importante é que a localidade, injustiçada pelos dirigentes nacionais e sem ocupar lugar no mapa do reconhecimento nacional, avance unida pelo caminho redentor traçado pelas elites visionárias de um futuro esplendoroso, e melhor ainda, sem contas pendentes, sem contradições entre os vários grupos que a compõe.

Uma sociedade sem arranjos, combinações ou permutações habita o plano do imaginário coletivo, por isso, torna-se facilitada a tarefa de representar as atividades e expedientes das elites nesse cenário em que o devotamento desinteressado à causa pública é utilizado à semelhança do toque de Midas, transformando todas as conquistas para a sociedade em evidências do poder das lideranças que, imbuída dos seus ideais, atua sem gerar pendências a serem honradas pelo coletivo.

Até este ponto estão apresentadas as razões que levaram à escolha do tema, a delimitação das questões que serão objeto de estudo, a forma como se dará o desenvolvimento da pesquisa, quais hipóteses serão investigadas e as fontes que servirão de norte para a construção da tese. Estão apresentados os elementos teóricos para a fundamentação metodológica, elucidando os conceitos e pressupostos presentes no arcabouço deste trabalho.

2 UM POUCO DA HISTÓRIA DO ENSINO MÉDICO-