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A semiosis of movement data for design

Chapter 2 Movement as a material for design

2.5 A semiosis of movement data for design

Yerma, tomada por obsessão e desespero, resolve ir a uma famosa romaria. A romaria da peça é movida por dois tipos de desejos, como descrevem os próprios personagens da peça: para pedir filhos, como o caso da protagonista, mas também pelas coisas ―terríveis‖ que acontecem. As lavadeiras, mais uma vez com a função de dar voz aos comentários do povo, dizem que a crescente procura da romaria por mulheres que buscam o milagre de engravidar passou a atrair muitos homens à romaria, e com isso muitos problemas. ―No ano anterior dois homens se mataram por uma casada‖, diz uma das lavadeiras. A romaria, que deveria ter função unicamente religiosa e social, passa a ter um forte apelo sexual, e é por esse motivo que ela passa a ser mais conhecida.

A cena da romaria é o auge da peça, e certamente o mais recriminado pelos setores conservadores da sociedade, pois uma cena que deveria trazer lições morais cristãs e a redenção à protagonista, na verdade é carregada de símbolos pagãos, sensualidade, e termina com um ato de desobediência civil de Yerma. O clima da romaria é descrito pelas lavadeiras, que contam que uns homens passaram a mão nos seios da irmã de uma delas, que há tonéis de vinho próximos e que um rio de homens solteiros desce para perto da romaria, certamente em busca de mulheres ávidas por engravidar.

A romaria de Yerma é, claramente, uma fusão de uma das romarias mais tradicionais da Andaluzia, a romaria de ―Cristo delPaño‖, com ritos dionisíacos. Muito antes da época de Lorca, já acontecia, todo dia 5 de outubro, na cidade de Moclin, a cerca de 30 quilômetros de Granada, a romaria que certamente foi a que inspirou o

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autor40, e até hoje segue sendo muito popular na Espanha. No ano de 1979, o jornal ―El País‖ publicou uma matéria intitulada ―La romería de Moclín, inspiradora del Yerma de Lorca – um ayuntamiento de izquierdas continúa la tradición‖41, em que podemos

perceber os elementos do ritual que inspiraram o escritor e o fenômeno curioso de, atualmente, a fama da romaria de ―Cristo delPaño‖ se dever mais por ser parte da obra de Lorca do que pelos milagres atribuídos a ela. À romaria, que atualmente também é conhecida como a ―romaria de Yerma‖, são atribuídos milagres realizados pelo ―pano com a imagem de Jesus com uma cruz nas costas‖, e, em especial, o milagre de curar a esterilidade feminina.

Porém, junto com a fama milagrosa da romaria, vêm histórias que contam que, na verdade, as mulheres seriam fecundadas em virtude de razões muito mais naturais do que espirituais, relacionadas à presença de homens solteiros e aos acampamentos ao ar livre em volta da romaria. Relata o jornal ―El Pais‖:

―sobre a romaria de Moclín, muito foi escrito, e mais ainda estudado, tanto a favor quanto contra, se bem que muitos dos argumentos atualmente usados com maior assiduidade e empenho por seus difamadores não têm fundamento histórico ou real. Assim, ainda que ninguém consiga explicar de fato como chegou a transcender a questão sexual sobre os vários tipos de milagres atribuídos à tradição do Cristo delPaño, o fato é que seu caráter teórico de panaceia e remédio sobrenatural para a esterilidade feminina resulta, ainda hoje, em um dos pontos sobre os quais mais se olha, de forma exagerada, para o vilarejo e sua romaria outonal‖42.

A questão sexual, como mostra o jornal, é tão popular quanto a própria romaria, não sendo essa relação uma invenção da dramaturgia lorquiana. Certamente, um dos pontos que mais irritou os setores conservadores da sociedade com relação à

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Tal ideia está expressa no livro do irmão Federico y su mundo, de Francisco Garcia Lorca, irmão do poeta.

41http://www.elpais.com/articulo/sociedad/GARCiA_LORCA/_FEDERICO/GRANADA/ESPAnA/romer

ia/Moclin/inspiradora/Yerma/Lorca/elpepisoc/19791009elpepisoc_8/Tes/ 42 Idem, 1979.

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cena da romaria era a carga de sensualidade atribuída a este trecho da obra, afinal, a cena remete a um acontecimento real, ampliando ainda mais a fama que o rito possuía.

O baile final da romaria tem forte semelhança com as danças do norte da Espanha, mas o caráter erótico da dança foi acentuado pelo dramaturgo. É tão forte a relação da cena final com os cultos dionisíacos, pelo uso de máscaras, com a presença do macho e da fêmea e do símbolo fálico e cósmico do chifre de touro, que é impossível não relacionar a cena com a obra As Bacantes. O Deus invocado é o Deus (homem) da fecundidade, mas o chamado é feito por mulheres e tonéis de vinho. O cristianismo presente na romaria real, no final da cena, dá espaço para o rito grego, pois só dessa maneira seria possível chegar ao ápice da tragédia, outro ritual grego. Os ritos católicos certamente são ricos de dramaticidade, e foram as primeiras experiências teatrais de Lorca43, mas o trágico não encontra espaço na Igreja Católica, pois só há um destino — escrito pela crença na vontade de um Deus único, que não se relaciona com o homem ou com outros deuses para jogar.

É em meio ao ar turvo, impregnado pelo som das orações e pelo sabor dos vinhos, que Yerma se encontra pela última vez com João. Yerma vai à romaria, sem a permissão do marido, para buscar o milagre de engravidar, pois para ela, suas rezas não estavam sendo ouvidas; mas João a segue e eles se encontram, ambos embriagados; ele pela bebida, e ela pelo ódio que ao longo da peça foi sendo alimentado pela frustração e pela fama de estéril recebida pela protagonista. No diálogo que o casal trava na cena final, quanto mais o marido fala, mais Yerma se enche de fúria, pois João expõe, pela última vez, que quer que sua esposa se resigne a não ter filhos. Talvez, o que mais enfureça Yerma seja o fato de o marido não se importar com a ausência de filhos.

43 Refiro-me aos relatos das brincadeiras de criança de Lorca. No livro Mujeres de García Lorca, as

empregadas e primas do escritor contam que Federico brincava de teatro nos quais encenava missas onde ele era o padre.

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João diz a Yerma, sobre sua postura com relação aos filhos: ―não me interessam. Já não era sem tempo que eu dissesse isso. Só me interessa o que tenho nas mãos. O que vejo com meus olhos‖. João representa um homem da Espanha rural, que vê o mundo como aquilo que ele pode cultivar e trabalhar com suas próprias mãos, na terra onde ele pode plantar e ver crescer para colher.

Lorca tem a intenção de criticar o matrimônio em sua obra. Para Yerma, o casamento era uma condição para a maternidade. Quando ela se depara com o fato de não poder ser mãe, tanto o casamento quanto o marido perdem o sentido. Para João, o casamento era parte natural da vida de um homem honrado, uma obrigação social, não importando se o matrimônio geraria ou não filhos. Assim, para ambos o casamento era um meio para atingir um fim, mas este não era a felicidade do cônjuge.

Essa é a crítica final de Lorca sobre os matrimônios, a submissão da vontade de um em prol dos desejos do outro, uma relação onde a força é exercida por apenas um dos lados, numa batalha que busca a morte da vontade de um, e não um jogo onde os desejos se intercalam.

Yerma (excitada): Ah, é por isso? Queria a casa, a tranquilidade e uma mulher. Nada mais.

Não é verdade?

João: É verdade. Como todos.

Yerma: e o resto? E um filho? [...] e não há esperança que um dia a gente possa ter um filho?

João: não.

Yerma: de jeito nenhum?

João: de jeito nenhum. Aceita e esquece Yerma: O que quer?

João: A ti, Yerma. Olha, a lua está linda demais. (III, 2)

Yerma vai se excitando, na medida em que percebe que o motivo de sua angustia, na verdade, não importa a João. Para ele, não ter filhos não é um problema, pois ele segue sua vida da mesma maneira, sendo o senhor da casa e o dono de seu

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trabalho no campo, ou seja, João já tem sua vida completa, tanto para si, quanto para a sociedade. E ele acrescenta: não lhe falta nada.

A morte de João, assassinado por Yerma, foi interpretada pelos estudiosos de maneiras distintas. Como dito antes, algumas análises pensam o assassinato do marido como um momento de histeria44 de Yerma; outras análises, seguindo na busca de elementos cristãos na obra, consideram a morte de João como sendo a morte do salvador. Doménech diz que, segundo esta vertente, ―morre o varão, morre sobretudo para a mulher, se trata de mulheres que estão sentidas — como a sexualidade, como o sangue — a partir da mulher, a partir da mãe, da esposa ou da amante. Morre o salvador. Mas o salvador sempre é o varão‖ (2008, p. 132).

Porém, ambas as leituras ignoram Yerma como indivíduo que tem desejos e vontades. Uma interpretação psicanalítica coloca a morte de João como decorrência de um desvio na personalidade da esposa, e não como um ato escolhido e cometido no desenrolar de seus sentimentos. Dizer que Yerma mata o marido por um ataque de histeria é simplificar todo conflito da trama — tirando a possibilidade de escolha de Yerma e ignorando que há, além de um embate interno de suas vontades, uma relação social que a reprime e que também participa da morte de João.

Por outro lado, se uma leitura psicanalítica ignora o entorno de Yerma, a leitura da morte como uma metáfora de um rito católico ignora o conflito da protagonista, um conflito feminino, pois Yerma diversas vezes coloca as distinções entre ser homem e mulher, e nega as imposições sociais como um fator importante para o ato cometido pela protagonista. Ao matar João, Yerma não executa a morte de seu salvador, mas ao contrário, mata seu marido para poder se salvar do peso que ela sente por não ser mãe.

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Leitura de AngelaBacaicoa, ―Lectura psicanalítica de Yerma, de García Lorca‖, Cuaderno de

185 Yerma: Isso nunca. Nunca. (Yerma dá um grito e aperta a garganta

do marido. Ele vai para trás. Yerma aperta a garganta do marido até matá-lo. Começa o coro da romaria.) Murcha, murcha, mas segura. Agora, sim, o sei com certeza. E sozinha! Vou descansar sem ter que despertar sobressaltada para ver se o sangue me anuncia outro sangue novo. Com o corpo seco para sempre. Não se aproximem porque matei meu filho, eu mesma matei meu filho! (Um grupo se aproxima, ficando ao fundo. Ouve-se o coro da romaria). (III, 2)

Essa é a última fala de Yerma, e não relaciona a morte do marido à perda do salvador, mas na verdade aceita seu destino trágico depositado na esterilidade de seu casamento; junto com seu marido, mata seu filho. Agora viúva, Yerma não tem mais que carregar o peso de um casamento sem filhos. Mas, além disso, sem João, Yerma também se torna livre da casa, das restrições sociais que João trazia para o âmbito privado, das normas morais que cerceavam a liberdade. O entendimento do fato de Yerma matar seu marido pode ir além de uma leitura psicanalítica, que entende o ato como um ataque de histeria, mas como a expressão máxima do quanto o marido significava de peso, de opressão para ela. Sem João, Yerma pode descansar, pois, aos olhos dos outros, ela deixa de ser a seca e passa a ser a viúva, sendo essa única maneira que ela conseguiu vislumbrar de mudar sua vida.

Durante a peça, há um desenrolar da personalidade de Yerma que sai da angustiada esperança ao desolamento. Nesse meio tempo, Yerma vai azedando sua personalidade, lutando contra si mesma, enche-se de ódio na busca de um culpado por sua esterilidade. Porém, quando João diz a Yerma que não deseja ter filhos, ela não pode mais ignorar que o marido, que ela via como sua única salvação, não irá lhe salvar. O marido não era seu salvador, mas um de seus algozes. Se é estéril Yerma ou se o é João, o que importa é que um não pode dar o que o outro deseja, então, como ser feliz frente à impossibilidade do outro? Enquanto Yerma quer ser mãe, João quer sua honra, e um não se interessa pelas vontades do outro. Como acrescenta Doménech, ―Yerma e

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João se buscam sem chegar a se encontrar, como quem se move na escuridão. E talvez não se encontrem porque o que cada um busca no outro é algo que o outro não tem, ou que o outro não é‖ (2008, p. 89).

O fato de Yerma não se entregar a outro homem pode significar a representação de uma mulher infecunda por não ser fecundada, semeada. Yerma é a terra que é estéril por não haver quem trabalhe nela. Essa ideia ressalta o constante paradoxo que vivem João e Yerma, pois um homem de vida rural, que trabalha na terra, não é capaz de semear sua esposa.

Em entrevista, Lorca diz que ―Yerma não tem argumento. Em muitos momentos parecerá ao público que há, mas é um pequeno engano‖ (GIBSON, 1987, t. II, p. 1060). O escritor cuida de detalhes da evolução trágica de Yerma nessa aparente falta de argumento, direcionando-a para o ápice da tragédia: da ternura inicial ao encontrar Maria grávida para a amargura e desolação. Yerma é consciente do que lhe acontece — que seu sangue poderia virar veneno, caso não dê vida aos seus filhos —, que está se enchendo de ódio, se vê inútil, se sente ofendida e rebaixada, como ela mesma diz (II, 2).

No final, Yerma se rende à breve esperança da romaria, o que de fato desafia a mentalidade arraigada em valores católicos, mas João vai até Yerma, que ao ser descoberta, inundada por seus sentimentos, mata o marido e com ele os valores morais e a falta de liberdade que ele representa. Yerma prefere matar seu marido a se resignar ou a ter uma postura adúltera, ou seja, acaba escolhendo expor tudo aquilo que antes estava trancado dentro de sua casa e de si: sua insatisfação com o casamento e a vida doméstica que lhe eram impostos, a sede de liberdade, a descrença em Deus e a vontade de ser o que quer e não o que os outros dizem que ela é. Yerma escolheu a certeza de ser viúva ao invés da especulação social de que é estéril.

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Quando João aparece na romaria, já um pouco bêbado de vinho e de desejo por Yerma, ele procura sua esposa para realizar suas vontades. João, nesse momento, despe-se completamente dos valores católicos e deseja Yerma por prazer, não para procriação. Porém, a protagonista não deseja a João, não o vê como uma fonte de prazer, mas antes como um reprodutor e agora que ele mostra não se importar em ter filhos, o casamento e o marido perdem a função para Yerma.

João vê a Lua e vê Yerma, mas ela, neste momento, não consegue ver nada que não suas vontades, e recusa seu marido tanto quanto continuar abrindo mão de sua liberdade e escolhas por um casamento que não a satisfaz. Ao recusar João, Yerma assume mais uma vez a moralidade cristã de aceitar o sexo para fins reprodutivos, e ao matar o marido, livra-se do peso que representava um sexo infecundo, pois parece que para ela, o sexo não gera prazer nem ―fruto‖. Nesse momento, Yerma é a expressão de toda a moralidade social cristã que controla a vida privada dos indivíduos, como expressa Lombardi: ―a sacralização da sexualidade e da fecundidade se perdeu na tradição religiosa do cristianismo que condena o prazer sexual e o considera pecaminoso‖ (LOMBARDI, 2002, p. 67).

O trágico de Yerma está expresso em vários elementos, como o coro das lavadeiras, que é criado com forte aproximação aos coros das peças gregas, mas também na ideia de imutabilidade do destino. Assim, quando Yerma crê que pode mudar a ordem e mudar seu destino, ela acaba cumprindo seu próprio destino, assim como fez Édipo, ao tentar fugir de sua tragédia de se casar com a mãe e matar o pai. Quando Yerma vai à romaria para tentar engravidar, ela acaba matando o marido, assim concretizando sua tragédia, e sua esterilidade se cumpre inexoravelmente. Assim como nas tragédias gregas, em Yerma o destino se impõe à vontade humana com força

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poderosa e imbatível. Mas, se o povo grego estava nas mãos dos deuses, o povo espanhol retratado na peça de Lorca estava nas mãos da sociedade e da Igreja Católica.

Além disso, a própria cena da romaria de Yerma remete à peça As Bacantes, na qual o ápice da tragédia se dá em uma romaria de mulheres, regada a vinho. A personagem de Yerma se aproxima de heróis e heroínas gregas, em especial de Medeia, que mata seus filhos para se vingar de Jason. E movida pela vingança, assim como a heroína grega, talvez Yerma mate o marido para se vingar da sociedade, e como coloca Lilia Lombardi, ―esse ato desmensurado de vingança e morte dá a medida da ofensa e da humilhação sofrida‖ (LOMBARDI, 2002, p. 55), o que também expressa o ressentimento de Yerma com a sociedade e consigo mesma, por aceitar fazer parte da situação que lhe oprime.

Honra e vingança são temas frequentes da literatura e dramaturgia da Espanha, e estão fortemente presentes nas obras de teatro ao longo do período do Século de Ouro espanhol. As obras de teatro de García Lorca recuperam esses temas tradicionais da dramaturgia da Espanha, tradição essa que havia sido interrompida no século XVIII, época de forte influência francesa, e que apresentou ligeiro renascimento no século XIX. Antes de Yerma, a honra e a vingança já haviam sido apresentadas ao público das peças de Lorca em Bodas de Sangue, quando a honra do Noivo é maculada e exige a limpeza com a vingança.

Ao matar o marido, Yerma assume seu destino de esterilidade, pois ao matar João mata toda a possibilidade de ser mãe, afinal, acaba seu casamento — a única maneira pela qual Yerma acreditava ser possível a conquista da maternidade. Assim, a própria Yerma diz que ―matou seu filho‖, e nesse ato ela se aproxima da personagem da Mãe de Bodas de Sangue que afirma que, junto com a morte do seu filho, o Noivo, terá outro tipo de tranquilidade: ―Agora todos estão mortos. À meia-noite vou dormir,

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dormir sem que me aterrem mais a espingarda ou a faca‖ (Mãe, Bodas de Sangue, último quadro), agora ambas podem dormir sem o medo, sem a ameaça dos outros. Ao se tornar viúva, Yerma deixa de ser a infecunda, a seca, e passa a ser um símbolo das exigências que são feitas à terra para que esta cumpra seu ciclo. Mas Yerma também se torna o reflexo da mulher oprimida e da negação dessa opressão.

Yerma, Lorca e Espanha:

Federico e seus irmãos são filhos do segundo casamento de Federico García Rodriguez, don Federico, como era conhecido em Granada e vilarejos próximos. Antes de se casar com a mãe de Lorca e de seus três irmãos, Don Federico foi casado com Matilde Palacios, que morreu muito jovem. O que se imagina é que Matilde era estéril, pois o casal não teve nenhum filho, enquanto que em seu segundo casamento com Vicenta Lorca Romero, don Federico teve quatro filhos. Lorca sabia que seu pai teve um primeiro casamento infecundo e, segundo as empregadas que cuidavam de Federico, o poeta imaginava como seria se ele fosse filho de Matilde e não de Vicenta (JOHNSTON, 2004, p. 39).

Não se pode dizer que Lorca tenha escrito a peça baseado na história de Matilde, mas é fato que a esterilidade foi um tema abordado não apenas na peça, mas em alguns poemas do escritor. Um dos primeiros livros do poeta, o Canciones — escrito entre os anos de 1921 e 1924 —, antecipa alguns dos temas que permearão a obra de Lorca até o fim: dúvida, angustia, autoquestionamento e a sensação de impotência em concretizar o amor e gerar frutos. O poema ―Canção da laranjeira seca‖

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já em seu título compartilha com Yerma o sentimento de infecundidade, da terra seca, sem gerar novas vidas. No fragmento abaixo, o poeta expõe o suplício ―de se ver sem toranjas‖, o suplício de ser improdutivo, seco, o mesmo suplício que, dez anos mais tarde, estará presente em Yerma (1934).

―Lenhador.

Corta a minha sombra. Livra-me do suplício De ver-me sem toranjas.‖

Em Yerma, o dramaturgo expõe o conflito de uma mulher que é levada a questionar as normas impostas, pois segui-las não a torna feliz. Assim, ao contrapor os desejos individuais às normas da sociedade, o escritor coloca em cena questionamentos que são indesejados pelos setores conservadores do poder e da sociedade e por isso