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Full-body movement as a semiotic resource for design

Chapter 2 Movement as a material for design

2.4 Full-body movement as a semiotic resource for design

Rua do Ingleses, 209. Bairro do Bixiga, São Paulo, 1976.

O público entra em uma pequena sala preta. Ao fim da arquibancada, no nível mais baixo do espaço, vê-se uma mulher em malha cor-da-pele, presa a um emaranhado de elásticos. Aos poucos, ela começa a se movimentar. Sem abandonar os elásticos, seu corpo desenha movimentos limitados por eles. Ao fundo, projetam-se fragmentos de textos e imagens. A mulher em questão é Marilena Ansaldi, em cena no espetáculo Isso ou aquilo?, com direção de Iacov Hillel.

Marilena Ansaldi em Isso ou aquilo? Teatro de Dança Galpão, 1975. Arquivo CED.

A realização de Isso ou aquilo? marca uma ruptura de Marilena Ansaldi diante da linguagem clássica, atravessada pela relação de várias artes na cena: dança, teatro, artes gráficas e literatura. O que se apresentou com essa obra foi, antes de tudo, a própria artista e suas inquietações diante da limitação que o balé, enquanto técnica, colocava sobre seu modo de dançar (o que, para ela, era um meio de se colocar no mundo)32.

32 Sobre este espetáculo, Ansaldi afirma: ‚(...) eu não me colocava mais, não me expunha mais e eu tenho uma necessidade muito grande de me expor, de me colocar, de me testar (...). Parece que eu cortei minha vida, que eu paralisei tudo dentro de mim. Então era uma coisa só para fora. Não havia nada de criativo, nada em que eu realmente me jogasse, me expressasse (...). E

Nascida em 1934, filha de cantores líricos – o que fez com que passasse boa parte da infância no teatro, nas coxias durante a apresentação das óperas – Marilena começou a estudar balé clássico aos 15 anos, ingressando na Escola Municipal de Bailado – da qual, mais tarde, tornou-se professora. O início dos estudos em uma idade relativamente avançada para os padrões das bailarinas clássicas deveu-se, segundo consta em sua autobiografia, ao fato de seu pai proibi-la de realizar seu desejo de criança, acreditando que a profissão de bailarina não era digna o suficiente (Ansaldi, 1994). Em 1962, foi para a Europa como membro do comitê brasileiro para participar do Festival da Juventude na Finlândia – organizado a cada dois anos pelos Partidos Comunistas ao redor do mundo. De lá, conseguiu ir para a URSS e ingressar como aluna bolsista no Balé Bolshoi. Permaneceu lá por dois anos, tornando-se primeira bailarina da companhia, e regressou ao Brasil em 1965.

Apesar dos empecilhos institucionais colocados pela administração municipal33, Marilena voltou a dar aulas na Escola Municipal de Bailado e,

ainda em 1965, apresentou o espetáculo A Dama das Camélias, incorporando alunas das turmas mais adiantadas da escola ao elenco. Em meio às muitas entrevistas para as quais era convidada na época para falar de sua experiência

de repente comecei a ficar pior interiormente (...). E comecei a escrever umas coisas. Esse espetáculo [Isso ou aquilo?] também saiu de uma situação minha particular de vida, muito mais que profissional.‛ (Entrevista de Marilena Ansaldi a Lineu Dias sobre o espet{culo ‚Isso ou aquilo?‛, 26/03/1976. Centro Cultural São Paulo: Arquivo Multimeios, TR2065). E ainda: ‚Uma de minhas fixações era a divisão entre o corpo e a cabeça, que é típica dos bailarinos clássicos. Eu tinha sensações e pensamentos que não correspondiam à linguagem corporal que eu havia treinado insistentemente.‛ (Ansaldi, 1994: 153).

33 Quando Marilena foi aceita como bolsista na escola do Bolshoi, a embaixada brasileira na URSS enviou uma carta ao prefeito de São Paulo solicitando sua licença do cargo de professora da Escola Municipal de Bailado. No entanto, o pedido foi ignorado e abriu-se um processo de exoneração. Tendo a seu favor o fato de ser uma das raras bailarinas brasileiras com reconhecimento internacional e a incontestável validade do conhecimento adquirido na mais tradicional escola de balé do mundo, Marilena conseguiu reassumir o cargo em seu regresso. Apesar disso, não deixou de receber punição administrativa por ‚faltas injustificadas‛ – o mínimo que se poderia esperar de um regime ditatorial instaurado sob o argumento da ‚ameaça comunista‛ em relação a alguém que, durante o golpe, vivia ‚na casa do inimigo‛ (Ansaldi, 1994: 137).

como primeira bailarina da mais importante companhia do mundo e da vida na longínqua União Soviética, conheceu o jornalista e crítico teatral Sábato Magaldi, com quem se casou.

A união com Magaldi permitiu a Marilena um intenso contato com o meio intelectual e artístico (sobretudo teatral) que fervilhava em São Paulo naquele momento.

O grau de mobilização da classe teatral era, talvez, maior do que o de outras artes – ou, pelo menos, muito mais barulhento. Estávamos sempre cercados por pessoas vitais e criativas, que procuravam formas de resistir à ditadura e batalhar por uma abertura democrática. Em meio a esse tumulto participativo conheci Cacilda Becker, Walmor Chagas, Plínio Marcos, os artistas do Teatro de Arena de São Paulo e os do Teatro Oficina. Diante disso (...) A dança parecia uma coisa à parte, isolada, indiferente ao drama do país.

Eu constatava que os atores se expressavam muito bem num momento em que a expressão era tão importante; via que tinham pontos de vista definidos sobre a relação arte e política; testemunhava como viviam, de uma maneira intensa e comprometida, arriscando-se muito e produzindo muito. Do outro lado, em uma espécie de limbo, estavam meus companheiros de dança, apáticos ou francamente reacionários. Foi essa comparação que me fez procurar um caminho diferente, um caminho que me permitisse enxertar na dança a mesma expressividade que eu via no teatro. (Ansaldi, 1994: 141).

Com Isso ou aquilo?, Ansaldi apresentou pela primeira vez uma solução estética para as inquietações expressas na citação acima. A partir daí, experimentou no próprio corpo a liberação das amarras que interceptavam seus movimentos: da formatação do corpo promovida pela técnica do balé clássico às censuras que definia como interna e externa34, que lhe pareciam impedir de

34 Um espet{culo emblem{tico desta ‚nova fase‛ do trabalho de Marilena inaugurada por Isso

ou Aquilo? foi Escuta, Zé!, de 1977, baseada na obra de Willhelm Reich, Escute, Zé Ninguém,

escrita em 1946. Entendendo a liberdade como algo a se exercitar cotidianamente, e não como um fim a ser alcançado, o apontamento que Ansaldi faz a partir de Reich é bastante pertinente, sobretudo no momento de repressão política sobre o qual muitas vezes a única forma possível

dizer o que queria, de dançar da maneira como lhe era necessário. Ou amarras que a obrigavam a dizer algo, a dançar de determinada maneira.

Diante da atenção à forma, tão importante para o balé clássico, a improvisação era o ponto de partida para a criação de Isso ou aquilo?. Segundo Ansaldi, a construção do roteiro perpassava a questão de ‚como eu poderia me livrar de todo aquele passado [de bailarina clássica].(...) Eu queria transformar aquela linguagem em outra. (...) Eu preci[sava] ser essa transformação no palco‛35. Para além das amarras de sua vida como bailarina, Isso ou aquilo?

descreve, também, as amarras presentes de diversas formas na vida de muitos diante uma ditadura civil-militar no Brasil, sustentada por uma sociedade conservadora, ainda que o alvo não seja este, explicitamente.

A breve menção que se faz na abertura deste capítulo à trajetória de Marilena Ansaldi, tendo como centro o espetáculo Isso ou aquilo?, não é fortuita. Para além do fato de ter sido uma das idealizadoras do Teatro de Dança Galpão, a figura desta artista ajuda a pincelar a experiência de toda uma geração de bailarinos que encontrou ali um espaço para dar forma à urgência de pensar e fazer dança extrapolando ou enfrentando a tradição do balé clássico em seus termos éticos e estéticos. Além disso, a ‚pequena sala preta‛ onde Isso

ou aquilo? foi apresentado era, justamente, o Galpão.

de luta parecia ser a Revolução aos moldes, entre outros do projeto do Partido Comunista. ‚Est{vamos em 1976, um ano de repressão, censura e medo. Por causa disso, as pessoas estavam anuladas e sentia-se no ar a vontade de que o país encontrasse um grande líder. Os editoriais e uma imprensa mais conservadora também faziam grande alarde em torno da falta de líderes no ‘mundo ocidental’. A advertência de Reich era perfeita para esse momento. Não podia haver hora melhor para ler um estudo que punha o dedo na ferida, que falava do Zezinho que todos temos dentro de nós, o Zezinho pronto para se anular em partidos, para servir um líder e para se movimentar unicamente com a massa‛ (Ansaldi, 1994: 167). Voltaremos a este espetáculo mais adiante.

35Marilena Ansaldi – I Seminário de Direção Teatral (23/9/1986). Registro em vídeo consultado no arquivo da São Paulo Companhia de Dança.