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In document List of figures (sider 15-19)

Apresentar um panorama ou uma espécie de quadro, do contexto em que ocorre determinado evento da magnitude do Primeiro Congresso de Instrucção Primaria, não é tarefa muito fácil. De um lado, se põem as dificuldades enfrentadas por quem faz esse exercício na condição de mera consumidora/leitora de alguns trabalhos sobre o tema, o que implica um esforço maior de compreensão, tendo em vista a produção de uma escrita sobre o assunto. De outro, a grande variedade/diversidade de obras disponíveis para se obterem as informações que possibilitassem tal tarefa chegou a provocar certa paralisia. Se no primeiro movimento, a tentação é a de apresentar uma relação de obras, porque não é muito fácil escrever sobre o que se conhece pouco, sobre o que não se tem muita familiaridade, o desafio de enfrentar os

119 Inclusive na acadêmica. É só verificar o grande número de publicações coletivas. Mesmo os autores que publicam uma obra “solitária”, apresentam trabalhos que foram escrevendo ao longo de certo tempo, como uma coletânea.

120 Que talvez pudessem ser considerados como protocolos de leitura (CHARTIER, 1996).

121 Quanto a isso, o modo como escreveu Le Goff (2001), ao prefaciar o livro de Marc Bloch, muito me fascinou. 122 Exceção para as transcrições que constam dos apêndices A e B que mantêm a forma registrada nos documentos.

próprios limites acabou por prevalecer. Assim, pretendo fazer referência a alguns estudos relativos à Primeira República, no Brasil, com maior ênfase na década de 1920, que foram produzidos em períodos mais recentes; pretendo, também, destacar algumas obras de contemporâneos e, por fim, apontar a minha percepção desse quadro panorâmico.123

Num curto ensaio sobre a década de 20 e suas crises, Nícia Vilela Luz124 afirmou que, de um modo geral, ao tratarem desse período, os estudos dão maior ênfase a dois aspectos: o político e o literário; a inquietação social desses anos, assim como a crise econômica que a gerou, estaria sendo pouco estudada. A partir daí, articulando-se às nossas condições políticas, passa a fazer suas reflexões sobre a crise econômica que marca a segunda metade da década de

vinte, crise que atinge particularmente o setor industrial e que portanto vai afetar principalmente a população urbana125[negrito meu]. Ou seja, amplia suas análises para além das relativas à produção e ao comércio cafeeiro (apesar de sua importância inegável). Igual ênfase é dada, por Otavio Soares Dulci,126 ao tratar do desenvolvimento econômico de Minas Gerais. Ainda quanto ao aspecto econômico na primeira república, Winston Fritsch127 defende a tese de que, apesar dos interesses dos grupos internos, ligados ao café, as políticas econômicas levadas a cabo, no nível nacional, estiveram muito mais articuladas à economia internacional e seus direcionamentos.

No sentido de pensar Minas e o Brasil sob outras óticas e buscando outros documentos, a

revisão da ‘política do café com leite’, feita por Cláudia Maria Ribeiro Viscardi,128 é um trabalho que nos ajuda a rever os falsos estereótipos contidos na metáfora. Assim é que, através dele, ficamos informados dos detalhes da economia mineira e de como os produtores de café, em Minas Gerais, tanto os da região sul do Estado, quanto os da zona da Mata, ora se aliaram, ora de afastaram, tanto entre si, quanto em relação aos produtores paulistas e aos da indústria emergente, na região central do Estado. Já a revisão feita por Marieta de Morais Ferreira e Surama Conde Sá Pinto,129 além de traçar, de forma sucinta, a trajetória do país na

123 Apesar de não aparecerem articuladas, explicitamente, às minhas reflexões, acho importante destacar algumas obras, às quais me reporto, sempre que preciso de maiores esclarecimentos sobre esse período da nossa história e/ou que me ajudaram na sua compreensão. São elas: Fausto (1987 e 1997), Iglésias (2001), Whirt (1982), Gomes (2005), Sevcenko (1992) e o Seminário de Estudos Mineiros (1982).

124 LUZ, 1969. 125 LUZ, 1969, p. 68. 126 DULCI, 1999. 127 FRITSCH, 1990. 128 VISCARDI, 2001. 129 FERREIRA e PINTO, 2003.

década de 1920, com suas “etapas” e respectivos fatos e sujeitos, pensamentos e posições, apresenta-nos as diversas correntes de interpretação de que foram alvo na historiografia brasileira. Dentre essas correntes, destaco a representada por Sérgio Buarque de Holanda,130 ao criticar de forma contundente uma das idéias que os governos republicanos irão reiteradamente fazer aparecer em seus discursos e que será alvo de atenção especial pelo governo de Minas Gerais, em 1927:

Não têm conta entre nós os pedagogos da prosperidade que, apegando-se a certas soluções onde, na melhor hipótese, se abrigam verdades parciais, transformam-nas em requisito obrigatório e único de todo progresso. É bem característico, para citar um exemplo, o que ocorre com a miragem da alfabetização do povo. Quanto inútil retórica se tem desperdiçado para provar que todos os nossos males ficariam resolvidos de um momento para outro se estivessem amplamente difundidas as escolas primárias e o conhecimento do ABC. Certos simplificadores chegam a sustentar que, se fizéssemos nesse ponto como os Estados Unidos, ‘em vinte anos o Brasil estaria alfabetizado e assim ascenderia à posição de segunda ou terceira grande potência do mundo!’ ‘Suponhamos por hipótese’, dizia ainda um deles, ‘nos 21 estados do Brasil os governos passados tivessem feito para a atualidade uma população culta e um igual aparelhamento escolar, como o que se encontra em cada um dos estados da América do Norte, graças à previsão dos americanos. Nessa hipótese, estaríamos no Brasil com um progresso espantoso em todos os nossos estados. Todos eles estariam cortados de estradas de ferro feitas pela iniciativa particular, todos eles estariam cheios de cidades riquíssimas, cobertos de lavouras opulentas, povoados por uma raça forte, vigorosa e sadia’.131

Ao finalizar a revisão das crises da década de 1920, Nícia Vilela nos alerta para as

preocupações, mais significativas e no entanto menos estudadas e comentadas, que revela certa corrente de nosso pensamento social.132 Refere-se ela aos intelectuais que publicaram, em 1924, uma coleção de ensaios reunidos sob o título – A Margem da História da República

(Ideaes, crenças e afirmações).133 Refere-se, ainda, às suas principais posições quanto à organização do Estado, quanto à educação, ao papel das elites, à política financeira, dentre outras e, acima de tudo, à defesa do nacionalismo, como bons discípulos de Alberto Torres. Apesar disso, classifica-os como conservadores.134 Ainda para compreendermos o Brasil da primeira República, sob o olhar dos contemporâneos, podemos contar com o amplo leque de

130 HOLANDA, 2002.

131 HOLANDA, 2002, p. 165. A citação que Sérgio Buarque de Holanda traz para reforçar a sua crítica é de Mário Pinto Serva (nota 11, do capitulo 6, s/d). Uma publicação desse jornalista, relativa ao Congresso de Instrucção Primaria, será objeto de resposta, no Diario de Minas, por parte de Alberto Alvares, secretário geral do Congresso.

132 LUZ, 1969, p. 73. 133 LEÃO [1924].

134 Considero os 12 ensaios que integram essa obra, citada por Nícia Vilela Luz, uma leitura indispensável para nos ajudar a compreender o pensamento dos contemporâneos. Além de se referirem ao próprio tempo – anos iniciais do século vinte – também fazem uma avaliação de algumas obras/intelectuais do século dezenove.

livros (143) que compõem o levantamento coordenado por Lúcia Lippi Oliveira.135 Apesar do critério de escolha estar ligado aos anos 30, muitos livros resenhados abordam a década de 1920, ou mesmo, a primeira república. Entretanto, chama a nossa atenção o prefácio escrito por Barbosa Lima Sobrinho.136 Como testemunha da revolução de 30 e de seus primórdios, faz uma revelação indicativa da questão social no momento, ao relatar o seguinte fato:

O capitão da polícia [em Recife], Muniz de Farias, com um grupo reduzido de companheiros, assaltara um depósito de armas do Exército brasileiro. E começara a distribuir armas pelos operários que desembarcavam dos bondes que os transportavam para as fábricas em que trabalhavam. De um instante para outro, mobilizou-se um voluntariado suficiente para a vitória da revolução em Pernambuco antes mesmo que chegassem as tropas do Exército que haviam dominado a situação da Paraíba. Fiquei com a impressão que seria essa a realidade brasileira, em qualquer ponto do país. A posse de armas mobilizaria os revoltosos, num movimento cuja espontaneidade refletiria a extensão do descontentamento generalizado. Numa fase em que me valia da ficção para traduzir realidades que me assustavam, defini essa reação como a revolta dos portadores de bilhetes brancos, contra os premiados do sorteio. Reflexo, nada mais, dos imensos problemas não resolvidos, os problemas básicos da fome, da habitação, do respeito devido á pessoa humana, por uma política que trata da mesma forma o milionário e o operário, o que ganha milhões e o que não passa dos limites do salário mínimo.137

Por fim, uma última referência à obra que circulou entre os alunos da escola primária, não só no início do século vinte, mas até os seus meados e que teve a pretensão de divulgar certa imagem do país, tomando como ponto de partida o mineiro rio São Francisco. Trata-se do livro Através do Brasil, escrito por Manoel Bomfim e Olavo Bilac.138 É um livro que narra a viagem de dois irmãos, Carlos e Alfredo, pelos diferentes estados brasileiros e procura

apresentar aos leitores a representação do território da nacionalidade, não apenas do ponto de vista geográfico, como também simbólico, lançando mão, inclusive, dos movimentos de retorno às origens nacionais disponíveis no acervo literário romântico brasileiro.139 A intenção dos autores, expressada no prólogo é que, com sua leitura,

a criança aprenderá a conhecer um pouco do Brasil; terá uma visão, a um tempo geral e concreta da vida brasileira – as suas gentes, os seus costumes, as suas paisagens, os seus aspectos distintivos... Justamente porque procurámos apenas um pretexto para

135 OLIVEIRA, GOMES E WATHERLY, 1980.

136 LIMA SOBRINHO, 1980. Segundo ele, a contemporaneidade concorre para a espontaneidade do testemunho. Se a perspectiva os aperfeiçoa com a passagem do tempo, também pode concorrer para que façam a crítica da própria participação pessoal dos autores, ocultando o que não seja favorável e dando relevo surpreendente a intervenções que nem sempre foram decisivas, ou até mesmo influentes. Se fôssemos reconstituir uma peça teatral, com o depoimento de seus atores principais, 20 ou 30 anos depois de sua

representação, estaríamos certos de que íamos encontrar o drama ou a comédia em que tomaram parte?[p. 14].

137 LIMA SOBRINHO, 1980, p. 19.

138 Nos debates do Congresso de IP, quando se tratou dos livros a serem adotados nas escolas, o livro de Bilac e

Bomfim foi um dos recomendados.

apresentar a realidade, preferimos ilustrar esse livro apenas com fotografias; se ha nestas páginas alguma fantasia, ela serve unicamente para harmonizar numa visão geral, os aspectos reais da vida brasileira... o livro de leitura deve conter em si mesmo uma grande lição.140

Aparentemente, olhando à distância, Minas Gerais e o Brasil, em 1927, passam por um período de “calmaria”.141 As revoltas de 1922 e 1924 já estão, aparentemente, sob controle,142 o estado de sítio foi suspenso, Washington Luiz acaba de assumir o governo, traz consigo a perspectiva do retorno à política dos governadores e toma medidas econômico-financeiras que apontam para a estabilização; Antonio Carlos, recentemente empossado no governo de Minas, propõe uma plataforma de governo que visa ao progresso do Estado, prenunciando suas intenções na presidência da República, no mandato seguinte... Ou seja, o Primeiro

Congresso de Instrucção Primaria pode ser colocado, como figura, num quadro em que o fundo o “acolhe” e o evento perfeitamente se encaixa, como num quebra-cabeça. Mas, se invertemos a lente desse objeto através do qual observamos – de telescópio em microscópio143 – e mirarmos para o que ocorre ali, bem próximo de nós, em Belo Horizonte, durante dez dias do mês de maio de 1927, veremos o frágil equilíbrio sobre o qual transitam uma efusão de pessoas, de carne e osso, com seus interesses, seus jogos, suas alianças, suas tensões...

140 BILAC E BOMFIM, 1939, p.VII e VIII.

141 Isso, sem dizer que a grande depressão econômica, também, ainda não tinha sido formalmente declarada. Ao refletir sobre o final da década de 1920, Faoro (2000) é enfático: – A definição, depois da calmaria enganadora do quadriênio Washington Luís, viria, dramática, explosiva, numa crise nacional que se prolongará por muitos anos [p. 305].

142 Eventos relacionados ao movimento tenentista no Brasil: revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922 (Rio de Janeiro) e a revolução de 1924, em São Paulo.

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