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19. Håndheving og straff

19.5. Stanse utbetalinger

No século XX o ecoar das experiências empreendidas no século anterior não resultara em mais que poucas idéias-chave que só fizeram reciclar-se e reconectar-se (HALL, 1995: 9). Os fundamentos para a compreensão da cidade contemporânea já haviam sido lançados. No século XIX, ao mesmo tempo que “entre os construtores de cidades havia se tornado comum entender como ‘cidade de amanhã’ ou ‘cidade do futuro’ exclusivamente cidades como os urbanistas as desejavam construir” havia se constatado que só em parte elas teriam concordância com este “lema da moda” (SCHNEIDER, 1962: 297). Os resultados das cidades planejadas mostraram que, na realidade, era apenas relativa a possibilidade de realização deste “caprichoso” desejo dos planejadores.

Com seus movimentos intensos de transformação e resposta aos estímulos provocados pela industrialização e pelas tentativas de “correção” dos problemas gerados a partir dela, a cidade revelara-se um “estado de espírito”, um corpo de costumes e tradições, de sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes e transmitidos por essa tradição como apontou Park (1979: 26). Sua dinâmica durante o século XIX havia posto às claras que ela não era “meramente um mecanismo físico e uma construção artificial”, mas estava envolvida em processos vitais das pessoas mostrando-se um produto da natureza, e particularmente da natureza humana observou o autor. A cidade contemporânea mostrou-se não só capaz de se adaptar à mudança, como de contribuir poderosamente para ela (BRAUDEL, 1985: 22).

O desejo de se planejar uma forma ideal que eliminasse ou reduzisse os problemas resultantes da industrialização havia colocado em evidência a questão da “qualidade” do espaço urbano produzido como solução, sobretudo nos Estados Unidos onde os resultados da forma urbana planejada tiveram grande impacto na formação de um conteúdo social que se relacionasse com ela como vimos. Não era preciso apenas organizar objetivamente as “quantidades” sobre um território mas promover interações qualitativas que criassem identidade entre habitat e habitante. Neste sentido, de acordo com Argan (2005: 74), o desenho da cidade ideal que teria servido de parâmetro para a avaliação dos problemas da cidade real também contribuíra para a observação de que no âmbito da realidade realizava-se um “valor de qualidade” que superava os propósitos de simples ordenamento territorial.

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Percebera-se através das experiências urbanísticas do século XIX que a morfologia não era mais que um instrumento de organização espacial com valor artístico nulo além de um objeto puramente técnico e incapaz de constituir-se como obra de arte (ROSSI, 2001: 23). Verificou- se que o “ser” da cidade não se restringia à sua forma e que a abordagem de uma existência tangível não dava conta de seu conteúdo e de seu movimento como apontam Moraes e Costa (1984: 50). Assim, compreendeu-se que a explicação de todas as alterações que se produziam na estrutura física da cidade residia em processos ecológicos que atingiam desde as estruturas urbanas mais estáticas e aparentemente imóveis às mais dinâmicas (GOITIA, 1982: 209).

Os efeitos do novo modo de produção sentidos sobre as velhas e novas estruturas urbanas não revelaram como propôs Mumford (2004: 448) “que as constantes humanas não tinham lugar no esquema capitalista” contemporâneo mas, ao contrário, mostraram que ainda que a planta do território objetivasse reduzir a diversidade da vida urbana industrial a imposições ordenadoras, dentro das limitações prescritas por um plano os inevitáveis processos da natureza humana continuavam a imprimir-lhe um caráter como afirmou Park (1979: 29). “A verdade”, escrevera o autor, “é que a cidade está enraizada nos hábitos e costumes das pessoas que as habitam”. Assim, a forma impressa no território constitui-se apenas um complemento e não o elemento principal de configuração do espaço citadino principalmente em um momento de multiplicação das funções urbanas como o de nascimento da cidade contemporânea.

De acordo com Goitia (1982: 208) percebera-se que embora em termos ecológicos a área da cidade fosse exígua para a identificação de diferenças naturais, climáticas, de altitude e ambiente que dividissem os homens por razões biológicas, nela havia um campo de viva concorrência capaz de agrupá-los de diversas maneiras conforme suas condições sociais, econômicas e culturais, permitindo assim a investigação do comportamento humano através da chamada Ecologia Humana. Deste modo, percebera-se que “no espaço restrito da cidade, os matizes ecológico-sociais” eram mais diferenciados do que em qualquer outro lugar, sendo portanto, capazes de demonstrar a diversidade de adaptação social ao espaço. A cidade contemporânea passou a ser vista assim como a representação materializada da capacidade de ajuste da vida às mais diversas situações concretas impostas ao homem por estratégias de ordenamento espacial.

O planejamento físico do território pôde então ser percebido apenas como a materialização de uma técnica racional que, “sem o sopro vital da sociedade que a utiliza” constitui-se apenas

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como um objeto sem significado como mais tarde escrevera Santos (1999: 47). Segundo o autor, a técnica por si é capaz de refletir apenas o “tempo congelado” sendo, por esta razão, necessário considerar uma idade científica da técnica – correspondente à data em que ela fora concebida -, e uma idade histórica correspondente à data em que, na história concreta, ela teria se incorporado à vida de uma sociedade. A partir desta visão, podemos compreender que como todas que a precederam, a cidade contemporânea é o resultado de uma técnica de planejamento que ganha significado apenas quando exposta à ação do tempo.

Além disso, com a teoria ecológica, atribuiu-se um “significado de tipicidade do fato urbano”, o que implicou na “recusa de se considerar a cidade como um produto meramente artificial, capaz de poder ser adaptado com oportunas modificações às diversas necessidades” (DELLE DONNE (1983: 44). No século XIX, as experiências urbanas haviam revelado que “as sociedades humanas, para reproduzirem as condições de sua existência, estabeleciam relações vitais com o espaço e que o homem, com seu trabalho, criava e transferia valores que, em parte, se agregavam ao território condicionando processos futuros (MORAES; COSTA, 1984: 119-121) como os de verticalização e espraiamento da cidade por exemplo. Deste modo, a relação homem-espaço demonstrada por cada uma das experiências urbanas desenvolvidas na transição para a contemporaneidade mostrou-se “típica” e resultante de condicionantes não universalizáveis por uma técnica de planejamento.

De acordo com Park, Burgess e Mackenzie, principais defensores da abordagem ecológica da cidade, não só as relações sociais mas também a padronização espacial que era aplicada ao território urbano se desenvolvia a partir das muitas decisões pessoais independentes, baseadas em considerações morais, políticas, ecológicas e econômicas (GOTTDIENER, 1993: 43). Deste modo, constatou-se já nos primeiros anos do século XX que o entendimento da cidade como uma figura tridimensional e dinâmica, bem como o acompanhamento de seu processo de autogeração, tecelagem e extensão territorial exigia uma disciplina humana como afirma Ryckwert (2004: 349). Assim, a partir da perspectiva ecológica, o urbanismo deveria ser entendido como “um processo que conduziria ao aparecimento de novas unidades ecológicas”, como subsistemas de um sistema geral (DELLE DONNE, 1979: 48).

O pensamento ecológico propôs assim a compreensão da cidade como um organismo que, ainda que planejado de maneira inorgânica e com uma finalidade pré-concebida, seria capaz de reinventar o território produzindo sobre ele territorialidades. Percebeu-se que muitos dos

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elementos que normalmente se considerava como cidade – seu estatuto, organização formal, edifícios, ruas e etc – eram, na verdade, meros dispositivos que “somente se tornavam partes da cidade viva quando e enquanto se interligavam através do uso e costume” como observou Park (1979: 27). Deste modo, os ecologistas realizaram o que propusera Foucault (1992: 149) para a apreensão da linguagem das coisas: limitaram e filtraram o visível até que a estrutura exposta permitiu-lhes transcrevê-la em uma teoria da linguagem, neste caso, a linguagem urbana contemporânea.

Essa estrutura, essencialmente humana, revelou por fim que não havia forma capaz de conter as transformações qualitativas da cidade. Nem o urbanismo, nem a planta regular idealizada através dele, eram capazes de impedir a constante invenção e reinvenção da cidade. Bastava oferecer a esta tempo e habitantes para que produzisse seus próprios resultados. Assim, ainda que o desenvolvimento da cultura moderna fosse caracterizado pela preponderância do que se poderia chamar de “espírito objetivo sobre o espírito subjetivo”, na realidade era possível perceber que isso equivalia a dizer que, “na linguagem como na lei, na técnica de produção como na arte, e na ciência como nos objetos do ambiente doméstico, estava sempre incorporada uma soma de espírito” como afirmou Simmel (1979: 23).

Na cidade contemporânea, assim como em qualquer outra, não haveria, portanto, ventrílocos ou marionetes que tivessem uma função definitiva capaz de legitimar a idéia de crise. Haveria sim uma relação dialética permanente entre eles, e que agora, por meio da descoberta dos processos ecológicos, dividiria a cidade imensamente expandida em um sem número de unidades de conservação da vida, ou seja, em núcleos cuja especificidade transformaria a totalidade do espaço urbano em uma “constelação” de territórios dotados de territorialidades diversas. A capacidade de invenção e reinvenção da cidade vista a partir da formação e da transformação de seus territórios é, portanto, uma realidade também para a cidade contemporânea revelando que esta encontra meios de existir mesmo em meio à dissolução de suas fronteiras físicas e à arregimentação de seu espaço. A “linguagem da vida real” revelara no século XIX ser sempre “filha do tempo”, o “grande inventor” da História e das cidades, e não da “autoridade” dos planos urbanísticos reguladores do território capitalista-industrial.

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4 DA CIDADE NO TEMPO AO TEMPO DE UMA CIDADE

“[...] jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles” (CALVINO, 1990: 59).