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Durante os três séculos que sucederam a queda dos muros da cidadela medieval inúmeras foram as determinações impostas ao tempo, à história e à geografia das cidades. O homem que se lançara no século XVI à liberdade, à conquista de um mundo ainda desconhecido e ao prazer de viver em permanente transformação, fora gradativamente absorvido pelo turbilhão de novidades que ele mesmo criara tornando-se confuso em seus próprios pensamentos. Os celebrantes do capitalismo envolveram surpreendentemente a humanidade com sua audácia e energia revolucionárias, sua atividade dinâmica, seu espírito de aventura e capacidade não apenas de dar mais conforto aos homens, mas de torná-los mais vivos observa Berman (1992: 97).
Em fins do século XIX o capitalismo havia aprimorado expressivamente seus primeiros esboços surgidos em tempos longínquos em algumas cidades mediterrânicas e, por toda parte onde eclodia a abolição da servidão, o novo modo de produção tornava-se um fato consumado fazendo dos territórios urbanos o resultado das transformações implicadas em sua implantação e desenvolvimento (LEFÈBVRE, 2001:140 - 141). Como um processo civilizatório, além de desenvolver e mundializar as suas forças produtivas e as suas relações de produção, o capitalismo havia estendido ao mundo suas instituições, padrões e valores sócio-culturais, formas de agir, pensar e imaginar em conformidade com as exigências da racionalidade, produtividade e lucratividade exigidas pelo sistema (CAPELATO, 1996:40).
No período abrangente dos anos de 1750 a 1900, a idéia de progresso não apenas atingiu seu zênite como passou de uma das idéias mais importantes do Ocidente à condição de idéia dominante em torno da qual passaram a articular-se as demais observa Nisbet (1985: 181). As
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noções de liberdade, igualdade e soberania popular desenvolvidas após a Revolução Industrial tornaram-se algo por que se devia trabalhar e, inseridas no contexto da idéia de progresso, pareciam não só meramente desejáveis, mas também historicamente necessárias, sendo também inevitável sua eventual realização uma vez que toda a história fora então compreendida como uma ascensão lenta e gradual, mas contínua e necessária em direção a um fim determinado completa o autor. O capitalismo e o industrialismo haviam induzido o homem a crer em sua autonomia sobre os processos que envolviam seu bem estar material e moral.
Na medida em que a realidade do progresso era atestada pelas conquistas do conhecimento humano e pelo domínio do homem sobre o mundo natural convenciam-se os numerosos historiadores, cientistas, filósofos e intelectuais dos séculos XVIII e XIX de seus benefícios à humanidade. Parecia inevitável que a finalidade ou o objetivo final do progresso fosse um constante avanço da liberdade individual de pensar, trabalhar e criar que atribuía aos homens uma espécie de poder “de um tipo raramente ou, até então nunca visto na história”: um poder “menos preocupado com a limitação e o constrangimento da ação humana do que com amoldar e torcer” sua consciência (NISBET, 1985: 189-245). O progresso implicava assim na conquista intelectual do homem por si mesmo.
Teria sido embalado pelo poderoso encantamento que emanava da palavra ciência e compreendendo de modo indistinto as palavras progresso, evolução e desenvolvimento que o século XIX completara finalmente o processo de secularização da primeira iniciado ainda durante o iluminismo. Desvincular definitivamente o progresso de sua ligação com Deus revelava finalmente um projeto de intervenção no processo de desenvolvimento da sociedade através da construção consciente da história. Como conseqüência, a ciência histórica daquele século teria se tornado uma espécie de “história da história”, ou , uma produção que reúne o conjunto de fenômenos constituintes da cultura de uma época na construção de um caráter do que é histórico, ou seja, de uma historicidade (LE GOFF, 2003: 48).
Neste ínterim emergiam os valores modernos através dos quais toda a realidade deveria se apresentar como um produto do devir histórico da humanidade. Enquanto nas sociedades primitivas, e até mesmo na Idade Média, a preocupação em “adquirir uma história” levara muitas vezes à criação de mitos e curiosidades que explicassem os fatos, na sociedade moderna o objeto para tal aquisição não precisava se estender além da própria existência
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humana ocupando-se de uma história do vivido (LE GOFF, 2003: 55-57). O novo hábito de historiar permitiu ao homem considerar-se apto à conquista e determinação não apenas do presente mas também do futuro.
Iniciara-se assim, um tempo de certezas preenchido por uma sociedade confiante em suas conquistas e capaz de domar a natureza a partir de uma miríade de invenções sucessivas que a tornavam apta a domesticar o futuro, prever e impedir flutuações conforme Costa e Schwarcz (2000: 10-15). Se a chegada de um novo século sempre fizera a humanidade sonhar, o fim do século XIX teria sido o que melhor concretizara esta utopia afirmam as autoras. Atingira-se uma era em que “a ‘sciência’ impunha-se como forma de redimir incertezas” e as exposições universais demonstravam “didaticamente” os benefícios da ciência e do progresso alcançados destacando “civilização e modernidade” como as palavras de ordem sob as quais se atingiria o ideal acalentado.
Concomitantemente, de acordo com Berman (1992: 15), alimentadas por muitas fontes, as transformações da vida moderna envolveram os homens em novas experiências de tempo e espaço, de si mesmos e dos outros e das possibilidades e perigos da vida. As relevantes descobertas das ciências físicas que modificaram nossa imagem do universo e o lugar que ocupávamos nele; a transformação do conhecimento científico em tecnologia através da industrialização da produção; a explosão demográfica que gerara um rápido, e muitas vezes catastrófico, crescimento urbano; os novos sistemas de comunicação de massa, dinâmicos e responsáveis por unir os mais diversos indivíduos e sociedades, entre outros empreendimentos humanos, levaram os processos sociais a um “perpétuo estado de vir a ser”4 ressalta o autor.
Aquele fim de século representara assim o triunfo de uma certa modernidade que não podia esperar revelando também as incertezas do permanente estímulo a novas formas de vida por meio de tantas transformações. Para Berman (1992: 16-17), um momento equivalente à terceira e última fase de um processo de modernização iniciado no século XVI, quando as pessoas não possuíam a consciência do que as havia atingido, e intermediado pela Revolução Francesa. Esta, despertara o sentimento de se viver um período de transformações convulsivas da vida pessoal, social e política enquanto ainda redundava na memória coletiva um mundo não moderno que implicava em uma “sensação de se viver em dois mundos”. Na transição do
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século XIX para o XX a humanidade encontrava-se finalmente contextualizada no mundo moderno porém, segundo o autor, imersa em uma idéia de modernidade que já perdia muito de sua nitidez , ressonância e profundidade além da capacidade de organizar e dar sentido à vida das pessoas (BERMAN, 1992: 16-17).
Se por um lado a crença no progresso havia se tornado uma religião universal de ambos os lados do Atlântico estabelecendo um “globalismo” capaz de transformar a história humana em uma história universal, por outro, o fato deste evento implicar em uma configuração histórico- social abrangente no âmbito da qual passaram a se mover indivíduos e coletividades, formas sociais de vida e trabalho, instituições, valores e tradições diversos, implicava além de muitas possibilidades para a vida humana também em novos dilemas (IANNI, 1996: 37-38). Logo, a certeza de que seria possível controlar tudo encontraria seus limites no lado menos brilhante dessa história revelando faces menos luminosas porém igualmente representativas da bélle
époque.
A mesma ciência e progresso que tornavam os homens civilizados traziam uma modernidade que causava ansiedade e angústia transformando a certeza na grande utopia daquela virada de século. Paralelamente à conquista de uma história universal foram atingidas infinitas transformações da vida coletiva que não permitiam desvincular a noção de civilização da de cidade uma vez que era esta última o lugar em que “o mundo moderno” se realizava. Invenções como o vaso sanitário, a anestesia, a iluminação elétrica, o telefone, os aviões e veículos automotores, o fogão a gás, o refrigerador, a escova de dentes e o dentifrício, entre outras, conduziram a uma imensidão de novas experiências e a uma completa transformação dos hábitos diários provocando mutações comportamentais antes impensadas (COSTA; SCHWARCZ, 2000: 25).
Em sentido oposto aos determinismos da ciência, a modernidade correspondia à alteração radical da natureza da vida social cotidiana afetando os aspectos mais pessoais da existência humana e caracterizando-a por profundos processos de reorganização do tempo e do espaço afirma Giddens (2002: 9-11). Deste modo, contrariando as certezas de uma possível construção da história em direção a um fim determinado, “a modernidade institucionaliza o princípio da dúvida e insiste que todo conhecimento tome a forma de hipótese” tornando esta uma postura vital para aferir até que ponto os resultados reais poderiam (e podem) vir a divergir das previsões aponta o autor.
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Enquanto para sobreviver na sociedade moderna as pessoas aprendiam não só a se ajustar às mudanças em curso como a desejá-las e buscá-las de maneira ativa se deliciando na mobilidade e se empenhando na renovação sem lamentações nostálgicas relacionadas às relações fixas e imóveis do passado (BERMAN, 1992: 95), tão flexíveis quanto as mudanças buscadas tornavam-se as relações entre os dois níveis da vida humana: o material e o espiritual. Deste modo, os espaços e os tempos modificaram-se, pois puderam adquirir outros significados, ou mesmo multiplicar-se e, sob todos os aspectos, a nova e poderosa totalidade social se apresentou como um novo e intrincado cenário de forças sociais, conhecidas e desconhecidas, envolvendo desafios práticos e teóricos (IANNI, 1996: 46).
O triunfar da modernidade em uma era de certezas conduziu assim não só à multiplicação das experiências humanas neste mundo como também à subdivisão infinita do que as envolvia: o tempo. Este, que sob diversas formas, é a “condição da História” e deve fazer corresponder seus quadros de explicação cronológica à duração do vivido (LE GOFF, 2003: 47), esfacela- se então em uma infinidade de fragmentos que não podem ser periodizados ocasionando a perda de seu vínculo com o espaço da maneira como existira nas sociedades pré-modernas. De acordo com Giddens (2002: 22), enquanto naquelas sociedades tempo e espaço se conectavam através da situacionalidade do lugar, na modernidade este vínculo se perdera em uma “dimensão ‘vazia’ de tempo” em que o quando passou a não mais se ligar ao onde do comportamento social e, menos ainda, à substância desse comportamento.
Como uma “ciência do tempo” a História passara então a fazer-se e refazer-se em meio aos “mecanismos de desencaixe” equivalentes a “fichas simbólicas” e “sistemas espacializados”, ou, de maneira mais clara, aos meios de troca que possuem um valor padrão que permite o intercâmbio em uma pluralidade de contextos e o conhecimento técnico que penetra virtualmente em todos os aspectos da vida social conforme expõe Giddens (2002: 23-24). Em meio à separação de tempo e espaço, fundamental para o maciço dinamismo que a modernidade introduz nas questões sociais humanas, segundo o autor, universaliza-se o “uso da história para se fazer história” afastando a vida social moderna das amarras da tradição conclui.
Paralelamente à história universal desenvolve-se também uma história local sujeita às influências da primeira, o que implica em mudanças de dimensão e de valor em que o espaço,
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reflexo das relações sociais vigentes, torna-se simultaneamente concentrado e universal (GEORGE, 1997: 101). Neste contexto de possível florescimento de um multiculturalismo e de alteração dos sentidos do passado e do presente que lançam interrogações e utopias no futuro, transforma-se não apenas a história como também a geografia constata Ianni (1996: 46). Inaugura-se um novo ciclo da história em que muitas geografias configuradas por processos invisíveis passam a fazer parte do universo material das cidades, ou, nas palavras de Calvino (2006: 24), em que “uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível”.
Através do trabalho de sociólogos, filósofos, artistas e críticos chegara-se à compreensão de uma multiplicidade de tempos sociais passíveis de divisão conforme a velocidade dos eventos que ocasionavam. Deste modo, distinguiram-se o “tempo individual”, o “tempo social” e o “tempo geográfico” sendo este último “quase imóvel” em relação aos demais (LE GOFF, 2003: 57). A partir desta nova concepção de tempo que passou a se refletir na própria construção da história, a cidade que no passado era o lugar fechado e seguro para se viver tornou-se o lugar da insegurança, da inevitável luta pela sobrevivência, do medo e da angústia. Assim, não poderia mais ser vista como um espaço construído e objetivado pois tornara-se um sistema de potencialidade ilimitada como observa Argan (2005: 214-215).
A cidade, como parte das condições históricas implicadas no capitalismo e resultado da acumulação de capital - que se completa nela e por ela - revelou-se então uma “coisa social” na qual tornaram-se “sensíveis” e “não evidentes” as relações que, para serem compreendidas, deveriam agora ser concebidas pelo pensamento partido de sua realização concreta (LEFÈBVRE, 2001: 140-141). Atingiu-se assim, um momento em que a produção social do espaço passou a preceder a construção intencional da história, de modo que passaram a ser as novas geografias produzidas na cidade os elementos de suporte para a produção da história (SOJA, 1993: 21-22). Tal inversão de papéis configurou então, o maior triunfo da modernidade sobre as frágeis certezas da humanidade: a prevalência do espaço sobre o tempo, ou, da geografia sobre a história.
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