Abrimos um parêntese na sequência temporal que estabelecemos desde o início deste capítulo, para nos determos em alguns textos considerados referenciais. Sobre a magnitude da Castro e d’Os Lusíadas na literatura portuguesa não há qualquer questão de dúvida. Eis o motivo para determo-nos um pouco, ainda que bem superficialmente, nestes três textos.
Tanto António Ferreira como Camões revelam, na tragédia e na epopéia, respectivamente, uma concepção de História como enumeração de grandes façanhas de grandes homens. Ficam então a Castro e Os lusíadas como textos que acabam por propiciar um discurso nacional que, em alguns aspectos diferem do discurso historiográfico – de Fernão Lopes, por exemplo – porque nos dois autores aqui mencionados o argumento literário elege o argumento histórico sem se submeter a este com nenhuma finalidade legitimativa, tal como a do cronista-mor da Torre do Tombo.
Ainda assim, há quem perceba diferente, opinando que nos dois textos “[...] a centralidade das personagens históricas e a fidelidade ao relato histórico orientam o pacto de leitura da Castro, ainda mais do que o de Os Lusíadas, para o verídico e o factual” (PRIETO citada por CAVALIERE, 2003, p. 201). O ensaio de Cavaliere discute principalmente a Castro como texto portador de um argumento histórico e nacional, ao mesmo tempo, lembrando que, à época de António Ferreira, as tragédias
ainda estavam mais voltadas para os mitos gregos do que para um fato – que sabemos também mito – nacional:
Na altura que a Castro foi escrita, a existência de uma historiografia nacional era um facto consumado. Se A. Ferreira se baseou em textos desse tipo para escrever a sua tragédia, já se pode reparar numa diferença substancial em relação às tragédias clássicas, que tiravam o argumento do mito, de um Rucellai, um Giraldi Cinzio […] (CAVALIERI, 2003, p. 148).
Daí que seja considerada uma tragédia-marco na historiografia, do que arriscamos afirmar que é texto inspirador para Afonso Lopes Vieira e António Patrício, autores sobre os quais falaremos mais adiante. E partindo dessa questão do histórico-nacional, Mauro Cavaliere compara o texto de Ferreira ao de Camões, visto que ambos são aquilo que grande parte da crítica inesiana afirma: os de maior divulgação do tema:
[…] A. Ferreira, na Castro, assim como Camões revela uma concepção de História como enumeração de grandes façanhas de grandes homens […] o que é indicado, por exemplo, pelo elenco relativo à descendência de D. Pedro feito por Dona Inês de Castro (Castro, acto I, vv 36-50, p. 78) em que também se reflecte a questão da História como genealogia (CAVALIERE, 2003, p. 152).
Partindo de Cavaliere e retomando Maria Leonor Machado de Sousa, no que toca à questão do relato histórico, ainda que remetam ao verídico e factual pela historiografia, há sempre o aspecto da tradição literária ibérica, que, pela intrínseca relação entre Portugal e Castela medievais, tanto empresta acréscimos como toma de empréstimo elementos do episódio de Pedro e Inês. De acordo com Sousa (2004), a história de Ardanlier e Liessa, intitulada Estoria de dous amadores, da autoria de Juán Rodriguez del Padrón, poderá ser uma das muitas que teria emprestado dos seus meandros literários a vários textos portugueses. Além do texto de Del Padrón, é também tomado como fonte anterior a Camões e António Ferreira outro texto que inclui elementos bem semelhantes àqueles trabalhados pelos dois portugueses referenciados. É o texto Visão, de André de Resende.
Trazemos aqui estas considerações porque tais aspectos, ainda que pareçam detalhes, servem para corroborar aquilo que estamos afirmando desde o início desta tese: a circulação cultural do mito Inês de Castro. Assim, tomamos por base Maria Leonor Machado, para lembrar que
[...] não há dúvida de que o poema de André de Resende – cuja lembrança se perdeu – é bastante anterior a Os lusíadas, publicados um ano antes da morte de Resende, com setenta e três anos. Não fica diminuído o mérito da elaboração camoniana, mas o da criação de muitos dos seus elementos pertence a André Resende (SOUSA, 2004, p. 45)
Além da opinião de Maria Leonor Machado, há outras, como a de Jorge de Sena, que também se debruça sobre a questão das fontes. Para este crítico, embora prevaleça no texto o estilo classicista da tragédia, pode ter sido Garcia de Resende quem inspirou António Ferreira e, possivelmente, até Camões: “Se há fonte para Garcia de Resende – e ele foi fonte para os subsequentes – ela referia-se a um caso semelhante e contemporâneo do de Inês de Castro” (SENA, 1967, p. 142).
Neste mesmo ensaio crítico, Jorge de Sena aponta as diferenças entre as duas edições da Castro e aborda uma polêmica entre as literaturas portuguesa e espanhola em relação às duas Nises: a Nise lastimosa e a Nise
Laureada: “[...] na erudição hispânica, que muito mais amplamente que só
portuguesa, domina a cultura internacional, o caso ainda não é tão pacífico quanto o julgam os nossos estudiosos. [...] Lamentavelmente inconscientes dos problemas de sociologia da cultura e, naturalmente subservientes ante a massa imponente da erudição hispânica [...] os estudiosos portugueses – que raro são capazes de ver as questões nacionais num contexto universal pretérito ou presente – abandonam em geral a defesa da nossa cultura e a divulgação dela [...].” (SENA, 1967, p. 451 e 452). Este discurso “queixoso” de Sena decorre do fato de a Castro ser comparada e dizer-se que o texto tem apropriações das Nises, o que, de certo modo, seria uma acusação - até certo ponto defendida e divulgada pelo crítico Júlio de Castilho – de plágio
por parte de António Ferreira em relação aos dois textos espanhóis que também têm Inês de Castro como protagonista.
Tendo sido influenciada ou não pelo autor das Trouas a Inês de
Castro, o fato é que a tragédia de Ferreira também tornou-se fonte
intertextual não só para Camões, como também para o romance histórico contemporâneo. Isto vemos pelo que refere Agustina Bessa-Luís, nas
Adivinhas:
Toda A Castro assenta no conhecimento popular das ambições de Inês, decerto muito exagerada pelo retrato político que convinha fixar no preconceito da época. A verdade é que António Ferreira recolheu da tradição coimbrã uma Castro de certa maneira cativa da paixão do infante, mais do que apaixonada (BESSA-LUÍS, 1983, p. 128).
Agustina, aliás, conforme veremos no capítulo IV, assenta boa parte de sua narrativa nesse “tom”, o de uma severidade crítica e avaliativa quanto a tudo o que cerca o tema inesiano. É sua forma de conduzir a narrativa numa linha de hibridismo, na qual a veracidade das afirmações parece ser diretamente proporcional ao tom como são asseguradas ao leitor. Assim como faz com a Castro, refere-se também a vários documentos.
Há quem também, como Sousa (2004) assegure que as Trouas, de Garcia de Rezende ajudaram a inspirar a epopéia de Camões. Indiferentes, contudo, ao fato de qual texto teria servido de inspiração a estes dois considerados marcos da Literatura em Portugal, a Castro e Os lusíadas, acreditamos que a repercussão deste último é que possivelmente divulga o episódio inesiano por toda a Europa. Foi tamanha a sua repercussão, em diversas línguas, que chegou a receber até uma tradução em hebraico, de Joseph Bénoliel “[...] apresentada ao 10º Congresso Internacional de Orientalistas e publicada pela Imprensa Nacional em 1892” (SOUSA, 2004, p. 245). Neste sentido, Sousa enfatiza a propagação do episódio em línguas além das européias.
Assim como os episódios sobre o velho do Restelo e o gigante Adamastor, o episódio sobre Inês de Castro é um dos mais significativos na epopéia camoniana, em que é tratada como a mulher cujo grande amor a faz viver “naquele engano de alma ledo e cego/ Que a Fortuna não deixa durar muito” (CAMÕES, 2001, p. 109). É finalmente a esposa e, sobretudo, a mãe que teme pelo desamparo dos filhos e apela à piedade do rei e avô e ao seu perdão por “uma culpa que não tinha”. Jorge de Sena lembra que
A Inês de Castro de Camões já desde Garcia de Resende que se sabia uma matriarca mitológica; e com Ferreira aprendera a que ponto essa mitologia lhe dava dignidade literária épico-trágica (SENA, 1967, p. 589).
A sua morte será um crime, contrário ao código cavaleiresco, pois é a uma dama frágil e indefesa que os conselheiros do rei mandam excutar. E como para a História a morte de Inês é atribuída a Afonso IV, por ter permitido a sentença, em alguns textos literários, como Os lusíadas, há uma espécie de “transfiguração” do culpado para um elemento mítico, o amor. Assim, Camões lidera essa linha de pensamento de que o verdadeiro responsável pela morte de Inês é o amor, assumido na epopeia como destino trágico: “Tu, só tu puro Amor, com força crua / [...] Deste causa à modesta morte sua [...]” (CAMÕES, 2001, p. 108).
Atentemos para que vários versos servem para caracterizar a figura de Inês, como o famoso epíteto “Colo de Garça” e a “mísera e mesquinha”. Camões opta pela imagem inesiana da heroína que morre por amor. Os adjetivos para caracterizá-la são quase sempre ou tópicos ou enfáticos, a exemplo de uma “mansa ovelha”. Além dessa adjetivação, os argumentos que Camões põe na fala de Inês estão repletos de alusões à mitologia greco-latina. São referências simbólicas nas quais animais servem de metáforas e também o campo semântico reforça-as. Exemplo disso é o trecho no qual se atribui o adjetivo “fero” ao termo “amor”. A própria figura de Afonso IV também entra neste campo semântico. Ainda que por laços não desejados, o destino de Inês está diretamente ligado à situação régia de
Afonso. Tragicamente, mais que o rei, ele é seu sogro (ou, como querem alguns, pai de seu amado, já que não a reconhecia como nora).
Assim, podemos também buscar nos versos camonianos uma leitura de Inês e Afonso IV como uma espécie de Antígona e Creonte. Ambos têm alguns traços em comum, são fiéis às suas posições e vontades e, por tal, sofrem as consequências. Assim como acontece com a figura de Antígona, a figura de Inês não teria tamanha força e expressão se não houvesse um rei a fazer-lhe oposição.
Ainda nesse sentido, sobre a caracterização feita por Camões, Maria Leonor Machado apresentou, em colóquio realizado pela Academia Portuguesa de História uma análise da Inês camoniana, na qual afirma:
No passo do episódio em que Inês de Castro faz um último apelo a D. Afonso, que tinha ‘de humano o gesto e o peito’, Camões cedeu às tendências literárias renascentistas e pôs na boca de Inês referências aos episódios míticos de Semíramis e Rômulo e Remo, bem como à Cítia fria e à Líbia ardente […] (SOUSA, 2003, p. 260).
E juntamente aos elementos míticos, outro aspecto que reforça a linha renascentista é o espaço idílico. Inês, tendo seu amor por Pedro completamente correspondido, é aquela que vive idilicamente às margens do Mondego. Não é à toa que, além de imortalizada no túmulo em Alcobaça, Inês está, simbolicamente, também imortalizada na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.
Voltando a Camões, Sousa (2003) é de opinião de que ter optado pelo modo lírico de tratar o episódio inesiano deu força ao seu poema épico, mais do que se o tivesse tratado de modo dramático. Conforme esta autora, “O que faz a força do episódio de Inês de Castro, o que o torna inesquecível é precisamente a simplicidade com que é contado, simplicidade essa que não é afectada pela profusa adjetivação” (p. 262).
Outrossim, o fato de D. Pedro a ter declarado rainha após a sua morte – coroada pelo balduíno, conforme o monumento tumular em Alcobaça – reafirma o verso de Camões (2001), da “mísera e mesquinha que
depois de ser morta foi rainha” (p 107), irradiando o mito cada vez mais reelaborado, por toda a Europa.
De estilo clássico, de certo modo considerado como muito sóbrio, a Castro tem duas versões – a primeira, em 1587, e a segunda, em 1598 – tem cinco atos, versos polimétricos e apresenta um coro grego. De acordo com Mauro Cavaliere, que retoma Costa Marques, a eminência da obra deve-se à “[...] recuperação de padrões formais clássicos, o uso da língua nacional, o tema tratado na tragédia” (CAVALIERE, 2004, p. 145). Nestes termos, compreendemos que tanto o elemento histórico-nacional como a opção lingüística são os sustentáculos – no caso de Ferreira – de um projeto estético e ideológico bem determinado. Este aspecto se explica também por ser António Ferreira considerado um ardente defensor do purismo da língua portuguesa. Condenava o hábito que havia, naquele período, entre os escritores portugueses, de escreverem tanto em português, como em castelhano. Talvez seja este um dos muitos motivos que torna a Castro um texto referencial, que ocupa um lugar representativo na história da literatura do século XV.
Na tragédia de Ferreira, D. Afonso IV é uma das principais personagens masculinas, estando inclusive em maior destaque que o Infante. O rei está configurado como uma personagem angustiada, dividida, receosa de cometer uma injustiça ao seguir os seus conselheiros nas razões que estes lhe apontam e as quais consideram as melhores para a pátria.
Em Inês de Castro na literatura portuguesa, ao analisar as várias tragédias de tema inesiano, inclusive as espanholas, Maria Leonor de Sousa pronuncia-se sobre a Castro:
Encarando globalmente estas tragédias inesianas de inspiração portuguesa anteriores ao Romantismo, alguns aspectos se impõem: – procuram recuperar a tradição histórica e literária nacional, tomando como modelos sobretudo António Ferreira e omitindo a coroação;
– corrigem as duas grandes deficiências que os críticos, incluindo Garret, atribuíam à Castro: a inexistência de qualquer cena entre Pedro e Inês e o facto de o Infante não tomar qualquer atitude activa para a proteger (SOUSA, 1984, p. 55).
Além do que comenta Sousa (2004), observamos que um dos destaques da Castro é trazer uma Inês ainda vítima, mas sem acentuar ao extremo o perfil de fragilidade que se percebe n’Os Lusíadas. Isto aparece nitidamente após a súplica de Inês, na fala do rei:
Ó mulher forte!
Venceste-me, abrandaste-me. Eu te deixo. Vive, enquanto Deus quer
(FEREIRA, 1998, p. 219).
Retomando aqui o que há pouco mencionamos sobre a figura do rei, lembramos que em muitas obras, este vai ter minimizada a culpa pela morte de Inês. Afonso Lopes Vieira, em A paixão de Pedro o cru – obra em prosa - por exemplo, toma explicitamente o partido das razões de Estado, muito embora tenha também composto um poema de exaltação ao amor de Pedro e Inês.
Observando que em Camões o rei teve a intenção de perdoar Inês, no texto de António Ferreira a culpa de D. Afonso IV é atenuada. Relacionando esse aspecto ao romance histórico contemporâneo, contrapomos os dois textos o trecho em que Cândido Franco aponta para o rei como único responsável: “[...] tu, Afonso, és a mais trágica figura da História de Portugal e a única que foi capaz de fazer dum mimoso conto de amor, o de Inês e Pedro, uma tragédia negra e sangrenta” (2003, p. 168).
4.3 Séculos XIX e XX: variações do tema e de gêneros no Romantismo