2. Background
2.5 Quality of life
2.5.3 The stability of QoL and factors that impact QoL in people with dementia
Já no início do capítulo IX, o autor afirma que o discurso citado é o discurso no discurso, portanto, a enunciação na enunciação, e considera importante ressaltar que, quando o contexto narrativo convoca a enunciação alheia, não o faz pura e simplesmente com objetivos decorativos e, sim, imbuído de criticidade, por menor que seja o grau em que esta se apresente.
Denominando “tema” aquilo que mais tarde Hjelmslev chamaria “substância do conteúdo”, Bakhtin defende que o discurso alheio é mais do que o tema do discurso, pois ele pode entrar no contexto narrativo, na sua construção sintática “em pessoa”, conservando sua autonomia estrutural e semântica sem alterar a “trama lingüística” citante.
“Se nos limitarmos ao tratamento do discurso citado em termos temáticos, poderemos responder às questões “Como” e “De que
falava Fulano?”, mas “O que dizia ele?” só pode ser descoberto através da transmissão de suas palavras, mesmo que sob a forma de discurso indireto.”100
Importante notar que, segundo Bakhtin, as regras sintáticas, estilísticas e composicionais foram elaboradas no decorrer da história com o objetivo de assimilar a enunciação de outrem, seja de maneira parcial ou associando-a à própria unidade sintática, estilística e composicional do contexto narrativo, sempre conservando a autonomia do discurso citado, mesmo que de forma rudimentar, para que ele pudesse ser completamente apreendido.
Bakhtin preconiza que as tendências dominantes de “apreensão ativa e apreciativa” do discurso de outrem deram, de alguma forma, origem aos esquemas padronizados de citação, que por sua vez, depois de assumirem uma forma e uma função na língua, passaram a influir de modo estimulante ou inibidor no processo de apreensão apreciativa do discurso alheio, que sempre é mediada pelo discurso interior.
Considerando que o verdadeiro objetivo da pesquisa que estuda as formas de transmissão do discurso de outrem deve ser justamente a interação dinâmica entre o discurso a transmitir e aquele transmitido, o teórico russo afirma que
“o discurso citado e o contexto narrativo unem-se por relações dinâmicas, complexas e tensas. É impossível compreender qualquer forma de discurso citado sem leva-las em conta.”101
100 Ibid., p. 144. 101 Ibid., p. 148.
Essa dinâmica de inter-relação entre os discursos narrativo e citado pode desenvolver-se em duas direções:
i) Visar à conservação e à autenticidade do discurso citado (estilo linear);
ii) ou desfazer a estrutura compacta do discurso citado, apagando suas fronteiras ao absorvê-lo com o objetivo de infiltrar réplicas e comentários (estilo pictórico).
Em relação à primeira orientação, Bakhtin afirma que
“Cada esquema recria à sua maneira a enunciação, dando-lhe assim uma orientação particular, específica. Se a língua, num determinado estágio de seu desenvolvimento, percebe a enunciação de outrem como um todo compacto, inanalisável, imutável e impenetrável, ela não comportará nenhum outro esquema além do esquema primitivo e inerte do discurso direto (estilo monumental).”102
Em seguida, comenta a segunda orientação:
“O discurso indireto ouve de maneira diferente o discurso de outrem; ele integra ativamente e concretiza na sua transmissão outros elementos e matizes que os outros esquemas deixam de lado (...) a análise é a alma do discurso indireto.”103
102 Ibid., p. 158. 103 Ibid., p. 159.
Dentro dessa tendência analítica do discurso indireto, Bakhtin aponta duas variantes, a saber:
1) Discurso indireto analisador do conteúdo (tomada de posição com conteúdo semântico sobre o que disse o falante);
2) Discurso indireto analisador da expressão (expressão que caracteriza não só o objeto do discurso, que segundo Bakhtin, é de fato menor, mas ainda o próprio falante).
Bakhtin afirma que a variante analisadora do conteúdo relaciona-se com o discurso citado apenas no plano da substância do conteúdo (ou no plano temático, como escreve o autor), mantendo-se indiferente a tudo que não diga respeito a essa categoria.
“Os aspectos da construção verbal que têm uma significação temática, isto é, que são necessários à compreensão da posição semântica do falante, são transformados de maneira temática (uma construção exclamativa ou uma expressão de entusiasmo podem ser transmitidas pela palavra “muito”) ou então são integrados no contexto narrativo, como uma característica formulada pelo autor.”104
Já a variante analisadora da expressão integra ao contexto narrativo, no esquema indireto, os modos de dizer do discurso alheio que caracterizam sua subjetividade e estilo enquanto expressão.
“As palavras e maneiras de dizer são introduzidas de tal forma que sua especificidade, sua subjetividade, seu caráter típico são claramente percebidos. Na maioria das vezes elas são colocadas entre aspas.”105
Segundo Mikhail Bakhtin, o importante para os estudos da “apropriação” do discurso alheio são exatamente os modos de apreensão e análise deste discurso. Enquanto para a variante analisadora do conteúdo só interessa a posição semântica determinada do falante, ou seja, sua posição cognitiva, ética, moral, de forma de vida etc., para a variante analisadora da expressão, a individualidade do falante é apresentada como modo de pensar e de falar considerando implicado nessa variante um julgamento de valor sobre esses modos.
Ainda no âmbito do discurso indireto e indireto livre, o autor identifica uma variante utilizada em russo para a transmissão do discurso interior, dos pensamentos e sentimentos da personagem, à qual denomina “variante impressionista”.
No âmbito do discurso direto, Bakhtin identifica quatro procedimentos distintos: discurso direto preparado, esvaziado, retórico e substituído.
O discurso direto preparado é aquele que emerge do discurso indireto livre, sobre o qual o autor tece alguns comentários, classificando-o como discurso direto tratado pictoricamente, comparando-o com as esculturas de Rodin “em que a figura só parcialmente emerge da pedra” (Bakhtin, 1979: 162). Para que não nos alonguemos excessivamente nesse pequeno resumo, assim como o fizemos até agora, dispensar-nos-emos de transpor exemplos ou listar novos exemplos, deixando tal procedimento para a parte final deste trabalho.
O discurso direto esvaziado é configurado pela preparação excessiva, que quando ocorre lança “sombra sobre do discurso citado”, enfraquecendo seu peso semântico, embora a “significação caracterizadora” seja reforçada. De modo muito interessante, Bakhtin compara essa variante do discurso direto com um
cômico que, ao surgir no palco já maquiado, com indumentária própria e gestos pertinentes, nos faz rir mesmo antes de pronunciar alguma palavra.
O discurso direto retórico é, segundo o autor, uma variante “linear” do discurso direto que tem um valor persuasivo e uma grande significação sociológica.
“Há nas relações sociais aquilo que é chamado a pergunta retórica,
ou a exclamação retórica. Alguns casos desse fenômeno são
especialmente interessantes por causa do problema da sua localização contextual. Eles situam-se, de alguma forma, na própria fronteira do discurso narrativo e do discurso citado (usualmente discurso interior) e entram muitas vezes diretamente em um ou outro discurso. Assim, podem ser interpretados como uma pergunta ou exclamação por parte do autor, mas também, ao mesmo tempo, como pergunta ou exclamação por parte da personagem, dirigida a si mesma.”106
Por fim, Bakhtin apresenta o discurso direto substituído, que é a variante do discurso direto onde o autor diz no lugar do herói o que ele deveria ou poderia dizer, e geralmente trata do discurso interior do herói.
“Naturalmente, uma tal substituição supõe um paralelismo de
entoações, correndo na mesma direção a entoação do discurso do
autor e o discurso substituído do herói (o que ele poderia ou deveria pronunciar e do qual o autor se encarrega); por isso, não há nenhuma interferência nesse caso.”107
O autor afirma que esse procedimento é muito próximo do discurso indireto livre, aliás, ao iniciar sua exposição sobre as variantes do discurso direto, ele diz
106 Ibid., p. 170. 107 Ibid., p. 171.
que esses últimos procedimentos discursivos (variantes do discurso direto) devem ter dado origem ao discurso indireto livre.
Como não é objetivo deste trabalho uma análise crítica das questões levantadas por Bakhtin, vamos nos limitar a esse breve resumo sobre as instigantes idéias deste autor acerca do dialogismo marcado no fio do discurso.
Não nos interessa adaptar a teoria Bakhtiniana às possibilidades de citação no arranjo, e, sim, inspirados nessa teoria, dar início ao exame dos modos de citação que os arranjadores cancionistas vêm praticando, provavelmente, a partir da segunda metade do século XX. Quando possível, aproximaremos as maneiras de transmissão do discurso alheio examinadas por Bakhtin no discurso verbal dos procedimentos análogos concernentes ao arranjo. Nosso objetivo principal neste capítulo é identificar, de maneira autônoma, como se dá a transmissão do discurso alheio no arranjo da canção popular brasileira, pois não acreditamos ser possível uma adaptação termo a termo da teoria erigida pelo lingüista russo.
A seguir, para que nossos objetivos se tornem mais claros, definiremos de maneira objetiva e clara nosso objeto de investigação.