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5. Results

5.2 Jurassic reservoirs in the Norne Area

5.2.3 Stær and Lerke

É também a partir dos conceitos de polifonia e dialogismo de Bakhtin -1929- que Authier - Revuz aprofunda o conceito de heterogeneidade, segundo o qual, o sujeito sempre fala com as palavras dos outros. A autora privilegia o campo da representação de um discurso outro, no discurso, apoiando-se em duas abordagens não-lingüísticas: o dialogismo e a Psicanálise, para dar conta dos dois níveis articulados de heterogêneos tratados por ela: “os representados na” e “os constitutivos da” enunciação.

O objeto de estudo privilegiado pela autora é a Modalização autonímica (doravante MA), configuração enunciativa que diz respeito a um desdobramento, em um único ato de enunciação, no qual há um dizer do elemento lingüístico realizado por um comentário desse dizer.

Authier-Revuz (1991) classifica a heterogeneidade em duas formas: heterogeneidade constitutiva e heterogeneidade mostrada. A heterogeneidade constitutiva – que não revela o outro, porque é concebida no nível do interdiscurso e do inconsciente. Já a heterogeneidade mostrada diz respeito à voz do outro inscrita no discurso. Pode-se também considerar que esta ultima é uma forma de heterogeneidade explícita e se desdobra em dois grupos:

b) as formas não marcadas da heterogeneidade mostrada.

As formas marcadas da heterogeneidade mostrada são aquelas que, sendo explícitas, podem ser recuperadas no nível enunciativo, a partir de marcas lingüísticas que mostram a presença de uma outra voz. Esta se divide em: autonímia simples e conotação autonímica. Na primeira, em que um fragmento mencionado é acompanhado de uma ruptura sintática, evidenciando assim a dupla enunciação; na segunda, o fragmento

designado como um outro é integrado à cadeia discursiva sem ruptura sintática. (Authier-

Revuz, 1991: p.140).

As formas não marcadas da heterogeneidade mostrada são mais complexas, pois segundo (Authier-Revuz, 1991: p.140) não há uma fronteira lingüística nítida entre a fala

do locutor e a do outro. Assim a heterogeneidade deve ser reconstituída a partir de

diferentes índices, nas palavras da própria autora:

No caso dos discursos indiretos livres, da ironia, da antítese, da imitação, da alusão, da reminiscência, do estereotipo, as formas discursivas que estão religadas à estrutura enunciativa da conotação autonímica , a presença do outro, se dá por via não explicitadas na frase. A menção que duplica “ o uso” que é feito destas palavras é apenas “ dada a perceber”, a interpretar, isto a partir de índices recuperáveis no discurso em função de seu exterior. (Authier-Revuz: 1991: p 06).

Para o estudo lingüístico e discursivo da MA, Authier-Revuz apresenta-o por meio das não-coincidências do dizer e sua representação meta-enunciativa. Correspondem aos

desdobramentos do dizer, revelam a auto-recepção, o questionamento da transparência, o reencontro com o próprio dizer. (Brait, 1996: p. 108).

As formas de não-coincidências do dizer são assim divididas:

(i) Não –coincidência interlocutiva – perspectiva já anunciada por Bakhtin, existente entre o enunciador e o destinatário. Representa o fato

de uma palavra, uma maneira de dizer não ser compartilhada pelos participantes da enunciação e constitui ameaça para a interação.

Conjurar a, não-coincidência, quer dizer, restaurar UM de co- enunciação no ponto em que esta ameaçado. (Authier-Revuz, 1991: p.

146);

(ii) Não-coincidência do discurso consigo mesmo - esta forma de não- coincidência é relacionada aos comentários que assinalam no discurso

a presença estrangeira de palavras marcadas como pertencentes a um outro discurso, e que, através de todo um leque de relações com o outro - de acordo ou conflito - desempenham no discurso o traçado relativo uma ‘interdiscursividade mostrada’, a uma fronteira interior / exterior.(Authier-Revuz, 1991: p. 147). Na verdade esta não-

coincidência assinala palavras que são de outros discursos;

(iii) Não-coincidência entre as palavras e as coisas - esta não- coincidência, que colocando em jogo os comentários representando as

buscas, hesitações, fracassos, sucesso,...Na produção da ‘palavras justa’, plenamente adequada à coisa. (Authier-Revuz, 1991: p 147);

(iv) Não-coincidência das palavras com elas mesmas - estas aparecem

nos comentários que designam sob o modo da rejeição (por especificação de um sentido), ou ao contrário sob modo da aceitação (pela integração ao sentido) de fatos de polissemia, de homonímia, trocadilho, etc. (Authier-Revuz, 1991: p. 147).

Esta pesquisa busca explicitar os mecanismos intertextuais irônicos que povoam a obra “O jardim das oliveiras”. Para tanto, me embaso nos postulados já referendados e

reverenciados, subsídios para surpreender o processo irônico que joga com o outro de

forma não explicita, na forma sugerida. (Brait, 1996: p. 06).

De acordo com Brait (ibid), a ironia se faz presente devido à existência da opacidade do discurso, que representa uma forma de chamar a atenção para o dito e, principalmente, para a forma de dizer e para as contradições entre estas dimensões. Assim, as formas metaenunciativas, reflexivas, opacificantes de Authier-Revuz podem ser

dimensionadas com o fim específico de circunscrever sua ativa participação nas especificidades do processo irônico centrado no interdiscurso. (Brait, 1996: p 109).

Acredito que as formas enunciativas possam surpreender a ironia no processo irônico centrado na intertextualidade.

Apesar do estudo das não-coincidências de Authier-Revuz (1991) apresentarem formas marcadas lingüisticamente no discurso, segundo Brait (1996) essas estratégias podem ser transportadas para uma dimensão mais ampla que se apresenta como um processo global e fundamental na constituição da ironia. A opacificação do discurso poderá surpreender a ironia na sua forma intertextual. Para Brait (1996: p. 96):

a partir dos ensinamentos de Bakhtin é possível pensar todo discurso como processo de edificação do sentido, da significação como interação,e a ironia pode ser pensada justamente como o discurso que coloca em cena, que dramatiza e tematiza esse aspecto.

O que Brait (1996) propõe é um alargamento da aplicação das não-coincidências, uma vez que as formas lingüísticas marcadas, se não existirem, como é o caso do discurso irônico, poderão ser recuperadas pelo contexto, ou pela sua forma implícita. Ou seja, no caso da ironia, particularmente no estudo que proponho, é inevitável a interação leitor- texto-contexto. Só a partir dessa interação será possível recuperar os sentidos e significar outros sentidos às circunscrições discursivas nas quais se inscreve o conto “O jardim das

oliveiras”. Isso porque não existem marcas explícitas que delatem a ironia, mas sim uma

interação entre os discursos que circulam na sociedade, tais como o discurso religioso e o discurso político.

Acredito que a “Não-coincidência do discurso consigo mesmo”, que segundo Authier-Revuz, trata das palavras de outro discurso inseridas no novo, dará, no caso deste estudo, maior número de explicitação do discurso Outro (Evangelhos) no discurso Um (O

jardim das oliveiras).

Isso porque há no conto várias palavras próprias das FDs de ordem religiosa inseridas na FD política. O próprio título do conto “O jardim das oliveiras”, algumas expressões tais como: “poeira maculada do seu calvário”; “ressurreição”; “Jesus”; “arrogância de alimentar uma legenda heróica”; “crucificado com os pregos de cada dia” etc, são exemplos dessa heterogeneidade.

Essas incursões do discurso religioso (Outro), no discurso político (Um) darão as marcas da heterogeneidade, própria do discurso irônico, na superfície do conto já supracitado. Mesmo que a ironia seja uma forma lingüístico-discursiva que, na maioria das vezes, não se encontra marcada, algumas pistas tais como, a não-coincidência do discurso consigo mesmo, podem ajudar no desvelamento do discurso subversivo presente na obra.