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5. Results

5.2 Jurassic reservoirs in the Norne Area

5.2.2 Norne and Norne East

Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina. Duas vozes são o mínimo de vida (M.Bakhtin)

Os pontos de referência para este estudo são os conceitos de polifonia, inaugurados por Bakhtin e os estudos que surgiram a partir de então, tais como interdiscursividade, por Maingueneau, de intertextualidade, por Kristeva; e a heterogeneidade, por Authier-Revuz.

É sabido que o dialogismo não é inerente apenas às questões lógicas ou de significação, ele é inerente à própria linguagem. Bakhtin (1992) afirma que o dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e do sentido dos enunciados. Equivale afirmar que toda a vida da linguagem, em qualquer campo, está impregnada das relações dialógicas.

Isso é possível por meio do diálogo com outros textos que se dá de forma dialética, plural e multifacetada. Para o teórico russo, a linguagem nunca é um produto acabado, mas em permanente construção, num processo evolutivo e sem interrupções. Nas suas próprias palavras:

a palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não tenha sido gerada por ele. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social (BAKHTIN, 1992, p. 36).

Para ele, o enunciado traz em si ecos e lembranças de outros textos com os quais ele conta, de uma forma ou de outra, para se tornar vivo e não deixar morrer a linguagem e

o discurso. Esses ecos para o autor são vozes, formas especiais de interação e que são denominadas: dialogismo, polifonia, ou intertextualidade. Desse modo, o sentido de um enunciado é constituído pela interação das diversas vozes dependentes e oriundas dos vários contextos.

Trata-se então de uma produção coletiva de idéias e discursos, porque há uma idéia de relatividade da autoria individual, visto que o autor /indivíduo traz para o seu texto outros textos. Vozes às vezes alteradas ou sussurros ao pé do ouvido do autor que impingem o tom de outros discursos no seu discurso.

O discurso, assim como o seu sujeito é interpelado o tempo todo, é tecido e perpassado pelo Outro. De acordo com o pensamento bakhtiniano, as palavras de um falante / sujeito são inegavelmente uma súmula das palavras do Outro. Conforme já tão matizado por vários teóricos, somente o primeiro homem - O Adão do Gênesis - poderia ter tido um discurso próprio. Quer dizer, não existe uma independência discursiva, mas sim uma condição geral que é a da socialização do discurso que se opõe à concepção de um sujeito uno/ individual. Isto porque para Bakhtin, o sujeito não é o centro, mas é constituído e substituído por diferentes vozes sociais, que fazem dele um sujeito histórico e ideológico.

Por se dar no social, o signo é de natureza ideológica, para tanto se pode afirmar que existe um controle, um certo determinismo social para todo discurso. Porém, segundo Bakhtin, isto não quer dizer que o indivíduo estará o tempo todo sujeito à ordem social. Ele poderá também virar o jogo e transformar, reformular e mudar o contexto.

Mesmo que haja uma ordem, a linguagem permite ao falante manter ou construir outros sentidos e romper com os velhos paradigmas do sentido anterior do Outro. No conto que ora me proponho analisar é visível esse rompimento no sentido de extrapolar o

discurso anterior. Uma vez que nele há uma dessacralização do discurso religioso em prol de uma outra ordem discursiva, uma subversão do discurso religioso a favor do discurso político em “O jardim das Oliveiras”.

Bakhtin denomina esse processo como sendo de ‘refração e reflexão’. A ordem dada do discurso anterior é transformada, no caso do conto já referido, por meio de processo lingüístico – ironia - dá-se assim, o outro discurso. O outro sentido, que advém de um primeiro ou de vários discursos anteriores, marca a mudança que o discurso Outro produziu na formulação do Um. No caso da ironia há uma negação de um discurso para afirmá-lo de forma repulsiva, como nova forma de dizer o Outro, ou para criticá-lo. Isto denota a não adesão do sujeito ao contexto social, revelando mudanças de posição de um discurso (Outro) para o (Um). Em outras palavras, a formação de outros sentidos para um discurso anterior.

Assim, a palavra, na concepção bakhtiniana, é pura e neutra em relação à ideologia, pois admite qualquer marca ideológica. E sendo social, a palavra faz-se valer em toda esfera social, torna-se alvo das mazelas e glórias do que ocorre na sociedade. Equivale dizer que a palavra é carregada de ideologias – políticas, religiosas, morais etc. O sentido dela é dado pelo contexto, pela situação social ocupada pelo seu usuário.

A aparente neutralidade que ora discorreu-se, não se aplica à situação de uso da palavra pelos interlocutores, pois nesse campo entra em jogo a interação. Dessa forma, a cada enunciação os usuários da língua usam a palavra com certa intencionalidade, não havendo uma harmonia entre os usuários. O que existe nesta arena, campo social de lutas, é uma gama de divergências, de antagonismos, preconceitos etc, regidos pela linguagem. Isso porque enquanto interação – situação de uso – a palavra é a mediadora dos interlocutores.

Tanto locutor quanto interlocutor, no processo de interação, são condutores e ouvintes das diversas vozes que os permeiam e que se fazem ouvir dentro da sociedade. Essas vozes, que são marcadas histórica, cultural e socialmente, mudam ao longo da história. Desta forma, os processos sociais fazem com que os sentidos das palavras mudem também, mas isso só acontece pelos sujeitos em interação verbal.

Daí, na dialética das palavras, os sujeitos, que são perpassados pelo discurso do Outro, não são neutros e muito menos passivos. Suas palavras / discursos refletem, transformam ou refutam os discursos que se fazem ouvir de outrem.

Para a concepção de interdiscursividade, intertextualidade e heterogeneidade, as quais pretendo abordar neste trabalho, é relevante considerar algumas características do dialogismo e suas importâncias:

(i) o dialogismo implica sempre uma idéia de ruptura (oposição) como modelo de transformação;

(ii) situa os problemas filosóficos numa linguagem, vista como uma ligação entre os textos, como escritura-leitura;

(iii) o dialogismo transpõe às visões prontas e acabadas, verdades absolutas etc. A partir dos estudos bakhtinianos, homem e linguagem tornam-se partes constituintes de um processo dialético, em que um não se configura sem o outro. Por meio desses estudos estabeleceu-se que o homem só se constitui e é constituído pela/na linguagem. Bakhtin vê a linguagem não só como um sistema abstrato, mas também como uma criação coletiva, parte de um diálogo cumulativo entre o “eu” e o “outro”, entre muitos “eu’s”, e muitos “outros”.

O que Bakhtin inaugurou nesse círculo de estudos foi a noção de que toda palavra é concebida a partir de elementos lingüísticos e extralingüísticos. Esta nova visão, que

quebra com algumas concepções anteriores, comprova que a palavra é constituída, também, por elementos que fazem parte do todo social, cultural e, sobretudo, histórico- ideológico, o que corrobora com a linha francesa em estudo.

Desta forma é do atravessamento da linguagem pelo contexto histórico que resulta a dialogicidade, pois é o contexto histórico que permitirá à palavra deixar de ser simplesmente um sistema abstrato de formas, e transformar-se em emaranhados de fios dialógicos que denunciam e refletem o fato que a produziu.