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5. BTC VALUE CALCULATIONS

5.2 A SSUMPTIONS

A preferência entre ídolos e heróis de qualquer categoria – mú- sica, teatro, cinema, TV, HQ – entre os alunos de 6o ano, concentra-

-se nos cantores, que, somados aos atores, atinge 63,2% do total de citações. Esse dado merece atenção, pois dá indícios da influência que esses personagens podem exercer na vida dos alunos. Abaixo deles, estão os jogadores de futebol, como identidades representa- tivas de ídolos, com 13,2%, e os pais, com 12,3% das citações. Um olhar cuidadoso revela que quase todos os itens do gráfico estão rela cionados, de alguma maneira, ao mundo televisivo ou cinema- tográfico, intensificando a hipótese de que seus atos, gostos e cos- tumes podem influir na maneira de ser do jovem. A família e os parentes são apontados como ídolos, mas representam cerca de 12% do total de citações, menos influentes do que os ídolos citados.

Gráfico 1.8 – Ídolos e heróis

No quadro de ídolos de 7o ano, os cantores são os mais citados,

com percentual de 33,6%. Os personagens de história em quadri- nhos/filmes/séries são marcantes na vida do jovem e totalizam 20,3% das citações. Juntos, cantores e personagens de séries/

filmes/história em quadrinhos – personagens televisivos – corres- pondem a mais da metade das citações, 53,9%. No entanto, há um dado importantíssimo: os pais e parentes aparecem em segundo lugar, com 21,1%, índice bem mais alto do que o encontrado entre os alunos de 6o ano. Os jogadores de futebol continuam a ser repre-

sentativos, 10,2% do total de citações.

Entre os alunos de 8o ano, os personagens de séries, filmes ou

de HQ são os mais apontados, com 34,8%, seguidos dos cantores, com 20,2%. Juntos, somam 55%. Abaixo destes, estão os jogadores e somente após, em quarto lugar do total de citações, encontram-se os pais, com 14,6%. Somando-se os cantores, personagens e joga- dores, obtêm-se 71,9% do total de citações, um número bastante expressivo.

No 9o ano, os personagens de filmes/séries e história em qua-

drinhos são os mais citados – todos personagens televisivos. Dessa vez, a novidade é a menção aos amigos como representantes dos ídolos. Atenta-se, no entanto, para o fato de que jogadores e pais têm o mesmo percentual, bem mais baixo do que nas turmas mais novas: 9,4%.

Tabela 1.9 – Ídolos e heróis

Ídolos/Heróis 6o ano 7o ano 8o ano 9o ano

Amigos 0,0 1,6 0,0 8,3 Ator/Dramaturgo 18,9 7,8 2,2 4,2 Cantor/Vocalista/Guitarrista/ Banda/Compositores 44,3 33,6 20,2 29,2 Cientistas/Pessoas famosas 0,0 2,3 4,5 4,2 Deus/Jesus 0,0 1,6 0,0 0,0

Jogador de futebol e outros 13,2 10,2 16,9 9,4

Não tem 0,0 1,6 6,7 5,2

Pais/Parentes 12,3 21,1 14,6 9,4

Personagens HQ/Filmes/Séries/

Ao comparamos o quadro de ídolos e heróis do 6o, 7o, 8o e 9o

anos, nota-se uma semelhança surpreendente. Os cantores, atores, personagens de séries/filmes/e jogadores de futebol são citados em grande quantidade. Ressalta-se que, entre os 6o e 7o anos, os atores

e cantores citados são personagens de seriados de televisão. Entre os do 8o são, em grande parte, personagens de história em quadri-

nhos, e entre os alunos do 9o ano, ambos estão presentes. Destaca-

-se que os pais e parentes são apontados como ídolos, indicando a importância da presença da família, mas que essa importância vai diminuindo à medida que aluno cresce.

Boa parte da cultura juvenil, frequentemente, adota a maneira de vestir e falar de muitos de seus ícones. A cultura de massa tem um setor dedicado exclusivamente aos heróis e valores da adoles- cência. Os heróis, astros e estrelas, tornam-se modelos de vida (Morin, 2011, p.101). Por assumirem, a um só tempo, caracterís- ticas divinas e humanas, dialogam com os dois mundos do adoles- cente, o projetado e o real.

Os mitos, no papel dos ídolos e heróis representam sonhos e desejos do homem, uma transformação ou imaginação do mundo real que o homem procura explicar por meio do divino (Huizinga, 2007, p.7). Os mitos e heróis são explorados ao extremo pela indús- tria de consumo, seja em comerciais, em filmes, seriados ou no- velas. Alguns atuam, ao mesmo tempo, como cantores ou donos de grifes, ou são contratados por indústrias de diferentes produtos para ter seus nomes e imagens associados a esses produtos pela mídia e, por conseguinte, promover ou estimular o consumo.

Todo homem sonha, toda criança ou jovem tem seu conto de fadas. O problema surge quando o mito e esses sonhos se trans- formam em produtos mercadológicos e passam a ser regidos pelas leis do lucro. Conhecer os ídolos dos jovens, além de aproximar seu mundo ao do professor, propicia o conhecimento de sua maneira de ser e pode contribuir para a atuação consciente do educador, que se encarregará de mostrar aos alunos o quanto podem ser utilizados por interesses mercadológicos, pelo conhecimento e exploração da maneira de ser dos jovens.

Há ainda outro aspecto a assinalar: a relação jovem-família. O jovem vem conquistando, a cada dia, a preferência dos espaços midiá ticos e da indústria de consumo, que veem nele uma possibi- lidade lucrativa. O crescimento da independência do jovem, verifi- cado nos últimos anos, é fruto de lutas, protestos e reivindicações, que fez o adolescente, cada vez mais cedo, almejar sua autonomia, muitas vezes interpretada como licenciosidade. Os pais sentem-se inseguros, divididos e receosos, sem, muitas vezes, saber como agir, diante das incertezas e dificuldades da sociedade. Muitos pais perderam o controle sobre os filhos, outros exercem um cuidado extremo, sufocando o jovem. Alguns pais servem-se da proteção como disfarce para seus erros e atitudes equivocadas. As fronteiras de respeito, autoridade, responsabilidade e tolerância estão obs- curecidas. Todos esses fatores conduzem a um desejo de autonomia que resulta no distanciamento entre o mundo adolescente e o mundo adulto (Morin, 2009, p.140).

A crescente emancipação do jovem, associada a fatores sociais e psicológicos (corrupção, futuro incerto, desunião conjugal, entre outros), estimulados pela cultura de massa, levam a uma falha na identificação com os pais. O que ocorre é que “os pais vão apagar- -se até desaparecerem do horizonte imaginário” da criança e do jovem (Morin, 2011, p.146). Nas palavras de Morin, “a invisibi- lidade dos pais” é incorporada pela indústria cinematográfica ame- ricana e pelas revistas, que investem e criam heróis sem família, órfãos ou em contextos independentes de suas famílias. Os heróis tomam o lugar do pai e da mãe ideal (idem, p.147).

A emancipação do jovem e o distanciamento de pais e filhos trazem outra consequência, a desvalorização da experiência do idoso. O velho tornou-se excluído e descartável no mundo dito civi lizado e seus ensinamentos são, costumeiramente, ignorados. Em paralelo, o mercado abre-se para o jovem. Hoje, é frequente, no mercado, a presença de gerentes e supervisores jovens. As pes- quisas científicas destinam-se aos jovens – jovens mestres, jovens doutores (ibidem, p.143). Muitos professores são dispensados por motivo de idade; empregados que dedicaram suas vidas às fábricas

e às empresas veem-se diante da incerteza do amanhã e da concor- rência com o jovem. A mobilização em direção ao jovem indica desvalorização da experiência, do passado e a valorização do pre- sente. Atualmente, o mercado mostra traços de abertura e começa a convidar pessoas experientes para trabalhar em parceria com as ini- ciantes. Esse assunto já foi matéria de jornal, que mostra o idoso e o jovem satisfeitos com a colaboração entre ambos. O mundo com- petitivo é excludente e tende a não considerar quem não está dentro do padrão.

Nessa visão de mundo, que teve início no século XVII, todos os organismos devem funcionar de acordo com estatísticas, metas e resultados. As análises servem para fornecer a solução dos even- tuais problemas. Tudo é calculado por critérios que independem de valores éticos e morais. As pessoas são tomadas como “coisas”, como peças separadas de uma máquina que deve cumprir seu papel. São tratadas como mercadoria e serão descartadas se não repre sentarem fonte de lucro. No século XX, no entanto, esse concei to começou a sofrer transformações e a teoria da comple- xidade trouxe uma outra percepção de mundo. Na visão ecológica de Capra (2006b), os fenômenos são interdependentes. Esse con- ceito pode ser transposto para as comunidades humanas, como as empre sas, por exemplo, em que todos os funcionários são neces- sários para que a equipe funcione. Uns aprendem com os outros. Nesse sentido, o sábio aprende com o jovem e vice-versa (Torres, 2005, p.2-9).