3. TELECOMMUNICATION INDUSTRY DEVELOPMENTS
3.2 F UTURE T RENDS IN G LOBAL T ELECOMMUNICATIONS
Alma, deixa eu ver sua alma A epiderme da alma, superfície. Alma, deixa eu tocar sua alma
Com a superfície da palma da minha mão, superfície Easy, fique bem easy, fique sem nem razão
Da superfície livre Fique sim, livre
Fique bem com razão ou não, aterrize Alma, isso do medo se acalma
Todo pesar não existe
Alma, como um reflexo na água Sobre a última camada
Que fica na superfície, crise Já acabou, livre
Já passou o meu temor do seu medo
Sem motivo, riso, de manhã, riso de neném A água já molhou a superfície
Alma, daqui do lado de fora
Nenhuma forma de trauma sobrevive Abra a sua válvula agora
A sua cápsula, alma
Flutua na superfície lisa, que me alisa, seu suor O sal que sai do sol, da superfície
Simples, devagar, simples, bem de leve A alma já pousou na superfície27
A letra dessa canção apresenta elementos muito peculiares aos textos de Arnaldo Antunes, principalmente, ao tratamento de “concretude” dado a um determinado tema (alma), fugindo ao que poderia ser visto como transcendental ou místico. Nessa canção, em que a letra é composta por Antunes, a melodia por Pepeu Gomes e a interpretação de Zélia Duncam, a tematização da “alma” nos é apresentada por meio de atributos físicos como algo que pudesse ser tocado, palpado e/ou percebido por recursos sensoriais (tato, visão, etc.).
Essa noção de “concretude” pode ser vista como um traço de escritura de Arnaldo Antunes que, no curso de sua obra, procura interpretar determinado tema ou assunto na sua materialidade enquanto coisa, sem excessos líricos e/ou subjetivos.
Eu berro as palavras no microfone
da mesma maneira com que as desenho, com cuidado, na página.
para transformá-las em coisas, em vez de substituírem
27
as coisas28.
Essa característica da palavra enquanto coisa ganha contornos precisos em muitos
poemas e/ou canções de Antunes:
O corpo existe e pode ser pego. É suficientemente opaco para que se possa vê-lo. Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo(...) O corpo se cortado espirra um líquido vermelho (...) o corpo tem alguém como recheio.29
O fragmento transcrito ilustra um pouco do que foi abordado até o momento e aproxima-se do tratamento associativo e descritivo dado ao elemento “alma” no texto em questão. Tocando na questão da subjetividade (o corpo tem alguém como recheio), o poeta parece conter o impulso lírico e, misturando descrição e metáforas, consegue, poeticamente, oferecer uma leitura diferenciada do tema abordado, materializado em linguagem aparentemente despojada e simples.
Retomando a letra da canção, constata-se que a relação estabelecida, ou pelo menos anunciada, é demarcada pelo desejo do sujeito da enunciação de conhecer o “outro”. Tal conhecimento atravessa o campo sensorial, como se a “alma” pudesse ser tocada (epiderme), vista (reflexo na água), desvendada (abra sua cápsula / válvula). Essas são algumas imagens atribuídas à “alma”. Tais imagens giram em torno de uma concepção de “alma” que apresente ou contenha uma dada noção de superfície (epiderme, camada, válvula, etc.), e, conseqüentemente, possa ser conhecida. É nesse percurso que os sujeitos da canção, designados pelas marcas pronominais (deixa eu ver sua alma), aparecem no texto.
Se há um desejo de conhecer o “outro”, anunciado pelo sujeito da enunciação, esse desejo caracteriza-se como uma forma de pedido (deixa eu ver / deixa eu tocar) e não por imposição. Servindo-se desse recurso, talvez o “encontro” se realize de forma espontânea,
28 Antunes, 2001 29 Antunes, 2002
“livre”, ou de maneira menos traumática, como apontam outras expressões da letra da canção: “isso do medo se aplaca”, “todo pesar não existe”, “já passou o meu temor do seu medo”. A escolha das palavras “medo”, temor”, “pesar”, associadas ao verso “nenhuma forma de trauma sobrevive”, também associado ao verbo “abrir” (abra a sua cápsula/ vávula”), corresponde a uma certa idéia de libertação (fique sim, livre), que aponta para o “encontro” (amoroso?) com a “alma/outro”, ou com a alma do outro (flutua na superfície lisa, que me alisa...).
Repousa, na letra da canção, um certo procedimento de apreensão do elemento “alma” a partir da recusa de captá-la como essência, transcendência ou profundidade. Trata-se de uma estratégia de conhecimento de superfície (tato), “daqui do lado de fora”, fora do sujeito. A alma e os sujeitos sofrem um desdobramento da essência para a superfície, que, de alguma maneira, associa-se à frase “o mais profundo é a pele”, de Paul Valery, citada por Deleuze (1992).
Se o texto da canção Alma procura discutir o elemento “alma” no seu aspecto material, como algo que pode ser tocado, sentido, observado e destituído de essências, o poema Superficialma, publicado no livro Palavra Desordem (2002), oferece uma leitura particularizada do texto da canção, sobretudo pelo aspecto de superfície. O poema encontra-se disposto no livro tal como foi colocado aqui no corpo deste trabalho, deslocado para o lado direito da página, na posição vertical. Na escrita do poema, Antunes utiliza letras maiúsculas com espaços em branco no interior de cada letra.
O poema dialoga diretamente com o texto da canção Alma, em princípio, pela utilização das palavras “alma” e “superfície”, fundidas pelo processo de elisão (“superficialma”), e por aproximar-se diretamente de um dos aspectos fortemente abordados no texto da canção: a alma e sua superfície. Embora o aspecto melódico da canção “alma” não seja o foco da questão, não há como desconsiderar o fato de que na canção acontece a fusão das palavras “alma” e “superfície”, resultando, sonoramente, na expressão “superficialma”. Ao captar essa particularidade sonora da canção, Antunes transforma-a em outro poema, saindo do encarte de CD para a página do livro.