Del Rio e Oliveira (1999), na obra “Percepção Ambiental: a experiência brasileira” classificam os estudos e pesquisas expostos no livro em três grupos, de acordo com a natureza de seus referenciais teóricos:
1. Estudos que visam nortear projetos e intervenções ambientais e são de relativa importância a arquitetos e urbanistas.
2. Estudos que buscam a interpretação dos fenômenos perceptivos e que contribuem para a compreensão da realidade percebida.
3. Estudos que visam à formação de sistemas de valores e à interpretação da realidade e são relativos à Educação Ambiental.
Marin (2008) agrupou as categorias definidas por Del Rio e Oliveira (1999), assim como os focos de estudo e os referenciais teóricos dos trabalhos apresentados na obra anteriormente citada (QUADRO 1).
Categorias Focos de Estudo Referenciais
Intervencionista Arquitetura e Urbanismo Lynch e Cullen
Interpretativa
Percepção como fenômeno de comunicação
Semiótica Charles Peirce, Saussure, Barthes e Umberto Eco. Compreensão fenomenológica do MA Geografia Humanística –
Tuan Construção Social da imagem, comportamento
social.
Construtivismo Social Sociologia Educacionais Formação do Conhecimento, Sistema de Valores,
ensino de classes populares, percepção de riscos ambientais.
EA, áreas específicas relacionadas aos temas. Fonte: Natureza Teórica de Pesquisas sobre Percepção Ambiental, modificado de Marin (2008)
Como esta dissertação se propõe produzir informações na área de formação do conhecimento e Educação Ambiental descrevera-se apenas trabalhos relacionados à categoria educacional e à construção de instrumentos de mensuração da percepção ambiental. Segundo Palmas (2005), a pesquisa de percepção ambiental pode ser utilizada pelas mais variadas áreas do conhecimento e por meio da análise destes estudos se podem conhecer os anseios de uma comunidade e propor melhorias. A percepção interessa a diversas ciências, pois não se pode começar a entender a percepção humana do mundo se não compreender também algo sobre o mundo, como um conjunto de feitos físicos naturais e humanos (RIBEIRO et al., 2009).
Segundo o mesmo autor, citado anteriormente, existem pensadores que afirmam que os estudos de PA devem ser realizados antes de se realizar um projeto ou programa de Educação Ambiental, pois dessa forma, poder-se-á conhecer quais são os conhecimentos, interesses, vivências, necessidades e prioridades daquelas pessoas.
Conhecendo o nível de conhecimento, sensibilizações ambientais e boas ou más práticas ambientais de um grupo de pessoas, é possível direcionar as atividades de educação ambiental. Dentro desta linha, Palmas (2005) realizou uma pesquisa para avaliar o grau (índice) de concordância em relação à conscientização ambiental e o grau de importância ao Meio Ambiente de alunos, funcionários e professores da UFRGS com o objetivo de diagnosticar a percepção ambiental da população-alvo e direcionar futuros programas e projetos de educação ambiental na área de resíduos sólidos, melhorando assim a gestão dentro da Universidade. Palmas concluiu que, os atores da UFRGS se mostraram muito preocupados com os problemas ambientais, mas pouco fazem em relação às questões ambientais levantadas no estudo de percepção e, sugere que, toda a comunidade Educativa da Universidade seja envolvida em projetos de Educação Ambiental para que esta sensibilização se reflita em mudanças comportamentais.
Por outro lado, Brandalise et al. (2009) em um estudo comparativo entre universitários que possuem disciplinas relacionadas à questões ambientais com outros que não as possuem, concluiu, baseado apenas na interferência gerada pelas disciplinas direcionadas às questões ambientais, que a conscientização ambiental não está associada ao grau de educação ambiental recebida por meio das disciplinas em questão. Já levando em conta a percepção ambiental como ferramenta para avaliar a sensibilização ambiental dos indivíduos.
Vestena (2003) realizou um estudo para avaliar o nível de sensibilização ambiental de alunos do ensino fundamental, especificamente das 3ª e 4ª séries, de escolas públicas e privadas, situadas na bacia hidrográfica do Rio Belém, o qual atravessa uma área intensamente urbanizada do município de Curitiba, no estado do Paraná, e apresenta segundo a autora um elevado grau de degradação ambiental. A partir dessa avaliação a autora realizou uma análise sobre o nível de conhecimento e da percepção desses alunos quanto às condições ambientais do Rio Belém, considerando-se as metodologias empregadas pelos professores na prática da Educação Ambiental neste nível de ensino. Foram aplicados questionários com questões abertas aos alunos e realizadas e entrevista com professores das 3ª e 4ª séries pesquisadas. Os resultados obtidos mostram que grande número de alunos das 3ª e 4ª séries apresentam pouca sensibilização ambiental, apesar de a grande maioria conhecer o Rio Belém. Os autores concluíram que as metodologias empregadas pelos professores na prática da Educação Ambiental não estão alcançando seus objetivos propostos.
Knopki et al. (2008), fez uma avaliação da percepção ambiental dos moradores da Bacia Hidrográfica do Rio Belém na cidade Curitiba, Paraná. O trabalho em questão buscou verificar se, os comportamentos que levam à degradação ambiental são provenientes da percepção ambiental que os moradores locais têm desta importante bacia hidrográfica do Município. Para tal, elaborou um questionário de percepção ambiental estruturado por três indicadores principais (de contato, importância e de participação), com objetivo de chegar a um índice de percepção ambiental dos moradores composto pela média dos três indicadores. Os autores concluem evidenciando que os moradores pertencentes aos bairros compreendidos pela Bacia Hidrográfica do Rio Belém possuem uma percepção básica referente à localização do rio e do mau estado de conservação de suas águas, e mesmo que estejam dispostos a participar de ações voltadas à recuperação deste manancial, não atribuem caráter prioritário a esta questão.
Caldas e Rodrigues (2005) investigaram uma comunidade ribeirinha do nordeste do Brasil e sua relação com os processos ambientais daquele ambiente. Os autores aplicaram questionários a 174 usuários do rio Magu de três dos mais relevantes municípios (Araioses,
n=93, Água Doce, n=41 e Santana, n=39). O estudo foi qualitativo e valorizou as observações espontâneas dos entrevistados com o objetivo de levantar a história de uso e a situação ambiental da bacia hidrográfica e atividades educativo-interativas, relacionadas à gestão da bacia, foram adotadas para traçar a percepção ambiental e a sensibilização da comunidade na forma de um diagnóstico participativo apoiado por mobilização popular. O diagnóstico segundo os autores (CALDAS e RODRIGUES, 2005) evidenciou baixo desenvolvimento socioeconômico local com atividades essencialmente domésticas e de subsistência e revelou um bom entendimento da comunidade acerca dos impactos das atividades humanas no ambiente. Porém, os autores destacam que esta percepção não tem sido suficiente para modificar a o atual manejo dos ribeirinhos com relação aos recursos locais.
Os trabalhos expostos acima abordam a principal questão de interesse desta dissertação, já que a literatura destaca que um dos principais objetivos de pesquisas desta natureza é justamente conhecer a forma que determinados indivíduos percebem um assunto em particular (neste caso o meio ambiente) para que processos educativos os ajudem a evoluir sua percepção sempre buscando um maior entendimento da realidade que os cerca e que este entendimento os levará a um comportamento equivalente e no mesmo sentido de sua predisposição interna.
Embora esta dissertação não se proponha a avaliar se a educação ambiental permite uma maior percepção ambiental, estudos futuros poderão fazê-lo já que esta pesquisa pode caracterizar um marco zero com relação à percepção ambiental dos moradores da área urbana de cidades e processos educativos direcionados a estas questões e futuras avaliações da percepção ambiental (com os mesmos temas abordados no instrumento desta pesquisa) poderão mensurar se há ou não progresso no ato de perceber o meio que cerca a população urbana pesquisada.
Uma utilidade extremamente importante de trabalhos que avaliam a percepção ambiental dos indivíduos é servir de material para a elaboração de politicas públicas. Oliveira e Corona (2008) realizaram um estudo com o objetivo de sobre a percepção ambiental como ferramenta para a elaboração de políticas públicas relacionadas ao meio ambiente. Os autores concluem que o estudo sobre a percepção ambiental é um meio de compreender como os indivíduos de uma cidade sociedade adquirem seus conceitos e valores e conhecimentos e como são sensibilizados sobre as questões ambientais.