A história da Zentropa se inicia antes da fundação da empresa e sua concepção está diretamente relacionados à filmografia do diretor Lars Von Trier. A primeira obra do cineasta a ganhar uma projeção relevante foi o média-metragem Images of a Relief (1982), filme rodado sem patrocínio no final da Segunda Guerra Mundial. Neste trabalho, o diretor trata da guerra, mas através do ponto de vista de um nazista. Desde a época da faculdade ele provocava os alunos e professores por não optar por narrativas com engajamento político e o fez justamente em um período que a ojeriza ao nazismo prevalecia na Dinamarca. Images of a Relief foi selecionado para o Festival Europeu de cinema Universitário de Munique. O média levou um prêmio do Channel 4 Television e foi o primeiro filme universitário a ganhar projeção comercial no país, posteriormente foi comprado pela Danish TV.
O primeiro longa-metragem de Trier foi The Element of Crime(1984); suspense policial sobre um detetive que após ser expatriado volta para o Cairo para trabalhar no caso do assassinato e estupro de uma criança. O filme recebeu um financiamento de 3,5 milhões de krones dinamarqueses do Danish Film Institute (DFI) - o diretor teve o filme aprovado pela DFI mesmo contrariando a instituição ao se negar a retirar uma cena do suicídio do roteiro -. Trier também manteve o filme em inglês e a maioria dos atores eram do Reino Unido (o realizador novamente ia de encontro às leis fílmicas na Dinamarca, que exigiam que os projetos fossem rodados em dinamarquês e que mais da metade da equipe técnica e artística fosse nascida no país). Esta é a primeira parceria entre o diretor e a DFI, que ajudou a projetá-lo no mercado internacional apesar dos eventuais atritos. Além do incentivo da DFI, mais 1 milhão de krones foram investidos pelo produtor Per Holst. Em The Elements of Crime se evidencia esse apoio econômico do governo, iniciativa comum quanto às políticas de incentivo européias no período da produção, porém o filme também conta com capital privado de Holst. Para ELSARSSER(2005) a ideia de um cinema europeu exclusivamente financiado por fontes públicas é ultrapassada e as atuais fontes de financiamentos são mais diversas; o que transparecerá ao longo da filmografia citada.
Destaca-se nesta obra a escolha da língua inglesa pelo cineasta no lugar de filmar utilizando o idioma de origem, como outros diretores europeus (Ingmar Bergman, Federico Fellini). O fato de Trier optar pela negação do dinamarquês, pode
levar a classificar tal atitude como uma rendição a uma indústria cultural americanizada de consumo, como uma atitude de negação à sua própria cultura; se valendo de uma visão mais radical da Teoria Crítica ADORNO(2002). The Element of Crime foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes em 1984; desde 1975 o festival não recebia um filme dinamarquês. Trier venceu o prêmio técnico do festival, mas não ganhou a Palma de Ouro e em um de seus primeiros escândalos públicos, declarou que teria sido uma atitude covarde do júri.
Após uma tentativa frustrada de parceria com um produtor alemão (Bernd Eichinger da Neue Constantin Film teria proposto um orçamento justo para o novo projeto, mas Trier o negara afirmando se tratar de um acordo criativo sufocante) e um breve intervalo produzindo publicidade, Trier propôs ao DFI produzir um filme comercial por 1 milhão de de krones; a partir desse momento nascia Epidemic (1987). Ao se propôr a produzir um filme comercial Trier protagoniza uma contradição, visto que parecia bastante rígido com a liberdade criativa de suas produções, como mostra no episódio anterior com o produtor alemão. Quais seriam as intenções de Trier em produzir um filme categorizado pelo próprio como comercial? Seria apenas uma estratégia de aprovação de um projeto que se transformaria futuramente? Como pontua Adorno, nem sempre a pressão econômica pode ser revertida de forma positiva no processo de criação: “No próprio cinema, os momentos industriais e estético- artesanais divergem sob a pressão sócio-econômica. A industrialização radical da arte, a sua adaptação integral aos padrões técnicos alcançados, colidem com o que na arte se recusa à integração.” (ADORNO, 2002, p.120). Se por “padrões técnicos” se subentende o filme comercial ao qual Trier se refere e por “adaptação integral” se subtendem as possíveis limitações criativas temidas pelo diretor, parece um paradoxo de Trier optar por realizar uma obra com essas particularidades.
Além do financiamento com a DFI, o cineasta junto com o roteirista Niels Vorsel fundou a produtora Element Film e juntos conseguiram mais 200 mil krones em fundos privados de incentivo e 181 mil krones com fundos públicos de realização fílmica. No entanto, apesar da imagem de cinema comercial que o diretor divulgou do filme para seus investidores, ele teve liberdade de criação. Pois, pelo fato do financiamento ser baixo não existiram cobranças dos patrocinadores. Logo, assim que recebeu a aprovação, o longa automaticamente se transformou em um filme laboratório para o diretor, desvinculado de limitações criativas. (STEVENSON, 2002)
Epidemic foi filmado em dinamarquês para atender às exigências da DFI. No longa, o personagem de Trier é um diretor de cinema que produz um filme sobre uma epidemia e a trama se passa em um contexto apocalíptico. A obra foi exibida na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e ganhou os prêmios da Associação de Críticos de cinema de Copenhagen (Bodil Award) e da Academia de Cinema da Dinamarca (Robert Award). No entanto, o Epidemic não teve bons resultados nas bilheterias, na Dinamarca foram apenas 5 mil espectadores.
O próximo trabalho do diretor seria um filme para a televisão; Medea (1988), um projeto do canal de televisão público dinamarquês Danmarks Radio. Em Medea o dinamarquês fez uma livre adaptação do roteiro do diretor conterrâneo Carl Theodor Dreyer.