6. NIFs interessenter
7.3 Spillemidler, overføringer og insentiver
marxista da linguagem, partindo do princípio de que o Marxismo não se resume apenas a uma forma de conceber as relações entre indivíduos e classes, tão pouco se relaciona somente a um sistema econômico ou a um projeto político-ideológico de uma época. A teoria marxista é mais ampla, pois se constitui como fundamentação de diversas dimensões da atividade humana, opondo-se a outras concepções teórico-filosóficas, como a metafísica, por exemplo, que segmentam a realidade em categorias distintas.
A teoria marxista da linguagem que Bakhtin expressa em Marxismo e Filosofia da Linguagem traz uma oposição ao linguista Ferdinand de Saussure e aos seus discípulos (o objetivismo abstrato), ao formalismo russo (Círculo Linguístico de Moscou, OPOYAZ), ao subjetivismo idealista de Wilhelm von Humboldt e suas vertentes e ao psicologismo funcionalista – e nessa critica os fundamentos de Kant –, e à fenomenologia. Dentro dos limites teórico-metodológicos de suas concepções, Bakhtin elabora uma visão de mundo que epistemologicamente fundamenta-se no dialogismo e no materialismo histórico- dialético.
Para Bakhtin, o sujeito e o objeto do conhecimento estão indissoluvelmente conectados ao contexto social. Ele adota os princípios fundantes do materialismo e não descarta o determinismo econômico que define as ações humanas. Enquanto Marx relata em seu Prefácio à Contribuição a Crítica da Economia Política, de 1859, o conjunto das relações do modo de produção, suas formas e a estrutura condicionantes dos processos sociais
lemos uma compreensão um tanto semelhante em Marxismo e filosofia da linguagem com relação aos conceitos de infraestrutura e superestruturas. Segundo o autor russo:
A psicologia do corpo social não se situa em nenhum lugar “interior” (na “alma” dos indivíduos em situação de comunicação); ela é, pelo contrário, inteiramente exteriorizada: na palavra, no gesto, no ato. Nada há nela de inexprimível, de interiorizado, tudo está na superfície, tudo está na troca, tudo está no material, principalmente no material verbal.
As relações de produção e a estrutura sociopolítica que delas diretamente deriva determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, todas as formas e os meios de comunicação verbal: no trabalho, na vida política, na criação ideológica. Por sua vez, das condições, formas e tipos da comunicação verbal derivam tanto as formas como os temas dos atos de fala (BAKHTIN, 2010, p. 43).
Segundo Henriques (2007, p.4), na concepção bakhtiniana “a significação dos objetos, ultrapassa as suas materialidades, traduzem-se em signos com funções sociais e que se determinam na organização da vida material em geral”. Para Bakhtin, a realidade é signica e os signos só podem surgir em um terreno de confluência entre sujeitos socialmente organizados. O signo ideológico é uma unidade constitutiva da consciência humana, a qual, por sua vez, é constituída por valores sociais, ideológicos ou coletivos, lembrando que a ideologia, para Marx, é um reflexo da existência social e do sistema econômico que predomina em dado momento, sendo, por consequência, o reflexo da luta de classes.
Nesse âmbito, Bakhtin enxerga a linguagem como um constante processo de interação mediada pelo diálogo - e não apenas como um sistema autônomo. A palavra não pode ser entendida apenas em seu sentido de dicionário, mas por meio dos enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos na comunicação efetiva com as pessoas que nos rodeiam. Nesse sentido, o sistema linguístico é completamente independente de todo ato de criação individual.
Com relação à palavra “interação”, faz-se uma ressalva de que ela é preferível pelos linguistas marxistas à palavra “comunicação”, conforme explica Costa (2000):
A concepção de linguagem como comunicação não é muito cara a alguns autores marxistas. Eles assumem uma postura crítica em relação ao termo, que pode dar a entender que sujeitos livres relacionam-se livremente mediante a linguagem, o que seria uma visão idealista, no sentido de não
conferir com a realidade. Além disso, a palavra comunicação sugere pleno entendimento entre sujeitos, o que, de igual forma, nem sempre corresponde ao real. Por fim, pode-se entender o termo em questão como transmissão de informações de um sujeito para outro sujeito através de um veículo, o que suporia conceber a linguagem como um código, algo que certamente constitui uma de suas dimensões, mas que diz muito pouco da complexidade do fenômeno linguístico. Portanto, uma teoria marxista da linguagem deve ir além de uma concepção comunicativa. (COSTA, 2000, p.4).
Retomando Marx, em A ideologia alemã (2007), o filósofo mostra-se preocupado com a ausência da concretude sócio-histórica nas formulações de um grupo de filósofos alemães identificados como Jovens Hegelianos ou Hegelianos de Esquerda, principalmente Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner, que tinham uma visão idealista do mundo mesmo quando criticavam o idealismo de Hegel. Por seu turno, Bakhtin também tem a gênese das suas teorias no confronto de ideias; no seu caso, a oposição é ao subjetivismo idealista.
Em A ideologia alemã vemos como Marx e Engels compreendiam a produção da consciência. Para eles, não é a consciência que produz as condições materiais dos homens, mas o inverso. Sobre consciência e linguagem, os autores afirmam:
A linguagem é a consciência prática, a consciência real, que existe também para os outros homens e que, portanto, começa a existir também para mim mesmo; e a linguagem nasce, assim como a consciência, da necessidade, da carência de intercâmbio com os demais homens. A consciência é, portanto, já de antemão, um produto social, e o seguirá enquanto existirem seres humanos (MARX & ENGELS, 2007, p.53).
As bases materiais da consciência são, portanto, as mesmas da linguagem. Assim, entender o sistema linguístico como desvinculado dos homens em condições concretas reais caracteriza esse sistema como idealizado e o próprio indivíduo como ser idealizado. A palavra, na compreensão bakhtiniana, é neutra porque pode ser preenchida por qualquer função ideológica. Assumir que a palavra é neutra não é a mesma coisa que a considerar unívoca, mas é admitir, contrariamente, que ela serve a todas as relações sociais, pois é munida de inúmeros sentidos ideológicos. O sentido da palavra revela-se, em última instância,
nas interações sociais. Na esteira de Marx, a interação se dá entre indivíduos reais, sob a dinâmica do materialismo histórico.
É importante destacar que a classe dominante confere ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, visando abafar outras visões de mundo e tornar o signo monovalente. Em outras palavras, a classe dominante apresenta o seu próprio interesse como interesse de todos os membros da sociedade, conferindo universalidade às suas ideias.
O conceito de signo ideológico e o entendimento de que a interação verbal constitui a realidade fundamental da língua são as bases da teoria sobre a filosofia da linguagem de cunho marxista de Bakhtin. Trata-se da interação de indivíduos históricos, socialmente organizados em condições concretas e materiais de existência e que vivem imersos em uma estrutura econômica que define suas ações e falas no mundo, entendimento este em consonância com a compreensão epistemológica de Marx sobre o ser humano e sobre a realidade.