Quando falamos em experiência e em modos de relacionamento com o mundo (os indivíduos, as organizações, as redes de sociabilidade, o construído, o interacional`), estamos necessariamente a remeter para o estudo daquilo que podemos designar, na linha de Harold Garfinkel (1967), como etnométodos: o estudo dos métodos que os indivíduos utilizam quotidianamente para a produção de ordem social, ou seja, as práticas que favorecem a apreensão e a construção de sentido(s) sobre o mundo31.
Como já referimos, e como veremos mais adiante em detalhe, os espaços (urbanos ou não urbanos) poderão tender a ser assumidos, tanto pelos/as investigadores/as como pelos/as que os/as habitam, como cenários, ou seja como aspetos negligenciáveis, estáticos, intransformáveis e não influentes das relações que os indivíduos estabelecem entre si, entre grupos e com organizações. A nossa posição nesta tese é outra: da mesma forma que
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Utilizamos, aqui, o termo “informantes” para designar os indivíduos e as organizações com os/as quais contactámos no decorrer deste processo investigativo, com vista ao desenvolvimento de atividades de recolha de dados.
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Quanto a estes últimos, tal verificou-se de acordo com aquilo que Luís Porta e Miriam Silva (2003) identificam como o processo de «desarollo de categorías de codificación», que consiste «en un proceso de clasificación de datos en torno a ideas, temas y conceptos que irán emergiendo de la lectura del propio material de estudio», processo este que conduz à identificação das chamadas «categorias emergentes» (Porta & Silva, 2003).
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O autor define, então, “etnometodologia” como «the investigation of the rational properties of indexical expressions and other practical actions as contingent ongoing accomplishments of organized artful practices of everyday life» (Garfinkel, 1967, p. 11).
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entendemos que «the education of individuals is something that goes beyond not only the physical boundaries of the school and other traditional socialization institutions (like the family), but also beyond the time frame of the so-called ‘school age’» (Lúcio & Neves, 2010, p. 484), advogamos um entendimento mais complexificante e abrangente da cidade, assumindo, de acordo com Bernet (1990) que
«to label a phenomenon as educational is to say that it is (`) content, means and agent of education; to state that the city is educating is, therefore, to say that it is possible to learn the city, to learn in the city and to learn from the city»32 (Lúcio & Neves, 2010, p. 485).
No quadro deste projeto, parece-nos possível identificar etnométodos que regem a relação com pelo menos dois referentes concretos: por referência aos modos de entender o lugar de determinado indivíduo, determinado grupo e/ou determinada organização na cidade enquanto espaço de vida em comunidade – ou seja, os papéis, os direitos e as responsabilidades de uns/umas e outros/as; e por referência aos espaços e tempos de ação de indivíduos, grupos e/ou organizações uns/umas sobre os/as outros/as e sobre os diversos aspetos da vida na cidade. Num e noutro casos, estamos a referir-nos a aspetos práticos do quotidiano de indivíduos e organizações, ou seja, questões que remetem para a operacionalidade da relação entre estes/as e a cidade. No entanto, e porque desta investigação não fez parte uma dimensão de recolha de dados através da observação direta, os dados foram recolhidos em “ambientes artificiais”: por exemplo, solicitámos a crianças e jovens que nos falassem sobre a sua relação (passada e presente) com a cidade e sobre as suas perceções quanto ao seu potencial educativo, mas fizemo-lo em contexto de sala de aula; da mesma forma, convocámos representantes de associações locais de cidadãos/ãs para discutirem o alcance sócio-educativo da ação destas organizações, mas no espaço da Junta de Freguesia. Assumimos, por isso, o objetivo de uma «interpretação não reducionista dos discursos que se
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consideram contextualizados, produzidos por um determinado sujeito numa determinada situação» (Silva, 2008, p. 74).
Por outro lado, interessa-nos igualmente o processo que Garfinkel (1967) designa como «making commonplace scenes visible» (Garfinkel, 1967, p. 36), uma vez que, como já vimos, em muitos dos estudos sociológicos e educativos, a cidade (ou o lugar, seja ele qual for) surge como “pano de fundo”, cenário contra o qual decorre a vida dos indivíduos e das organizações; a cidade emerge amiúde como uma espécie de “adquirido”, algo de natureza previsível e expectável, ao qual, conforme explicita Garfinkel (1967) os indivíduos e as organizações reagem, mas cuja relevância (i.e. o grau de influência que sobre eles/as exerce) têm dificuldade em assinalar. Estamos, de qualquer forma, a referir-nos ao domínio do discurso sobre as práticas, e não ao domínio da observação das práticas. Não obstante, revemo-nos na consideração de Garfinkel (1967), de que «a concern for the nature, production, and recognition of reasonable, realistic, and analyzable actions is not the monopoly of philosophers and professional sociologists» (Garfinkel, 1967, p. 75), mas sim de todos os elementos (indivíduos, grupos e organizações) de uma comunidade.
Apesar de «assentar na observação participante» (o que não é o caso desta investigação), o método etnográfico fornece-nos alguns constructos para enquadrar epistemológica e metodologicamente o projeto que aqui se apresenta e discute, principalmente enquanto pressupõe o estabelecimento de «relações prolongadas de sociabilidade e confiança com os sujeitos» (Neves, 2008, p. 53). No início deste capítulo, discutimos já algumas questões que são igualmente relevantes para o desenvolvimento de um estudo de natureza etnográfica, como a gestão dos sentimentos de estranheza e familiaridade por parte do/a investigador/a e o seu posicionamento, face ao objeto da investigação, enquanto outsider ou insider. Sendo um método que visa a recolha e análise de dados (principalmente, notas de terreno), é também (ou poderá ser) um método de produção do/a investigador/a, enquanto indivíduo, membro de (uma) comunidade(s), produtor/a de conhecimento e
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“interpretador/a” de conhecimento(s) produzido(s) por outros/as33: é neste âmbito que a investigação de que aqui se dá conta mais se aproxima, parece- nos, da investigação etnográfica. Por outro lado, e conforme explicita Sofia Marques da Silva (2004), «se existe uma visão microscópica a que a etnografia nos dá acesso de imediato, também é certo que ela permite que várias vozes se exprimam sobre múltiplas verdades, o que nos aproxima de uma visão mais próxima da caleidoscópica» (Silva, 2004, p. 49); entre estas vozes, que emergem dos/as diversos/as atores/as sociais (indivíduos, grupos e organizações) encontramos, evidentemente, a voz do/a investigador/a, responsável último pelo que Tiago Neves (2008) designa como «conto etnográfico», produto escrito sobre o qual recai «a responsabilidade de traduzir o processo de pesquisa e estabelecer uma mediação entre investigador, objeto de pesquisa e audiência» (Neves, 2008, p. 54). O trabalho de investigação que aqui se apresenta e discute não é, claramente, um trabalho de natureza etnográfica, mas é, no entanto, um percurso investigativo em que algumas das preocupações e orientações que assistem à investigação etnográfica estão também presentes, uma vez que, em síntese: interessámo-nos por discursos produzidos por atores/as sociais e educativos que não são, habitualmente, convocados para o processo de tomada de decisões sobre a vida na cidade, como as crianças e os/as jovens, as instituições educativas/formativas e as associações de cidadãos/ãs; as questões relativas à natureza e à forma das relações que o/a investigador/a estabelece com o objeto da investigação são fundamentais; preocupámo-nos com a pluralidade de vozes e de formas de as “escutar”, por não concebermos a “Cidade Educadora” de acordo com um modelo unívoco e unidirecional de experiência de vida no contexto urbano, mas precisamente enquanto expressão da diversidade e, simultaneamente, do trabalho cooperativo.
De acordo com Thomas H. Eriksen (2001), «anthropology distinguishes itself from other social sciences through the great emphasis placed on ethnographic fieldwork», que se desenvolve com o objetivo de «developing as
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Conforme explicita Tiago Neves (2008), «o investigador, sujeito entre sujeitos, não é portanto imune ao meio e aos seus atores», pelo que a etnografia se constitui enquanto método que promove «a transformação pessoal do investigador através da sua ressocialização num novo contexto» (Neves, 2008, p. 54).
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intimate com understanding as possible of the phenomena investigated» (Eriksen, 2001, p. 24); para este autor, ao longo do processo de permanência no terreno, o/a investigador/a (no caso, o/a antropólogo/a, mas arriscamos afirmar que esta condição se aplica a outros/as investigadores/as no campo das Ciências Sociais e Humanas) pode assumir uma diversidade de papéis34, quer por escolha próprio/a, quer por atribuição por parte daqueles/as com quem partilha o terreno da investigação, que condicionam, necessariamente, as relações que se estabelecem entre este/a e o objeto da sua investigação.
No que diz respeito ao trabalho de campo numa investigação localizada num contexto urbano (como é o que caso desta), Eriksen (2001) considera que, pela habituação a uma miríade de estímulos e a lógicas espácio-temporais mais complexas do que aquelas que, tendencialmente, encontramos em ambientes periurbanos e não-urbanos, «urban fieldwork tends to be more discontinuous than village fieldwork, and often depends on more formal methods, such as the structured interview» (Eriksen, 2001, p. 25).
Neste trabalho, não temos o objetivo nem a capacidade de comparar os dois contextos (urbano e não-urbano), mas aproximamo-nos da questão identificada pelo autor, uma vez que também nos confrontámos, ao longo do processo de permanência no terreno, com um certo sentimento de descontinuidade, nomeadamente pela circunscrição espácio-temporal dos contactos que estabelecemos ao nível organizacional (com escolas, associações e empresas). Apercebemo-nos, no mesmo sentido, que a vida das próprias organizações é caracterizada por uma certa fraturação (pela diversidade de públicos, iniciativas e solicitações a que estão sujeitas), pelo que sentimos necessidade de, não podendo (e não desejando) prolongar indefinidamente no tempo a imposição da nossa presença no terreno, adotar lógicas mais intensivas (menos extensivas) de recolha de dados num mesmo
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Eriksen (2001) sintetiza esta diversidade em dois ideais-tipo: o do palhaço (que o/a investigador/a pode assumir 1) propositadamente, com o intuito de provocar, nos/as seus/suas interlocutores/as, reações de alteridade que permitam a emergência de algum tipo de identidade de grupo ou insights sobre as formas de pensar de determinados indivíduos ou grupos, ou 2) acidentalmente, por quebra de determinado código de conduta) e o do perito (que tende a ser tratado pelos/as interlocutores/as com deferência e respeito, o que pode impedir o acesso do/a investigador/a a «aspects of society which the locals are ashamed of showing to high-ranking strangers» (Eriksen, 2001, p. 24).
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contexto/junto de um mesmo grupo. Assim sendo, e por exemplo, no que diz respeito ao nosso contacto com as associações de cidadãos/ãs, tivemos três momentos/formatos de recolha de dados, espaçados no tempo e possibilitando a participação de diversos/as representantes (em vez de apenas um/a): primeiro, entrevistas; depois questionários; e, finalmente, o grupo de discussão focalizada. Os dados assim recolhidos são, pela natureza das técnicas utilizadas, qualitativamente distintas (e por isso, objeto de abordagens analíticas e interpretativas distintas), mas, parece-nos, complementares, pela sua referência a um aspeto concreto – no caso, o quotidiano e as preocupações sócio-educativas subjacentes à ação destas organizações.
O quadro de referência de Eriksen (2001) é, evidentemente, o do trabalho do/a antropólogo/a enquanto investigador/a social e cultural; no entanto, o autor convoca, como já vimos, algumas questões que nos parecem relevantes para qualquer área das Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente acerca da possibilidade de desenvolver uma investigação qualitativamente relevante sobre um objeto sobre o qual o/a investigador/a tem pouco interesse, com o qual não consegue estabelecer uma relação de tipo empático ou em relação ao qual, eventualmente, nutre sentimentos negativos, de antipatia ou mesmo hostilidade: Eriksen (2001) considera, a este propósito, que «the value of participant observation lies in the quality of the empirical data one has collected, not in the number of close friends one has acquired in the field» (Eriksen, 2001, p. 27).
Enquanto processo investigativo localmente informado, construído e referenciado, estamos aqui perante aquilo que Eriksen (2001) identifica como «studies of small-scale localities» (Eriksen, 2001, p. 58), o que favorece, a nosso ver, a construção de um olhar mais compreensivo e mais complexo sobre os diversos aspetos da vida em comunidade; favorece, nesse sentido, o mapeamento dos padrões de interação (Eriksen, 2001), que é um dos aspetos mais relevantes da discussão apresentada nesta tese. O conceito de “sistema social”35, que Eriksen convoca em Small Places, Large Issues (Eriksen, 2001), está, a nosso ver, relacionado com o referido mapa dos padrões de interação,
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Eriksen (2001) define “sistema social” enquanto «a set of social relationships which are created and re-created through regular interaction» (Eriksen, 2001, p. 77).
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enquanto forma de identificar quem se relaciona com quem (indivíduo ou organização) e de que forma(s). Ao nível comunitário, um mesmo indivíduo pode experimentar a integração em diferentes sistemas (o casal, a família, o contexto de trabalho/estudo, o clube desportivo, o ritual religioso, etc., sistemas estes que podem tocar-se, caso dois ou mais indivíduos se relacionem em mais do que um), e nesse sentido desenvolver formas diversas de relacionar- se com a cidade. Quando estes sistemas de interação perduram no tempo, favorecem a emergência de «shared social and political institutions» (Eriksen, 2001, p. 87); não obstante, e conforme o próprio autor esclarece, esta partilha não é universal, na medida em que o acesso ao conhecimento não é feito de forma equitativa, e as representações sobre o social, podendo ser partilhadas, não o são obrigatoriamente. A nossa opção pelo recurso a grupos de discussão focalizada (que discutiremos em profundidade mais adiante) está relacionada com esta que é, também, a nossa perceção: pensamos que a partilha e discussão de formas de pensar a cidade e viver (n)a cidade potenciada pela participação num evento como este, potencia não apenas a definição de um retrato mais compreensivo da experiência sócio-educativa em contexto urbano, mas também, nos/as seus/suas participantes, o desenvolvimento de quadros de referência mais complexos e mais ricos.