Se para os indivíduos, grupos e organizações com os/as quais contactamos ao longo do processo investigativo, o conhecimento sobre o mundo e a construção/apropriação de modelos de relação com o Outro se processam em relação (na e pela interação), o mesmo acontece, sem qualquer dúvida, para o/a investigador/a. Conforme explicitam Júlia Oliveira-Formosinho e João Formosinho no prefácio de Visão Panorâmica da Investigação-Ação, de Lídia Máximo-Esteves, «o conhecimento profissional prático é uma janela para uma melhor compreensão e apropriação da prática profissional» (Máximo- Esteves, 2008, p. 8). Sendo este um processo investigativo em que se cruzam interesses de natureza teórica, metodológica e epistemológica (o que fazer e como fazer) com outros de natureza mais operativa (quem faz e onde faz), não
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podemos senão concordar que, mesmo para os/as mediadores/as sócio- educativos/as (ou especialmente para eles/as), “o caminho se faz caminhando” e se aprende a fazer fazendo. Este “fazer” (que é evidentemente informado pela formação e pela experiência de quem faz) não é, quase nunca, solitário, porque se informa junto de outros/as profissionais do terreno e dos/as próprios/as destinatários/as ou interlocutores/as do trabalho desenvolvido: «o conhecimento prático é construído em contextos culturais, sociais e educacionais específicos, tem características coletivas que cada profissional experiencia na sua história de vida» (Oliveira-Formosinho & Formosinho, in Máximo-Esteves, 2008, p. 8).
Amiúde, as iniciativas de investigação sobre as práticas profissionais emergem, como é o caso deste projeto, da necessidade sentida pelos/as próprios/as profissionais de construírem uma reflexão mais estruturada, teórica, epistemológica e empiricamente mais sustentada, sobre o trabalho que desenvolvem quotidianamente, com o objetivo de introduzirem mudanças no sentido da melhoria36 das respostas sociais e educativas que oferecem. Neste movimento, os/as profissionais tornam-se investigadores/as sobre as próprias práticas e sobre as práticas de outros/as profissionais como eles/as. Esta é uma das estratégias de produção de conhecimento que podemos incluir sob a designação de “investigação-ação”: é investigação sobre a ação, em ação. Outra lógica, ainda no domínio da investigação sobre a profissionalidade, é a da entrada dos/as ditos/as “peritos/as”, investigadores/as experientes, no terreno de ação de determinado grupo profissional, com o objetivo de, através de atividades planificadas e desenvolvidas em colaboração com os “sujeitos” da investigação, contribuir para a abordagem a questões entendidas como perturbadoras e a consequente transformação das práticas. Verifica-se, num movimento e no outro, uma certa diluição das fronteiras entre investigadores/as e investigados/as, entre “aqueles/as que produzem o conhecimento” e “aqueles/as que operacionalizam o conhecimento produzido”. Conforme explicita André Morin (1985), «la recherche-action (`) permettra aux chercheurs de devenir acteurs en s’impliquant, en appliquant sur eux le produit
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Por melhoria, entendemos a produção de respostas mais adequadas e mais eficazes, porque mais informadas e mais partilhadas.
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de leurs réflexions et en expliquant parfois dans l’action et hors de l’action certaines directives concernant leur devenir» (Morin, 1985).
Também no domínio da intervenção comunitária, ou do trabalho enquadrado pelo paradigma do Desenvolvimento Local, encontramos alguns exemplos de projetos que podemos designar como “de investigação-ação”: entre outros, podemos destacar os contributos de Tomás R. Villasante, que coordenou, em colaboração com outros/as autores/as, a edição de uma coletânea de quatro volumes sob o título Construyendo Ciudadanía, onde se apresenta um conjunto de projetos desenvolvidos no âmbito daquilo que designa como “investigação social participativa”37, “práticas locais de criatividade social”38, “metodologias e pressupostos participativos”39 e “redes e processos criativos”40; e de Sabina Habegger Lardoyet, que coordenou diversos projetos no âmbito daquilo que designa como «investigación acción participativa» (Lardoeyt & González, 2011, p. 2), nomeadamente o projeto “Com Málaga: Precariedad, inmigración y especulación en el territorio que habitamos”41 e outros integrando a metodologia da cartografia social42.
Apesar da variedade de contextos em que é mobilizada, a investigação- ação pode definir-se de acordo com um conjunto de traços gerais, que caracterizam a maioria das iniciativas que sob esta designação se podem agrupar: trata-se de iniciativas revestidas de intencionalidade, com o objetivo de produzir uma transformação em determinado contexto social (Dubost, 1983), nomeadamente ao nível dos modos de fazer (profissionais, comunitários, etc.). Michel Bataille apresenta e discute, no quadro da investigação-ação, o conceito de “investigador coletivo” (Bataille, 1980), «un
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Villasante, Montañés & Martí, 2000 38
Villasante, Montañés & Martín, 2001 39
Villasante & Garrido, 2002 40
Villasante, 2002 41
De acordo com informação disponível online, trata-se de um «proceso de investigación, acción, participación (IAP) en la provincia de Málaga [Espanha]», desenvolvido com o objetivo de «elaborar una serie de herramientas cartográficas útiles para transformar y mejorar las relaciones sociales, culturales y ambientales del territorio que habitamos» - http://www.trayectos.org/node/38, consultado a 13/12/2011
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Que discute, em co-autoria com Iulia Mancila, num artigo publicado online na plataforma “Areaciega”, criada pelo “Centro de Creación Arteleku - Tabakalera” (País Basco, Espanha), com o objetivo de disseminar textos e outros conteúdos no âmbito da arte e da criação contemporânea (Habegger & Mancila, 2006).
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sujet collectif de recherche et de pratique, agent de changement» (Bataille, 1980, p. 30), composto por todos/as aqueles/as que trabalham quotidianamente no terreno e sobre ele refletem: deixa-se, assim, de distinguir entre “teóricos/as” (aqueles/as que pensam sobre) e “práticos/as” (aqueles/as que fazem), para emergir um tipo de trabalho verdadeiramente cooperativo.
Como já referimos, o processo investigativo que aqui se discute reveste- se de uma série de especificidades que, ao mesmo tempo que o colocam em relação (por aproximação) com algumas abordagens metodológicas mais ou menos consolidadas no campo da investigação em Ciências Sociais e Humanas (como a fenomenologia, a etnometodologia e a investigação-ação), delas o distinguem. No que diz respeito concretamente à investigação-ação, conseguimos identificar alguns pontos de contacto: este é um trabalho a) de investigação que remete para b) saberes em ação, ou seja, a reflexão sobre uma prática profissional, e que inclui c) uma componente de intervenção, que, por sua vez, se constrói a partir da escuta e do contacto com d) os/as atores/as no terreno. No entanto, não nos é possível identificar uma intencionalidade eminentemente transformadora: ainda que possamos admitir que na reflexão sobre as práticas e os modelos de intervenção definidos pelo trabalho de mediação no domínio social e educativo possa vislumbrar-se uma orientação transformadora (ou, pelo menos, complexificante), esta é menos transparente por referência ao mundo das perceções. De facto, esta preocupação emerge apenas como pano de fundo, no sentido em que se assume o objetivo de promover relações de maior participação dos indivíduos, dos grupos e das organizações no desenvolvimento social e educativo da sua comunidade: entendemos que a visibilização mútua dos/as diversos/as atores/as sociais e das redes de cooperação, efetivas ou potenciais, bem como o estímulo à discussão de temas globalizantes, são promotores de uma maior participação cívica e política e, consequentemente, de estratégias de desenvolvimento mais concertadas e cooperantes. Conforme explicitam Matthias Finger e José Manuel Asún (2003), «a investigação-ação participativa é talvez o único exemplo de uma prática de educação de adultos que ultrapassa o mero despertar de consciências, ligando-a a uma mudança social concreta» (Finger & Asún, 2003, p. 147). Pensamos que é também nesse sentido que Ivan Illich
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(1970) aponta quando fala da necessidade de emergência de “redes” «which gave each man the same opportunity to share his current concern with others motivated by the same concern» (Illich, 1970).