• No results found

SPESIALISTHELSETJENESTEN

O resumo das discussões que fiz até aqui apoiado em Leontiev aponta que a evolução da consciência humana constitui-se indissociavelmente da atividade social em uma relação dialética que surge quando o sujeito se percebe nas suas relações objetivas.

A consciência se diferencia nessa capacidade objetiva de conhecer o mundo e na capacidade de criar signos lingüísticos, e, por intermédio deles, estabelecer um mecanismo constante e eficaz de comunicação objetiva entre os homens (a linguagem), como forma de planejar e acumular experiências, planejar atividades e coordenar o futuro.

Essa capacidade de diferenciação é marcada, segundo Leontiev (1978, 1983) por significações lingüísticas, que são produzidas e apropriadas pela e na coletividade e para o desenvolvimento dessa idéia, ele utiliza duas categorias básicas: o significado e o sentido.

Muito sinteticamente, posso apontar que o significado é produzido pelo grupo social e o sentido é a articulação desses significados com a experiência individual. Logo, ao viver em sociedade, o homem apropria-se dos significados prontos na sociedade, e o mundo exterior se torna interior, adquirindo novo sentido na sua atividade objetiva individual.

Proponho uma ampliação desse pensamento a partir das definições do próprio Leontiev (1978, 1983 p. 96), sobre a questão. Segundo ele o significado “é o reflexo da realidade independentemente da relação individual ou pessoal do homem a esta. O homem encontra um sistema de significações pronto, elaborado historicamente, e apropria-se dele tal como se apropria de um instrumento (...)” e o sentido, por sua vez, “é uma relação que se cria na vida, na atividade do sujeito” (Leontiev, 1978, 1983 p.97), isto é, ele é uma construção pessoal que depende das

35 condições objetivas e subjetivas de vida de cada indivíduo.

O sentido pessoal como vivência atual do sujeito foi considerado por Leontiev como uma das forças essenciais do desenvolvimento humano das necessidades do sujeito, que tomadas em separado, são produtoras de emoções diversas. No entanto, as emoções somente constituem sentidos pessoais quando se conformam em estados dinâmicos.

Vemos assim que, sentidos e significados se traduzem em um processo de significação que se configura como espaços do real que se fazem inteligíveis em suas formas concretas atuais, mas que não se desvelam imediatamente em seus aspectos constitutivos. Configuram-se em direções estáveis de produção de conhecimento e podem ser compreendidos como o uso do conceito em suas múltiplas inter-relações.

Melhor explicando, o indivíduo esforça-se por significar suas vivências, porque isso é exigido pela sua necessidade de agir sobre o mundo e de organizar-se intelectual e psicologicamente. Nesse esforço, ele agrega/ seleciona e recusa atributos às palavras, cria vinculações de oposição, de complementaridade, de sinonímia entre elas, amplia-as além de seu significado puro e simples. Como atividade especificamente humana, exige a presença do outro, do diferente, em um permanente diálogo/ confronto.

Ao utilizar determinados conceitos, as pessoas o fazem utilizando toda a carga de sentidos (ou seja, todo o peso subjetivo, as vivências pessoais expressas naquela palavra) e de significados (carga objetiva, ou pelo menos com parte da subjetividade social, que o grupo cultural atribui ao conceito). Assim, em nossas falas se expressam, imbricados, as construções individuais e os significados que são assumidos pelo grupo ou grupos a que pertencemos. Internalizar, nesse caso, é se apropriar dos "meios de operação das informações, meios estes historicamente determinados e culturalmente organizados" (LURIA, 1988:27).

O sentido é constitutivo do significado e vice-versa, um explica o outro, eles se incluem e se excluem ao mesmo tempo; um não existe sem o outro.

Aqui penso que Vygotsky (1934, p.465) é quem esclarece melhor essa questão quando afirma que:

36

(...) o sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas de sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso (...)

O sentido pessoal atribuído a um objeto corresponde ao motivo do sujeito que significa, logo, o sentido se expressa na significação e a significação no sentido.

Por exemplo, se pensarmos o desenvolvimento da educação a distância no Brasil há em torno dela um significado objetivo que se define no contexto histórico e social em que ela se desenvolveu. Entrementes, se vários sujeitos forem analisá-la, cada um deles lhe atribuirá um sentido específico. Um pesquisador da área poderia lhe atribuir um sentido de vanguarda; um professor mais conservador, possivelmente, render-lhe-ia outro sentido. Como já foi dito, sentido e significado constituem a consciência, entrementes, a percepção consciente está relacionada dialeticamente com as apropriações realizadas pelos sujeitos em sua mediação com o mundo social.

Penso que o estudo da subjetividade desenvolvido por Gonzalez Rey (2003) a partir de uma proposta histórico-cultural nos oferece um avanço significativo nas discussões de Leontiev sobre significações e ao sentido pessoal.

De acordo com Gonzalez Rey (2003), os conteúdos referentes aos sentimentos e pensamentos relacionados às práticas do sujeito são elementos de sentido subjetivo constituídos nas diversas experiências da vida social. Rey aponta o sentido subjetivo como um sistema complexo e dinâmico que nos possibilita compreender a subjetividade integrada a processos cognitivos, emocionais e a espaços sociais nos quais as pessoas estão inseridas. Já em relação às configurações subjetivas, elas surgem quando os elementos de sentido de diferentes experiências da vida do indivíduo emergem diante do desenvolvimento de uma determinada atividade praticada pelo individuo e se integram.

Dessa forma, o autor considera que todas as atividades que participam os sujeitos como uma produção subjetiva complexa a qual se expressa de uma forma particular tanto na subjetividade social quanto a individual, contribuindo para a compreensão do ambiente em que se inserem.

37 definida "como a organização dos processos de sentido e significação que aparecem e se organizam de diferentes formas e em diferentes níveis do sujeito e na personalidade, assim como nos diferentes espaços sociais em que o sujeito atua".

Sumariando, podemos compreender que o sujeito começa a forjar a própria consciência na interação com os ambientes sociais e na ressignificação dos seus conteúdos culturais, apropriando-se deles de forma singular, convertendo-os em sentidos pessoais. Esse sentido pessoal marca a primazia que realiza o sujeito na intensificação e criação de significados sociais.

Se pensarmos nos professores em contexto virtual, o significado de seu trabalho pode ser formado pela finalidade da ação de ensinar, isto é, pelo seu objetivo e pelo conteúdo concreto efetivado por meio das operações realizadas conscientemente por eles, considerando as condições reais e objetivas na condução do processo de apropriação do conhecimento pelos alunos do espaço virtual.

Para compreender-se, de modo efetivo, o significado do trabalho do professor no espaço virtual, é preciso destacar a ação mediadora realizada pelos indivíduos no processo de apropriação dos resultados da prática social.

Nesta seção, sistematizei a questão do sentido e significado, a partir da interpretação que Leontiev faz das significações; na seguinte tratarei da questão da mediação.

1.4 A CATEGORIA MEDIAÇÃO E AS RELAÇÕES CONSTITUTIVAS NAS