A operacionalização é uma estratégia para identificar os procedimentos utilizados pelos interlocutores na implementação da colaboração crítica virtual. Ela evidencia um componente cognitivo, que gerencia uma rede de discursos, de espaços referenciais conflitantes, cujas significações se efetivam basicamente pelo conhecimento sócio-histórico dos sujeitos.
Para traçar o ciclo de desenvolvimento das operações de colaboração critica virtual, utilizei as formas verbais, que são comumente utilizadas para expressar nossas opiniões, relatar acontecimentos, descrever situações, fazer perguntas, transmitir informações ou dar instruções, uma vez que as ações de colaboração crítica são ações que se configuram discursivamente.
Os verbos atuam sobre a compreensão da configuração da ação no discurso, visto que agem diretamente sobre ele. Segundo Garcia (2004) os verbos apresentam uma natureza pragmático-argumentativa, que se baseia em uma função lógico-organizadora que exercem na organização do discurso. Assim, para ele quando se traça uma tipologia semântica dos verbos do português, depara-se com três tipos principais de verbos: os verbos auxiliares (que acrescentam a outros verbos determinadas características de aspecto, fase, modalidade, etc.), os verbos relacionais (que estabelecem uma relação entre dois ou mais elementos) e os
99 verbos ativos (aqueles que determinam uma modificação qualquer no status quo de um ou mais elementos a eles relacionados ou por eles regidos).
Para traçar o ciclo de desenvolvimento das operações de colaboração crítica virtual, priorizei os verbos relacionais, mais precisamente, os do tipo afetivo- avaliativo e comunicativo, pois conforme explica Garcia (2004) são verbos que exercem ação direta sobre o dito relatado e estabelecem uma relação entre os elementos que compõem seus domínios ou entre eles e a realidade.
Dessa forma, posso dizer que o entrelaçamento entre o ciclo de ações e as formas verbais se dá em estreita dependência, uma vez que é por meio delas que as ações de colaboração crítica ganham forma e que os sujeitos podem compreendê-las. Por isso, quando sinalizei com os verbos para exemplificar o ciclo de ações de colaboração crítica, tive o intuito de se constituir canais adequados e facilitadores da participação discursiva, bem como proporcionar a aprendizagem do conteúdo informativo e garantir a compreensão das intervenções por parte dos sujeitos.
O quadro a seguir apresenta uma síntese do modelo que proponho para análise da colaboração crítica em contexto virtual.
COLABORAÇÃO CRÍTICA EM CONTEXTO VIRTUAL
AÇÃO O QUE É CATEGORIA LINGUÍSTICA PARA VERIFICAÇÃO
Orientação interlocutória
A partir do agente apontado, determina se a interação colaborativa será autocêntrica
ou alocêntrica.
Dêixis Pessoal (Pronomes Pessoais, Nomes próprios)
Operação de pensamento crítico
Representam os atos que apontam uma contribuição critico colaborativa epistêmica
ou axiológica em relação ao problema.
Marcas de Enunciação (Marcadores de Atenuação)
Operacionalização das ações
Determina o ciclo de ações no desenvolvimento da colaboração crítica pelos
sujeitos.
100 O modelo de análise foi aplicado em seis encontros virtuais síncronos (chats com desenvolvimento de tema e discussão) e um encontro virtual assíncrono (avaliação dos participantes sobre a experiência), dessa maneira o exercício de sua aplicação materializou as ações de minha pesquisa crítica de colaboração.
Recorri ao memorial online quando houve alguma necessidade para ilustrar um ou outro ponto da análise, não foi minha intenção utilizá-los integralmente no processo de análise.
O modelo de análise que utilizei é um instrumento fundamental para a análise da reflexão critico colaborativa em contexto virtual, visto que a partir da análise do reconhecimento das contradições, podem-se verificar as ações dos participantes em uma relação dialética, enfocando a construção do objeto coletivo da atividade e as regras que a organiza, revelando como a ação colaborativa é organizada ou não e como são constituídas possibilidades de reflexão crítica, aprendizagem e desenvolvimento.
Ao enfocar as trocas nas interações, podem-se observar as ações dos participantes com foco na construção de sentidos, o que revela como a colaboração e possibilidade de questionamento das ações em que novas possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento são criadas.
Por isso, a linguagem configura-se como instrumento privilegiado para que se verifique a ocorrência dessas transformações e a modificação das ações dos sujeitos face ao processo em que se inserem, visto que é pelo discurso que se elabora e reelabora o conhecimento; assim, tem-se como proposição a idéia de que a nossa consciência, enquanto pensamento humano, é constituída pela linguagem e desenvolvida no contexto social.
Nessa direção, a reflexão crítico colaborativa é um processo que precisa ser exercitado intencionalmente para que possa ser internalizado pelo sujeito que envolve e é envolvido no processo pedagógico virtual.
Por isso mesmo, a linguagem exerce papel fundamental na mediação do processo de internalização de novos valores, novos conceitos e novas concepções, pois, por meio dela, os participantes envolvidos no processo pedagógico virtual, discutem, analisam e confrontam suas práticas e as dos outros, sempre interagindo com o conjunto teórico construído a partir desse processo, servindo como base para sua orientação.
101 Este modelo de análise elaborado para se verificar a colaboração crítica virtual reflete essa preocupação com a linguagem utilizada nesse ambiente. Os seus princípios de elaboração permitem explorar o conceito de que o uso lingüístico está relacionado ao processo de conscientização, portanto pode contribuir para a formação de profissionais críticos e reflexivos.
Os princípios de análise formulados a partir deste modelo não são organizados para obtenção de variáveis, mas se orientam para a compreensão da aula virtual em sua complexidade dentro de uma perspectiva contextualizada.
O objetivo maior de sua elaboração é marcar o olhar, as possibilidades de reflexão e a palavra na construção da consciência do professor, como forma de gerar uma nova mediação no processo pedagógico virtual.
Contudo, não o concebo como um instrumento unilateral, pois não só permite, mas de certa maneira ordena em seus princípios que a expansão do olhar se dê a partir dos seus registros pessoais em interação com o outro no ambiente virtual de aprendizagem, criando uma permanente troca de visões capazes de gerar a reflexão crítica, mudanças e novas formas de atuação, geradoras de colaboração.
Assim, esse modelo de análise caracteriza-se como um instrumento capaz de gerar essa reflexão crítico colaborativa que discuto, pois não está construído em um formato enrijecido, antes ele se consolida a partir do olhar dos colaboradores para aula virtual, servirá como parâmetro para que no espaço do ambiente virtual de aprendizagem se estabeleça o mapa das relações interativas e do desenvolvimento da atividade, oportunizando a reflexão e a ressignificação do processo pedagógico virtual.