“O processo social considera-se complexo quando não é fácil decompô-lo em sub-processos separados: económicos, demográficos, culturais, espaciais, e cujas análises isoladas possam ser agregadas para fornecer uma adequada análise do processo social como um todo”. (Axtell e Epstein, 1996)
A aplicação prática da complexidade aos problemas sociais consiste em lidar com agentes pró-activos de sistemas sociais e organizacionais e, por vezes, é muito difícil identificar as regras escritas e não escritas pelas quais esses agentes operam. As simulações experimentais podem ajudar a identificar essas regras.
Por isso, a complexidade na área das ciências sociais, actualmente, envolve a aplicação de uma variedade de abordagens de modelação computacional. São disso exemplo uma série de experiências paradigmáticas que seguidamente se descrevem.
- Modelo “Sugarscape”
Numa série de experiências simuladas com uma sociedade artificial chamada “Sugarscape”, Epstein e Axtell conseguiram demonstrar de que modo os fenómenos sócio-culturais tais como: as trocas comerciais, a riqueza e a guerra surgem naturalmente a partir de simples acções individuais. As sociedades artificiais são mundos virtuais que permitem aos agentes desencadear acções tais como combater, revelar características culturais, procriar, transmitir doenças, etc. Na Sugarscape os agentes vivem num cenário que lhes fornece o açúcar de que precisam para sobreviver. É claro que o cenário e o açúcar servem apenas como um ambiente de que facilmente se apropriam para as suas interacções sociais ou anti-sociais.
A abordagem de Epstein e Axtell utilizou o Sugarscape como um laboratório de teste de hipóteses de experimentação controlada. Para cada fenómeno sócio-cultural que investigaram utilizaram aproximadamente o mesmo tipo de hipóteses, isto é, eles assumiram que as regras locais de comportamentos individuais podem ser suficientes para gerar o fenómeno sob investigação.
- Modelo da evolução da cooperação
Nas suas experiências, Axelrod (1997), realizou uma modelação que permitiu aos agentes comportarem-se de modo a que o resultado agregado exibisse processos de adaptação (inspirado pelo trabalho de Holland com Sistemas Complexos Adaptativos e Algoritmos Genéticos) e apresentou resultados significativos com simples modelos de Simulação Social Baseada em agentes. Como exemplo, numa das suas experiências, a “Evolução do Dilema do Prisioneiro”, ele incorporou um mecanismo de aprendizagem individual (implementado com algoritmos genéticos) que permitiu aos agentes desenvolverem as suas estratégias com base na experimentação prévia.
A versão mais simples deste jogo, “O Dilema do Prisioneiro”, representa a possibilidade que dois prisioneiros têm de cooperarem ou de se denunciarem. Ambos desconhecem a intenção do outro. Sabendo que a denuncia tem um retorno maior do que a cooperação. Porém, se ambos denunciarem perderão mais do que se tivessem cooperado. Da análise repetida deste jogo teórico, observou-se que ambos os prisioneiros tendem a denunciar-se.
Este simples jogo tem provado ser um poderoso meio para analisar o conflito individual e a racionalidade grupal. Assim, conclui-se que num grupo cujos membros optam por racionalizar o auto-interesse acabam por perder mais do que um grupo cujos membros racionalizem o interesse colectivo. Deste modo, o êxito será maior se todos os membros
optarem pelo interesse colectivo, em detrimento do individual. Este jogo tem atraído a atenção em uma ampla variedade de disciplinas e continua a provocar novas maneiras de pensar sobre o egoísmo humano, a concorrência e a colaboração, a confiança e a racionalidade. Este jogo tem sido também analisado no âmbito das aplicações possíveis para efeitos de estratégias nucleares.
- Echo e o estudo de sistemas complexos adaptativos
Holland (1995) desenvolveu um raciocínio experimental acerca dos Sistemas complexos adaptativos utilizando um modelo de vida artificial chamado Echo. Em termos simples, Echo é um mundo virtual que permite a uma população de agentes evoluírem para sistemas possuidores de características semelhantes aos sistemas ecológicos incluídos em comunidades de organismos vivos: eles desenvolvem-se, adaptam-se, reúnem-se, competem, cooperam e ao realizar tudo isto criam ainda maior diversidade e novidade. Os resultados das suas experiências com o Echo provaram que os sistemas adaptativos complexos conseguem simular comportamentos fascinantes de forma espontânea, isto é, sem planeamento central.
- Modelo de segregação de Schelling
Em 1971 Schelling publicou um bem conhecido raciocínio experimental que ilustra como a Simulação Multi-Agente (SMA) pode ajudar-nos a compreender determinados fenómenos sociais.
A segregação étnica dentro de determinados bairros, geograficamente distintos, é frequentemente considerada como o resultado da descriminação ou das dificuldades económicas. A dúvida inicial de Schelling foi: suponha que as famílias têm apenas uma leve preferência para viverem em bairros em que o seu grupo étnico é maioritário: será isto suficiente para que a segregação étnica ocorra? Fazendo a experiência com agentes do tipo Autómatos Celulares, Schelling concluiu que se as famílias, quer negras, quer brancas preferissem viver em bairros nos quais o seu próprio grupo étnico fosse maioritário e elas fossem capazes de se deslocar para o local mais próximo, que satisfizesse os seus desejos, a segregação completa surgiria inevitavelmente.
As ciências sociais parecem cada vez mais dispostas e preparadas para ultrapassar a prevalência da “incerteza” e do “indeterminismo” nas suas investigações. (Schilperoord, 2004).
- A Incerteza é a parte que resulta de uma investigação que não pode ser removida pela adição de mais conhecimento ou de mais informação. As incertezas deste tipo tendem a surgir
em estudos concebidos para resolver questões que dizem respeito ao “feedback” contínuo da interacção em sistemas complexos, ou seja, os agentes mudam o sistema ao mesmo tempo que são mudados pelo mesmo sistema, o que se designa por "Reflexibilidade". Num mundo cada vez mais interligado, a incerteza torna-se cada vez mais frequente, como por exemplo nos estudos das alterações climáticas.
- O Indeterminismo. Pelos mesmos motivos, cada vez mais os estudos são também afectados pela indeterminação, especialmente se o seu foco estratégico é a interacção em contextos sociais.
Por conseguinte, será apenas uma questão de tempo até que as ciências sociais considerem as ferramentas computacionais (algoritmos de simulação de modelos) como metodologias complementares ou alternativas aos instrumentos tradicionais.