5.4 FEM- ANALYSE
5.4.1 Spenninger fra lineær analyse
Como as intervenções arqueológicas realizadas nos sambaquis da região de Cananéia tiveram o propósito de complementar o conjunto amostral já desenvolvido em etapas anteriores, houve somente a necessidade de executar intervenções arqueológicas em apenas dois sítios: os sambaquis Cambriu Grande e Cachoeira Mirim.
3.1. SAMBAQUI CAMBRIU GRANDE
Embora já tivessem sido propostas duas datas (porção intermediária e topo) para o sambaqui Cambriu Grande (CALIPPO, 2004), as quais atribuíam a esse sítio uma das maiores antiguidades do litoral brasileiro, ainda não havia sido estabelecida uma compreensão inicial a respeito de seus processos formativos. Com o intuito de confirmar tal antiguidade e de estabelecer um entendimento inicial da formação de suas camadas, procurou-se, no âmbito desta Tese, obter amostras relativas às camadas intermediárias desse sítio. Tornando possível, assim, a elaboração de hipóteses a respeito do processo de formação do sambaqui.
Com essa intenção foram, então, executadas duas novas testemunhagens, à vibração (método Vibracoring), nas faces leste e oeste do sambaqui (figura 3.01), a partir das quais se obteve duas novas colunas estratigráficas, cujas bases foram datadas em, respectivamente, 5730±60 e 5620±60 anos AP (tabela 3.01).
Tabela 3.01 – Datações radiocarbônicas realizadas nos sambaqui Cambriu Grande Sítio Idade (anos AP) Amostra Tipo de Testemunho Posição Laboratório Referência
Convenc. Calibrada
Cambriu
Grande 5620±60 6170 a 5890 Concha T0028 Base do testemunho Beta Analytic Beta 219093 Cambriu
Figura 3.01 – Localização e posicionamento dos testemunhos coletados no sambaqui Cambriu Grande. As amostras datadas ao longo da Tese são as referentes às bases dos testemunhos T0028 e T0029
Além de ampliarem o entendimento da estrutura das camadas estratigráficas do sambaqui Cambriu Grande, as novas idades, obtidas a partir da datação da base desses últimos testemunhos, confirmaram a maior antiguidade desse sítio. Mesmo que ainda não tenha sido possível atingir as camadas mais basais do sambaqui, as datas (intermediárias às anteriores) sugerem um tipo de padrão de construção ainda não detectado na região. No qual, com base na deposição de consecutivas camadas de conchas que se intercalam às lentes de sedimentos ricos em matéria orgânica ou vestígios de carvão (figura 3.02), sugere-se que, nesses momentos mais antigos, parece não haver indícios de períodos de intenso acréscimo de material. Indicando, assim, que a formação do sítio se daria de uma forma mais contínua (ou crônica) do que episódica e que durante a construção desse sítio os sambaquieiros não estariam ainda preocupados com a elaboração de estruturas mais representativas,
como bases, montículos funerários e espessas camadas de acresção associadas a perspectivas de monumentalidade.
Figura 3.02 – Detalhes da seqüência de camadas arqueológicas identificadas no sambaqui Cambriu Grande
A interpretação desse padrão é reforçada, ainda, pela idade das camadas analisadas, as quais, de maneira concomitante ao crescimento vertical dos depósitos, parecem apontar, também, uma expansão lateral do sítio (figura 3.01). Mais do que uma preocupação com a altura do monte acumulado (afinal, esse sítios tem pelo menos nove metros em relação à sua base), talvez, esse padrão represente uma preocupação com a necessidade de se ampliar o espaço de ocupação, seja ele utilizado para moradia, habitação ou como lugar de culto aos mortos. Quem sabe, nesses primeiros momentos, apesar da dimensão vertical atingida pelo sambaqui, ainda não estivesse implícita na concepção dos sambaquis os referenciais de monumentalidade.
Embora tal hipótese esteja alinhada a uma abordagem calcada nos processos culturais de formação do registro arqueológico, ela não pode, pelo menos aqui, ser vista de forma dissociada da evolução do contexto natural (onde atuam os processos naturais de formação do registro) contemporâneo à formação desse sambaqui. Principalmente, porque é possível que essa expansão horizontal do sambaqui esteja também relacionada ao surgimento de um contexto ambiental cada
vez mais favorável (entrada de água salgada no interior das áreas lagunares) ao aumento da disponibilidade das conchas, causado pela elevação do nível relativo que, por volta de 8.000 anos, atinge uma cota próxima à do sambaqui. O qual, nesse momento, possuía uma altitude quase três metros abaixo do que a atingida por volta de 5.500 anos AP (Calippo, 2004).
3.2. SAMBAQUI CACHOEIRA MIRIM
O sambaqui Cachoeira Mirim localiza-se na face interna da Ilha do Cardoso, às margens do Canal do Ararapira, em uma região próxima à desembocadura do estuário de Cananéia. Assim como ele, existe um outro sítio, o sambaqui Branco, que apesar de contemporâneo a ele e se localizar a menos de dois quilômetros de distância, apresenta um processo de formação completamente diferente.
Para que tal diferença pudesse ser analisada, realizando-se, inclusive, um estudo comparativo a respeito da composição isotópica (carbono e oxigênio) das conchas das camadas de ambos os sítios, foi necessário realizar uma datação radiocarbônica em sua camada superior; pois, até então, só havia sido obtida apenas uma única data para o topo desse sítio (UCHÔA e GARCIA, 1983).
Para a determinação da idade dessa camada foi utilizada uma amostra que já havia sido coletada em uma etapa anterior ao inicio da presente Tese, a partir da realização de uma sondagem realizada na porção central do sambaqui (ver itens 2.1.1.2 e 2.2.2) (CALIPPO, 2004). O resultado da análise radiocarbônica dessa amostra apontou uma idade (convencional) de 4630±50 anos AP (Beta 258663) (tabela 3.02).
Tabela 3.02 – Datações radiocarbônicas realizada no sambaqui Cachoeira Mirim Sítio Idade (anos AP) Amostra Tipo de Testemunho Posição Laboratório Referência
Convenc. Calibrada
Cachoeira
Além de contribuir para o estabelecimento do período de construção desse sítio (que tem por volta de 100 anos), essa nova data permitiu também que pudéssemos estabelecer uma nova compreensão de seu processo formativo, o qual, se comparado ao sambaqui Branco, parece ter sido construído a partir de um estilo diferente ou ter assumido uma outra função; pois, embora próximos e contemporâneos, não foram identificados em sua estratigrafia estruturas que possam ser interpretadas como concebidas pelos sambaquieiros com base em aspectos imbuídos de intencionalidade e monumentalidade.
Em relação à análise dos isótopos estáveis (carbono e oxigênio) apresentadas no (capítulo 5), essa nova data foi de fundamental importância para a inferência das idades relativas de cada um dos níveis analisados. Propiciando, nesse sentido, bases para a elaboração de hipóteses a respeito das relações que os sambaquieiras estabeleciam com o seu ambiente.