Embora a identificação desses três conjuntos tenha sido elaborada com base na distribuição espacial dos sítios, houve também uma preocupação em garantir a esse modelo uma dimensão temporal. Com esse propósito, as idades disponíveis de cada sítio foram correlacionadas aos valores das razões isotópicas. Quando houve possibilidade, tomou-se ainda a precaução de se diferenciar cronologicamente diferentes camadas de um mesmo sambaqui. Abaixo, na figura 4.05, é apresentado um gráfico que representa a distribuição temporal dessas razões isotópicas.
Com base nessa figura, pode-se perceber a existência de um período em que os conjuntos do médio Ribeira e do litoral são contemporâneos. Ainda que o número Figura 4.05 – Distribuição temporal das razões isotópicas de estrôncio: os pontos na parte superior
do gráfico representam os sítios do médio Ribeira e os da porção inferior são relativos aos do litoral (norte e sul). Os pontos plotados junto ao eixo das razões isotópicas (idade igual a zero) representam as amostras não datadas.
saasdf 0,70800 0,71000 0,71200 0,71400 0,71600 0,71800 0,72000 0,72200 0,72400 0,72600 0,72800 0 2000 4000 6000 8000 10000 asdfasdf as df as df Seqüência1
Intervalo de tempo compartilhado entre os dois conjuntos de dados
Distribuição temporal das razões isotópicas do estrôncio presente nos sambaquis
do médio Ribeira e do litoral do estado de São Paulo
Idade (anos AP)
R azã o Is ot óp ic a ( 87 SR/ 86 SR)
de amostras sincrônicas a eles seja baixo (ocorrendo somente entre aproximadamente 5.000 e 6.000 anos AP), elas existem; corroborando, dessa maneira, com a hipótese de que mesmo com o passar do tempo os grupos do litoral e do médio Ribeira pertenceriam a diferentes unidades culturais ou comunidades. As quais, ainda que compartilhassem traços culturais comuns, desenvolveriam, entre si, um fluxo de mobilidade pouco significativo.
Embora a ausência de dados mais antigos ao longo do litoral e de sambaquis mais recentes no médio Ribeira possam sugerir também uma possível migração dos povos do médio Ribeira para o litoral, o mais provável é que, se tal migração realmente ocorreu, quando os sambaquieiros do médio Ribeira atingiram o litoral lá encontraram uma outra comunidade já estabelecida desde, pelos menos, 8.000 anos AP (idade do sambaqui mais antigo do litoral).
Na realidade, como a maioria dos sambaquis do médio Ribeira apresentam idades mais antigas que 5.000 anos AP e os sítios do litoral (pelo menos os que resistiram à elevação do nível relativo do mar do mar) começam a aumentar de número por volta dessa data, somos, em um primeiro momento, levados a acreditar que a melhor hipótese para o desaparecimento dos sambaquis fluviais estaria relacionada à migração de seus construtores para o litoral.
No entanto, a força dessa associação reside unicamente na compreensão de que os sambaquieiros do litoral fazem parte de uma única e homogênea sociedade sambaquieira, onde os povos do médio Ribeira seriam somente uma porção (inicial ou secundária) dessa sociedade que se instala em um ambiente mais elevado e longe do mar.
Em nossa compreensão, que, nesse caso, se fundamenta principalmente no estudo das últimas grandes variações holocênicas do nível do mar e na idéia de que essa sociedade sambaquieira maior seria formada por diversas comunidades ou subsistemas regionais, a idéia de uma migração não é a única opção a ser considerada. Pois, além da possibilidade de que dos povos dos sambaquis do interior terem migrado em direção ao litoral, existe também chances de que tenham sido absorvidos ou, a partir de diversos fatores, razões e modos, dado origem a outros povos.
Embora existam poucos dados isotópicos referentes ao período entre 6.000 e 5.000 anos AP, em teoria, os sítios relativos a esse período comum deveriam apresentar valores de razão isotópica mais próximos. Isso porque, se uma migração dessa magnitude tivesse ocorrido, parte dos indivíduos do litoral (a qual se originou no médio Ribeira) deveria apresentar razões isotópicas de estrôncio mais altas.
Como isso não acontece, não temos como afirmar ou negar a possibilidade de tal migração. Na realidade, para que possamos avançar nessa questão deveríamos ampliar o número de sítios analisados (pois, talvez, nossa amostragem tenha sido insuficiente para que um desses indivíduos tenha sido selecionado) e, nesse processo, coletar amostras de sambaquis costeiros mais antigos do que 6.000 anos AP (pois existem) e sambaquis fluviais mais recentes.
Procurando verificar se a subdivisão entre os conjuntos de sambaquis do litoral norte e do centro-sul também se mantém a partir de uma perspectiva temporal, as razões isotópicas dos sambaquis costeiros foram correlacionadas às suas idades (figura 4.06). Como resultado, encontrou-se um comportamento gráfico bastante semelhante ao identificado na correlação entre os sítios do médio Ribeira e do litoral.
Figura 4.06 – Distribuição temporal das razões isotópicas de estrôncio: os pontos na parte superior
asdfa 0,70900 0,70950 0,71000 0,71050 0,71100 0,71150 0,71200 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 asdfasdf as d fasd f Seqüência1
Distribuição temporal das razões isotópicas do estrôncio presente nos sambaquis dos litorais norte e centro do estado de São Paulo
Idade (anos AP)
R azã o Is ot óp ic a ( 87 SR/ 86 SR)
Nesse caso, no entanto, a situação é um pouco mais complexa. Embora as razões isotópicas de ambos os conjuntos sejam diferentes, devido ao número reduzido de amostras datadas obtidas para o litoral norte e à amplitude das idades de ambos os conjuntos, o intervalo de tempo referente ao contato entre os dois conjuntos é muito grande (em relação aos períodos de tempo apontados pelas idades dos sítios. Nesse sentido, torna-se complicado estabelecer qualquer consideração a respeito da possibilidade dos sítios do litoral norte terem se originado a partir dos sítios do litoral central.
Embora, em uma primeira análise, a maior antiguidade dos sítios da porção centro-sul possa sugerir a ocupação sambaquieira de Cananéia como a origem da presença sambaquieira no litoral norte, é importante ressaltar que a ausência de sambaquis mais antigos nessa porção possa ser uma decorrência do processo de formação do registro arqueológico dessa região (destruição de sítios pela densa ocupação litorânea e/ou pela ação dos eventos de variação do nível relativo do mar). Além disso, como veremos mais adiante, no Capítulo 6 (Modelo de Predição) é importante termos em mente que, talvez, a ocupação do litoral norte pode estar mais associada à presença sambaquieira do litoral sul e centro do estado do Rio de Janeiro do que a São Paulo.