Os grupos religiosos católicos se constituem em instâncias de socialização nas quais muitos jovens das camadas populares podem construir ou atualizar disposições morais e sociais que não tiveram oportunidade de ser construídas em outras instâncias como, por exemplo, na família. Vanessa, enquanto participava dos grupos religiosos, pôde entrar em contato com realidades diferentes daquela vivida na sua família. Estas novas experiências e interações trouxeram para sua vida novas visões de mundo que podem ter ampliado o seu capital cultural e social, bem como a constituição de disposições facilitadoras de longevidade escolar.
Militante em grupos religiosos católicos, desde a adolescência, Vanessa fez muitas amizades e conheceu pessoas de várias culturas e níveis sociais. Muitas dessas pessoas eram religiosos (padres, bispos, freiras) italianos que, por força da missão, tiveram um contato mais direto com a cultura socialmente valorizada, sendo, por esta razão, reconhecidas pela comunidade religiosa como as mais instruídas e de amplo conhecimento de mundo.
A relação com estas pessoas transformou-se num “capital social” (BOURDIEU, 1998) importante para Vanessa. Fato semelhante foi verificado na pesquisa de Souza, M. (2009, p. 131) quando aponta que a relação da família de um dos seus entrevistados com padres alemães traz um capital social importante para toda a família. A “facilidade” que tem Vanessa para se relacionar com estas pessoas se torna um trunfo, principalmente, depois que assumiu a coordenação da Pastoral da Juventude e passou a circular entre os grupos de coordenadores pastorais da diocese. A troca de conhecimentos, durante as reuniões, as conversas informais e o trânsito livre nos ambientes mais elitizados da Igreja pode ter possibilitado à Vanessa construir disposições facilitadoras de longevidade escolar. Ela contou “aí eu comecei a participar lá [coordenação diocesana] das reuniões, a gente organizava as assembleias de jovens que era em Betânia60”. Organizar assembleias para jovens de toda a diocese exige um
senso de organização, o conhecimento de conteúdos específicos e um compromisso, mobilizados por Vanessa e que se constituem disposições favoráveis ao sucesso escolar. Outra disposição associada a essa organização é a questão da autoestima. Questionada sobre a presença dos padres e freiras na sua formação espiritual e moral, ela assim narrou:
Com certeza, com certeza... Foram pessoas, assim, que acreditaram em mim. Porque a gente precisa de alguém que acredita, né? O acreditar é muito importante. E quando você acredita, você automaticamente cria um laço de confiança. E aí mesmo – claro que todo mundo tem a suas dificuldades – e mesmo com as dificuldades que nós tínhamos, eles acreditavam que a gente poderia representar, em nome da diocese, falar em nome da juventude da diocese nesses espaços.
O apoio que recebeu destas pessoas, no sentido de confiar no seu trabalho, acreditar que ela seria capaz, leva Vanessa a vivenciar momentos em que mobiliza disposições dissertativas e de expressão oral. Dos vários congressos que participou no Brasil e em outros países, ela narrou com ênfase a experiência que fez no congresso mundial de jovens católicos, em Roma:
Fiquei trinta dias fora do país (riso). Ah! Foi uma experiência muito bonita. É, eu estava levando a experiência dos jovens latino-americanos, nordestino, de Caetité, de Guanambi. Lá a gente tinha vários encontros com outros jovens. Eu não falava, o italiano, mas tinha padre Zé Luiz... Eu me sentia assim uma, uma pérola que todo mundo queria tocar, sabe, queria lapidar pra conhecer. Quando eu falava da experiência desses jovens tão sofridos, dos jovens da zona rural, dos jovens camponeses, dos jovens ribeirinhos... Então, nós tivemos vários encontros. Nas montanhas, gente é um presente de Deus, sabe, as montanhas. E, aí, lá a gente ficava um dia todinho, a manhã era a gente falando. Nós falando da nossa realidade, da nossa experiência, a nossa história e, à tarde, a gente ia celebrar.
Nesses encontros, Vanessa fez amizades que duram até hoje. E, por conta da sua disponibilidade, recebe jovens de outras nacionalidades em Guanambi. Essas oportunidades estimulam Vanessa a pensar no próprio conhecimento e no conhecimento que ainda não possui: “eu senti necessidade de conhecer outras línguas... Conhecer a cultura daqueles jovens... (se referindo aos jovens italianos)”. O que é isso senão uma necessidade de novos
conhecimentos, de ampliar o capital cultural?
Outro aspecto importante observado na experiência religiosa de Vanessa é a sua relação com o desejo de estar no ensino superior. A perseverança em querer cursar uma universidade também vem de certo embaraço em dizer aos amigos de grupo que ainda não havia sido aprovada. Isso incomodava, e muito, a depoente. Indagada sobre as conversas que mantinha com os jovens nos grupos religiosos sobre projetos de futuro, de cursar uma faculdade, ela narrou:
Por exemplo, todos perguntavam: Você já fez faculdade ou não fez? Tinha vez que eu ficava com vergonha que eu nem levantava a mão pra falar que eu não tinha. Mas eu sempre incentivei. Até porque um dos pilares da Pastoral da Juventude era isso, entendeu? Então, toda vez que eu ia formar [dar curso para os jovens], eu ia falar que era importante. Eu era verdadeira: “Não passei ainda porque eu ainda não tive tempo de me organizar pra estudar”. Então, essa verdade, fazia parte, essa coerência de falar pra eles, que eu tinha alguma dificuldade também, mas que era importante.
Neste depoimento, Vanessa afirma importância do curso universitário e revela sua angústia de não ser aprovada no vestibular, contudo tinha esperança de que chegaria lá e não desistiria de seus desejos. Ela possuía certeza de algo, diante de suas dificuldades de aprendizagem, a resposta seria estudar “Eu disse até uma vez para Adriana: ‘Adriana – eu e você – que
trabalhamos o dia todo, a gente tem que estudar três vezes mais do que uma pessoa que não trabalha, mas que teve mais oportunidade’. Eu percebo isso, tudo na minha vida eu tenho que fazer três vezes a mais”.
Vanessa foi citada por outros jovens desta pesquisa como aquela grande incentivadora para que eles fizessem um curso universitário. Essa determinação de querer que os amigos fizessem vestibulares, de buscar recursos para custear a inscrição do vestibular de outros jovens dos grupos nos quais participava, só reforça a ideia de que Vanessa tinha objetivo de continuar seus estudos, de entrar para a universidade e trilhar para isso um árduo caminho com perseverança, autonomia e determinação.