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3.15 Species no. 15: Paralithodes camtschaticus

Freud (1996c), em “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), fala que o narcisismo primário é uma posição preparada pelo desejo dos pais, ou, ainda, é o lugar ideal dos pais, sendo, portanto, a marca de um investimento que o sujeito irá sempre carregar. Lacan vai falar em “Sobre o narcisismo” (Escritos, 1998a: 128) que a herança do desejo parental é constitutiva do sujeito e formadora de um eu, porque introduz a alienação na origem do sujeito e o eu como, antes de tudo, um eu corporal. Além disso, a imagem percebida responde as leis do outro, o que também introduz o princípio de alteridade. Então, vemos que o narcisismo se define pelo investimento do desejo do Outro e o eu é o efeito imagético deste desejo.

Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram. O indicador digno de confiança constituído pela supervalorização, que já reconhecemos como um estigma narcisista no caso da escolha objetal, domina, como todos nós sabemos, sua atitude emocional. Assim eles acham, sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho, e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele. (FREUD, 1996c: 97)

Freud designa o narcisismo primário como modo de investimento na relação com o Outro que introduz a imagem de unidade. A estrutura narcísica primária é a identificação de uma unidade corporal, é uma estrutura permanente que mantém viva a aspiração de todo sujeito: a unidade, a não-separação. Portanto, “é a relação do sujeito com as suas identificações formadoras, é o sentido pleno do termo imagem” (LACAN, 1998a: 138).

Esta unidade tem estatuto de engano e de aparência e designa a relação do sujeito com a imagem, cuja condição de miragem exige um constante reconhecimento. É esta alienação que marca o início da história de uma subjetividade a partir do campo do Outro e, portanto, marca o princípio da alteridade. Assim, o narcisismo apresenta inicialmente uma relação dual, ou seja, uma unidade onde dois são um. Portanto, o eu é efeito de uma imagem, sendo primordialmente uma estrutura que é imagem e a semelhança do desejo do outro. Portanto, o registro do imaginário de Lacan corresponde ao conceito de narcisismo de Freud.

Lacan (1998a: 97), portanto, dá o nome de imaginário ao registro psíquico correspondente ao eu do sujeito. Este investimento libidinal, designado por Freud como narcisismo, é constituído pela imagem do outro. Exatamente como Narciso, o eu busca o reflexo amado no olhar do outro, ou, ainda, ele ama no outro esse si-

mesmo que ele vê. Colocando em evidência a dimensão imaginária do discurso do ego, originado de um certo número de signos, imagens ou formas prevalentes, no centro das quais se acha a imagem do próprio corpo, situa o prenúncio do complexo de Édipo ao nível de um limiar específico do processo de maturação da criança, testemunha de um momento particular de sua vida psíquica, que ele chamou de estádio de espelho:

O estádio de espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação – e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortopédica – e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental. (LACAN, 1998a: 100)

Tudo se passa como se a criança percebesse a imagem de seu corpo como a de um ser real de quem ela procura se aproximar ou apreender. Em outras palavras, este primeiro tempo da experiência testemunha em favor de uma confusão, primeiro entre si e o outro, confusão amplamente confirmada pela relação estereotipada que a criança tem com seus semelhantes, e que atesta, sem equívoco, que é sobretudo no Outro que ela vivencia e se orienta.

Lacan vai chamar esse discurso de imaginário ou pré-consciente, que é suscetível de exprimir, em abundância, uma soma de impressões e de informações que o sujeito recebe do mundo onde vive. Resta dizer que a conquista da identidade é sustentada, em toda a sua extensão, pela dimensão imaginária, e pelo próprio fato da criança identificar-se a partir de algo virtual (a imagem ótica), que não é ela enquanto tal, mas onde ela entretanto se re-conhece. Não se trata, pois, de nada mais do que um reconhecimento imaginário, que, por outro lado, é justificado por fatos objetivos. De fato, nesta idade – entre 6 e 18 meses –, a maturação da criança não lhe permite ter um conhecimento específico do corpo próprio.

O estádio de espelho é uma experiência que se organiza, com efeito, antes do advento do esquema corporal. Por outro lado, se a fase do espelho simboliza a pré-formação do Eu (Je), ela pressupõe em seu princípio constitutivo seu destino de alienação no imaginário (eu – Moi). O re-conhecimento de si a partir da imagem do espelho efetua-se – por razões óticas – (DOR,1989: 122) a partir de índices exteriores e simetricamente invertidos. “Esse momento em que se conclui o estádio de espelho inaugura, pela identificação com a imago do semelhante e pelo drama do

ciúme primordial (...), a dialética que desde então liga o [eu] a situações socialmente elaboradas” (LACAN, 1998a: 101).

Ao mesmo tempo, é, portanto, a unidade do corpo que se esboça como exterior a si e invertida. A própria dimensão deste re-conhecimento prefigura, para o sujeito que advém, na conquista de sua identidade, o caráter de sua alienação imaginária, de onde se delineia o desconhecimento crônico que não cessará de alimentar em relação a si mesmo.

Portanto, para a psicanálise lacaniana, quando se diz imaginário, estamos falando das imagens formadas no estádio de espelho, mas também estamos falando de ilusão, pois não há garantia de veracidade de uma imagem, percebida ou produzida. É isso que Lacan apresenta no estádio do espelho, que o registro do imaginário é nada menos que a sede dos fenômenos da ilusão, e o registro do engodo, da identificação, “é esse o registro do eu, com aquilo que comporta de desconhecimento, de alienação, de amor e de agressividade, na relação dual”. (CHEMAMA, 1995: 104). No registro do imaginário, encontramos o domínio do corpo, da imagem do outro, ou seja, do semelhante que por ser igual é rival, sendo também atraente, fascinante, amante. O imaginário é o registro da consciência e do sentido que faz com que o homem se julgue um Eu – o que é efetuado (sem que o saiba) através da identificação com o Outro.