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Computer power: The spearhead model of technological innovation in the workplace

4.2 The spearhead model

Ainda que em determinados momentos possamos nos deparar com algumas discussões e até mesmo com polêmicas, fica evidente que o percurso da literatura caboverdiana esteve recheado de reivindicações sociais e políticas que visavam com variado grau de intensidade defender uma identidade nacional, com uma farta produção literária servindo de testemunho disso, deixando entrever uma vinculação muito precoce entre a literatura e a expressão dos descontentamentos da coletividade, mesmo que condicionada pelas imposições e restrições do regime salazarista durante boa parte do século XX. Algumas obras publicadas em Cabo Verde tiveram especial importância, constituindo-se em referências, ao abordar temáticas que legitimaram uma demarcação artística e literária caboverdiana frente as demais literaturas africanas de língua portuguesa no tocante a construção ideológica do Estado-Nação. Podemos destacar Arquipélago61 (1935), Claridade

(1936-1960), Chiquinho62 (1947), Flagelados do vento leste63 (1960) e

Consciencialização na literatura caboverdiana (1963).

Ao estudar a construção das identidades nacionais, é possível perceber que os intelectuais em alguns casos tem um papel decisivo. Isso se torna evidente e comprovado ao se estudar a história de Cabo Verde, pois desde o estudo pioneiro de Manuel Ferreira64, passando pelas gerações seguintes, que acentuaram e

intensificaram a discussão, é o trabalho dos intelectuais, através da literatura, que acabou sendo o aspecto mais valorizado quando da tentativa de compreender o percurso de gênese da formação da identidade nacional naquele arquipélago. Um longo percurso aliás, que vai desde o final do século XIX chegando a primeira década do século XXI ainda com muitas discussões acaloradas sobre o que é a caboverdianidade.

61 Conjunto de poemas de autoria de Jorge Barbosa (um dos fundadores da Revista Claridade) nos

quais o autor coloca as ilhas que formam Cabo Verde em condição de protagonismo, descrevendo suas características e chamando atenção para os dramas da seca e da fome.

62 Considerado o primeiro romance de autêntica inspiração caboverdiana, escrito por Baltasar Lopes,

um dos maiores expoentes da geração claridosa e da literatura africana de língua portuguesa.

63 De autoria de Manuel Lopes, também ele um poeta claridoso, é visto como uma obra que

apresenta influência dos neo-realistas portugueses e dos autores regionalistas brasileiros. Denuncia a pobreza e a persistência na luta contra a seca e a fome.

64 Nascido em Portugal, chegou a Cabo Verde como expedicionário do exército português em 1941,

ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Tornou-se um profundo conhecedor da cultura

caboverdiana. Foi casado com a escritora caboverdiana Orlanda Amarílis. Fonte:

Pouco a pouco, Claridade acabaria por se converter numa espécie de “cartão de visita” do arquipélago dito crioulo, com a difusão da ideia de uma manifestação de regionalismo português no meio do Atlântico, em aproximação aos territórios dos Açores e da Madeira. Fica evidente que o regime de Salazar manteve uma política discriminatória, disfarçada sob o manto de um discurso baseado na teoria de Gilberto Freyre, apadrinhando Cabo Verde, como a “melhor” concretização da ação civilizadora luso-tropical, a exemplo do caso do Brasil.

Para poder compreender o papel dos intelectuais na história de Cabo Verde no contexto pré-independência, é impossível não se debruçar sobre o trabalho realizado pela revista Claridade e sua contribuição para a construção da nação caboverdiana. Em realidade esta publicação, ao mesmo tempo muito elogiada, e em alguns momentos criticada, conseguiu um lugar de destaque no espaço colonial português do século XX. A revista acabou convertendo-se no maior fenômeno cultural da história de Cabo Verde. Recebeu elogios, críticas e comentários ao longo de várias décadas, no arquipélago que naquele então era colônia e também na metrópole portuguesa, dando-lhe uma imagem plena de complexidades, que muitas vezes dificultaram e condicionaram uma visão objetiva dos seus antecedentes, do seu contexto, dos seus objetivos e do seu significado. Entretanto, alguns intelectuais ergueram a voz para discreta ou abertamente criticar o trabalho dos claridosos:

Amílcar Cabral, expoente máximo dessa nova geração, não só por perfilhar a concepção de intelectual engajado, como também por tê- la levado até às últimas consequências, desencadeando e liderando a chamada luta de libertação a partir da Guiné-Bissau, explicita, num artigo publicado em 1952, sob o título Apontamentos sobre a poesia

cabo-verdiana, essa nova orientação pela qual o regionalismo cabo-

verdiano passaria a incorporar e a traduzir o anticonformismo cabo- verdiano. Ou seja, em que as motivações políticas, segundo ele existentes, mesmo que latentes, passariam a influenciar em moldes diferentes dos até então prevalecentes, as produções culturais dos ilhéus (FERNANDES, 2006, p. 185).

Neto (2013) observa que possivelmente o maior crítico da Claridade, Onésimo Silveira, que como já vimos anteriormente, também publicou na revista, julgava a geração claridosa sob uma luz muito severa, definindo a produção dos claridosos como uma “literatura de exportação”, até certo ponto alienante, e interessada em colher “o aplauso metropolitano”, abrindo mão de espelhar as dificuldades da vida no arquipélago, como por exemplo: as estiagens, a fome, a pobreza, a emigração e a indiferença de um regime autoritário e ditatorial. Em termos simples, para Silveira o projeto literário claridoso era concebido pensando num público desejoso de

temáticas exóticas, devidamente embebidas num caldo luso-tropical, e não para trazer alento a população local, nem contribuindo para tomar consciência da dominação colonialista de Lisboa. Foram muitos os intelectuais que ouviram a mensagem e o apelo por um despertar proposto no âmago do discurso ideológico de Cabral. Entretanto foi Onésimo Silveira, que tomaria para si o encargo de ser um dos maiores defensores da africanidade do caboverdiano, delimitando uma clara fronteira entre a sua geração de intelectuais, e a dos claridosos.