4. Discussion
4.2. Spatial variation in browsing frequency
toda a sua dureza contra a humanidade. Ela levanta contra nós naufrágios, secas, inundações, incêndios, pragas, guerras e tudo o mais com muita freqüencia. Todos os dias ela descarrega sobre nós o calor inflamável do sol, a fúria dos ventos, torrentes, neve, granizo, gelo e frio, que tanto enfraquecem toda a humanidade, como se ela estivesse com um resfriado febril. Além do mais, o que muitas vezes me amedronta, todo verão ela lança através de suas mãos furiosos relâmpagos e assustadores trovões para aterrorizar, repreender e punir a humanidade. E o que dizer das muitas doenças que mal são conhecidas
76 pela Medicina? E os vários venenos de cobras, sucos pestilentos e animais nocivos? Quando penso sobre tudo isso, muitas vezes fico perturbado a ponto de, se a Natureza aparecesse perante meus olhos, dou a minha palavra que eu me atreveria a pedir-lhe uma razão pelo seu comportamento e a confrontaria deste modo:
- VII. (1) Ó Natureza, a quem chamamos e acreditamos ser nossa mãe, te agrada
prover-nos com uma defesa tão pequena diante de um exército tão forte e, em uma batalha tão difícil, ter nos dado um espírito que prefere ser vencido a vencer; e ainda, não sendo nós completamente vitoriosos, nos persegue e nos pune com uma vingança imediata e terrível? Tu esperas, talvez, intimidar-nos com um chicote como se fôssemos crianças? Tu deve seguir outra estrada! O teu ensinamento, ó Natureza cruel, não é aprovado nem mesmo para crianças, pois, quem não é induzido a aprender pela punição com palavras, tampouco será persuadido pelo chicote. Similarmente, nenhuma alma humana jamais poderá amar as virtudes pela força. Toma cuidado para que não venham a odiar-te. Aqueles que apanharam de seus professores são, por acaso, os mais sábios? Certamente, não! Mas, aqueles que receberam com maior freqüencia os seus golpes são seguramente as melhores pessoas. (2) Por esta razão, levanto as minhas mãos suplicantes a ti e, ajoelhando-me, abraço os teus pés. Se és uma mãe, o que com certeza tu és, concede que teus filhos novamente te reconheçam como tal. Imagina que todos os povos do mundo, aqueles mesmos os quais tu consideraste hostis e teimosos, se prostassem diante de teus pés, esquálidos, humilhados e consumidos por suspiros e lágrimas. Estando em estado físico são, eles te fariam tais coisas se lhes fosse permitido e se tu o desejasses. Tais homens, ó mãe, sendo incapazes de implorar a ti por si mesmos, imploram através de mim para que permitas uma destas duas coisas: ou que uma grande quantidade de vícios seja diminuída e que o amor pelo honestidade penetre nas almas humanas; ou, a menos que sejamos punidos por crimes cometidos em uma vida anterior, que menos torturas, e mais suaves, sejam infligidas por conta de nossos pecados. Deixa viver os vivos e não os ataques com a mais cruel das torturas: impor um tributo que eles não podem pagar. Eles pedem isso para que a tua lei não seja comparada àquela, justamente repudiada, segundo a qual o corpo de um devedor insolvente era dividido proporcionalmente entre os seus credores49; e para que a condição
49 Quintiliano, Institutio Oratoria, III, 6, 84; Aulo Gélio, Noites Áticas, XX, I, 48-52. Se refere à Lei das Doze Tábuas, marco inicial do Direito Romano. XII Tábuas, 3, 6.
77 daqueles calados e sem razão não pareça ser melhor do que a nossa. E finalmente, para que o miserável grito de vários possa ser silenciado: oh, se tivéssemos nascido não como homens, mas como animais; ou, se nem ao menos tivéssemos nascido!
(3) Se eu fosse discutir tais assuntos perante a própria Natureza, não sei se eu teria
algum progresso, mas eu esperaria por isso. E como não é possível introduzi-la em uma conversa com os homens - estando escondida num lugar seguro, ela não teme as críticas alheias -, eu espero que vós me respondais em seu lugar, se é que tenhais uma resposta. E eu urgentemente vos incito a falar pois, realmente, apesar de eu acreditar que não há nada que possa me refutar, eu desejo ser refutado para que esta inquietação, ou melhor, aflição de minha alma, possa ser moderada.
VIII. (1) Depois que Catone assim defendeu sua causa, Vegio, sorrindo, começou:
- Embora estejamos lidando aqui com um dos mais dignos assuntos e, embora eu veja que Catone está comovido não apenas em seu discurso, mas também em sua alma, eu não posso todavia evitar o riso ao pensar que um orador tão grande, sob cujo patronato nenhuma causa jamais foi ameaçada, possa desviar tanto do ponto e falar contra seu próprio intento. Para prevenir-me que alguma severa censura diga que minha risada é maldosa, antes mesmo de começar a falar, eu afirmo que o que me agradou não foi a traição dele contra sua própria causa, e sim porque sua fala foi favorável ao meu propósito. Ele, quem afirma ser o mais hábil defensor dos estóicos e o mais perspicaz inimigo dos meus epicuristas (o seu discurso assim o declarou), não obstante, talvez tenha empregado esse discurso, não para elogiar as pessoas comuns - isto é, os camponeses e a gente simples - no lugar dos mais sábios, mas para não parecer que a vitória, que ele atribuira aos estóicos, fosse concedida à grande multidão que é epicurista, e também para se desculpar, se defender e se lamentar diante daquelas pessoas comuns. (2) No fim, o que mais fizeste senão assumir a própria defesa do prazer? Ó estóico coerente, gostarias que aos homens fosse permitido abandonarem-se impunemente ao prazer! Eu te parabenizo e fico feliz pelo fato de que nenhum membro daquele grupo tenha estado presente enquanto tu falavas. E creio que terá bastado que apenas um epicurista como eu tenha estado presente. Aqueles, os estóicos, teriam te reprovado. Eu, no entanto, apenas rio de ti. Eles teriam te desprezado enquanto te agitavas deplorando o destino da humanidade e, finalmente, enquanto protestavas contra a punição dos prazeres - algo que nem Epicuro, a quem chamas de
78 afeminado e delicado, teria ousado fazer. Eu suportei todo o teu discurso tranquilamente e me deliciava em silêncio não apenas porque tu defendias a minha causa, mas também porque expunhas a tua própria alma. (3) Mas, naturalmente, tendo uma opinião tão baixa sobre a humanidade, tu tinhas medo de não conseguir reprovar em segurança a vida comum - a vida “da turba ignorante”, como tu disseste - , se não culpasses os vícios humanos como crimes forjados pela Natureza. Eu preferiria que tu tivesses evitado essa dupla acusação, contra a Natureza e os homens, ao menos para evitar, enquanto tentavas conquistar a aceitação do público através do compadecimento de sua desgraçada condição, ganhar o seu ódio por reprovar o seu vicioso estilo de vida. Lemos que toda vez que Heráclito saía e considerava as ações dos homens, ele se lamentava por estes parecerem loucos. Por outro lado, Demócrito nunca foi visto em público sem estar sorrindo. A mesma coisa que fazia um chorar, fazia o outro rir. (4) Posso dizer que tu, que choras pelos homens, és bem parecido com Heráclito, exceto pelo fato de que tu não choras com tanta frequência porque temes que teus olhos se consumam em lágrimas. Juvenal se admirava pelo fato de que isto não tivesse acontecido com Heráclito50. Mesmo se eu rio, tu não podes comparar-me a Demócrito porque na verdade eu não rio dos homens em geral, mas de um em específico: aquele que chora pelos outros. No entanto, se tu acreditas que eu seja como Demócrito, então, sem dúvida, Heráclito ri de Demócrito. Realmente, pois o primeiro foi um estóico antes do surgimento dos estóicos, ao passo que o segundo foi professor de Epicuro. Portanto, tu, como o único imitador de Heráclito na terra, repreendes a humanidade, como eu disse, pela perversa vida que leva, o que me surpreende muito. Esses homens não reclamam de sua própria insensatez. Tu, quem, mais do que todos os outros, gozas da prerrogativa da sabedoria, ao invés de agradeceres à Natureza, a atacas, insultas e a conclamas em julgamento. (5) Ora, na minha opinião, a desculpa de que a maldade do homem derive da Natureza acaba por incriminá-la e não tira a culpa do homem. Se, de fato, tu és um homem tão sábio como acreditas ser, e como eu acredito, ao considerar os teus trabalhos e vigílias, por que os outros não seguem a sabedoria, especialmente quando eles têm a ti como modelo e mestre? Ser sábio não é negado a ninguém. Creio que tu tenhas sido ludibriado e levado à essa crítica pelas heresias estóicas, as quais, não pelas palavras, mas pelos atos, não trazem nenhuma honra aos deuses ou aos homens, uma vez que
79 empregam o falar de modo diferente do agir. (6) Esses estóicos incriminam de muitas maneiras a Natureza, como se ela pudesse ser reformada. E, de fato, eles tentam reformá-la quando, por exemplo, no caso das perturbações da alma e das paixões, eles acreditam na possibilidade destas serem arrancadas de nós completamente, e afirmam que ali não existe qualquer homem que não seja demente, louco ou possuído por quaisquer outras qualidades que se possa dizer de ofensivo. E não obstante tal opinião, eles reclamam serem, não os acusadores, mas as vítimas. Portanto, no que me diz respeito, apesar de eu concordar contigo em todo o resto, assumo junto à defesa da Natureza também aquela da raça humana que não se separa da primeira causa, como mostrarei a seguir.